terça-feira, 27 de março de 2018

QUEM SOU? – Ulisses Tavares

Não sou só o que sinto
Nem o que faço ativo
Além de minhas verdades
Sou o que também minto.
Verdade é o que vivo.
Para onde vou?
Vou para um lugar encantado
Sem sofrimentos sem baixarias
Vou para onde nem sei onde fica
Espero que seja a utopia
Tipo do lugar que não terei consciência
Daquilo que me fira, me pica.
De onde vim?
Vim daquele território que não tem nome
Nem codinome nem definição
Vim do éter, do nada, do indefinível
Sou assim, por isso, o sem nome,
Qualquer nome possível, anátema ou admirável,
O impossível e o viável
Se houvera na origem um deus
No momento há eu.
Olhem meu corpo
Olhem meu corpo e pensem:
Quantos espaços alcançam meus braços?
Quantos metros andam minhas pernas?
Talvez aí estejam meus limites
Talvez aí estejam minhas finitudes
Bem se falam de altitudes e latitudes
Estes chegares da ciência e do avanço,
Eu estou no lugar que posso,
Eu estou no lugar que alcanço.

HÁ QUEM – Kori Bolivia

Tradução de Anderson Braga Hortas

Há quem, no silêncio da morte,
sussurre segredos escondidos do além.
Há quem, no silêncio da morte,
escancara as janelas da alma e assim se mantém.
Há quem, na alegria da sorte,
chore os sonhos enterrados, também.
Há quem, na alegria da sorte,
invente caminhos debruçado na madrugada que vem.
Há quem, no burburinho da vida,
apunhala a melodia do olhar que não tem.
Há quem, no burburinho da vida,
pense que é grão de areia na praia de ninguém.
Há quem, no vaivém da vida,
não sabe o valor que a vida tem.

A BELEZA DESNUDA – Fabíola Palomares



Tradução ao português de Antonio Miranda

Tenho em minhas veias um alegre poema
sem curso e turvo como o mar
tão forte e espumante como a garoa que
cai entre meus sapatos descalços
Veias impregnadas
efêmera utopia
de minha cabeça mal humorada
Tão claro como o claro da lua
rocinante como o cavalo imaginário
Meu mundo fora do mundo
existe no impossível
e a beleza desnuda

ESQUIVA - Fabio Fiallo

Tradução de Solon Borges dos Reis

Nunca sua mão se pôs em minha mão
jamais gozei seu cândido sorriso
e o murmúrio que deve ser sua voz
nunca me amenizou a mágoa oculta.

Quando a sorte a põe em meu caminho
ela se esquiva logo, casta e trêmula
e eu finjo não vê-la em meu cuidado
para não lhe causar constrangimento.

Mas quando já vou longe em minha estrada
sinto voar atrás de mim seus olhos
qual par de abelhas cuja doce carga
vem, devagar, deixar sobre meus ombros.

sábado, 24 de março de 2018

TALVEZ O VENTO SAIBA – Ivan Junqueira

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.

Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.

Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

AFRODIVINO – Edir Meireles

quero-te bem bronzeada
ao ponto
no tempero
apimentada

sabes do meu paladar apurado
sendo que meus sentimentos
na mesa e na cama
são requintados

quanto aos condimentos
são fundamentais
pimenta do reino
afrodivino

o sal

deve estar à flor-da-pele
a fêmea sensual
cheirando a canela

temperatura
fogo em brasa
exalando perfume tropical
mania de brasilidade

MULHER ABJETA – Daniela Galdino

Não sei desenhar
não sei fazer conta
só entendo de assustar palavras.

Puxo o verbo pelo rabo
finco dente no dorso.

Quero des-edificar lares
provocar divórcio
entre significante e significado.
Aí será o oco da linguagem varrido pelo avesso.

Encosto a boca na orelha dos vocábulos
e sussurro:
"Deus é a nossa criação necessária".
Eles habitam pântanos de pânicos.
Estão prontos para representar meus terrores.

Eu não espero pelo dia
em que o meu nome flutuará
nas páginas de uma hagiografia.

Não sei qual evangelho rege
as impurezas da minha arte.

Eu transbordo excrescências,
dúvidas, luminosidades.
E... só entendo de assustar palavras.

CARTOGRÁFICA – Carina Castro

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efémero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento
envias de volta um papel em branco

IMPOSSÍVEL – Benedicta de Mello

Vive sempre a fugir-me o que procuro,
numa volúpia incrível de ir-se embora;
passa-me n’alma, voa, pousa fora,
cai-me das mãos se o tenho mais seguro.

Se o alcanço, não o vejo, é muito escuro;
ansiosa espero o refulgir da aurora,
para perdê-lo assim que o dia aflora.
E outra vez a segui-lo me aventuro.

Impossível! Efêmero estandarte!
queira o homem , não queira, o mundo é vosso.
Estais em tudo, como em qualquer parte.

Empregando em buscar-vos todo o empenho,
quando quero é uma coisa que não posso,
quando posso é uma coisa que não tenho.

O SANGUE DAS ROSAS – Abdias da Costa Neves

Quando sinto cantarem sobre as telhas
o ouro da luz e a voz das madrugadas,
vou ver morrer no céu as irisadas,
pequeninas e fúlgidas centelhas.

Ainda não despertaram as abelhas
para a festa das ramas enfloradas.
Pássaros dormem. Abertas nas estradas,
rosas pompeiam pétalas vermelhas...

De onde lhe vem aquele sangue rubro?
Sigo, pé ante pé, olho e me encubro
nos roseirais e de onde posso vê-las,

E vejo, então, velando o espaço infindo,
aquele sangue vir do céu caindo
pelos olhos de prata das estrelas...

segunda-feira, 19 de março de 2018

CANTANDO POR AÍ – John Ashbery

Tradução João Barrento

Que nome tenho eu para ti?
Decerto não há nome para ti
No sentido em que as estrelas não têm nomes
Que de algum modo lhes servem. Andando por aí,

Um motivo de curiosidade para alguns,
Mas tu estás demasiado preocupado
Com a nódoa secreta do outro lado da tua alma
Para falar muito, e vagueias por aí,

Sorrindo para ti e para os outros.
Chega a ser um tanto solitário,
Mas ao mesmo tempo desanimador,
Contraproducente, quando percebes uma vez mais

Que o caminho mais longo é o mais eficaz,
Aquele que serpenteava por entre as ilhas, e
Parecia que andavas sempre em círculo.
E agora que o fim está perto

Os gomos da viagem abrem-se como um laranja.
Lá dentro há luz, e mistério e sustento.
Anda ver. Vem, não por mim, mas por isso.
Mas se eu ainda lá estiver, concede que nos possamos encontrar.

OS POBRES - William Carlos Williams

Tradução José Paulo Paes

É a anarquia da pobreza
que me encanta, a velha
casa amarela de madeira recortada
em meio às novas casas de tijolo

Ou uma sacada de ferro fundido
com gradis representando ramos
folhudos de carvalho. Isso tudo combina
com as roupas das crianças

que refletem cada período e
estilo da necessidade -
Chaminés, telhados, cercas de
madeira e metal numa época

sem cercas delimitando quase
coisa alguma: o velho
de suéter e chapéu preto
a varrer a calçada –

os seus três metros de calçada
na ventania que inconstante
virou-lhe a esquina para vir
tomar conta da cidade inteira

NALGUM LUGAR EM QUE EU NUNCA ESTIVE - E. E. Cummings

Tradução Augusto de Campos

Nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas

sexta-feira, 16 de março de 2018

A OUTRA FACE – Leandro Jardim

Eu sou a face
Face à face
Da vitória
Mas sou derrota e liberdade
Autonomia
Em meio à farra de excluídos
Eu me incluí
Do feto à foice
Ou pelo instante de uma festa
Onde encarei
Frente a frente
O rosto maleável
E severo da verdade

Que me mentiu solenemente.