terça-feira, 27 de março de 2018

DÚVIDA DE ELECTRA - Delfina Acosta


Tradução Antônio Miranda

Acaso essa mulher - creio tê-la visto sempre -,
que me olha do meu modo
desde aquele imenso espelho,
que ostenta meu vestido azul
e leva este lenço
de cor dando voltas
em ondas pelos ombros
- parecia mais contente instantes atrás -,
não sou eu.
É possível duvidar dos espelhos?
E que da calórica e suas leis?
E que das imagens sensatas?
Anos que levo mirando-me em seus rostos,
duvidando seriamente de sua fidelidade.
Anteontem o busto de Ifigênia, filha de Agamenon,
Rei de Micenas e de Argos,
nesta manhã, Joana, embandeirada e resoluta,
Virginia Woolf de tarde, pasmada de mar,
amamentando crustáceos.
Agora, quem se atreverá a dizer-me
que essa mulher aqui diante
e senta frente ao espelho,
sou eu, setenta vezes eu,
sem mirar-se antes nele?

QUEM SOU? – Ulisses Tavares

Não sou só o que sinto
Nem o que faço ativo
Além de minhas verdades
Sou o que também minto.
Verdade é o que vivo.
Para onde vou?
Vou para um lugar encantado
Sem sofrimentos sem baixarias
Vou para onde nem sei onde fica
Espero que seja a utopia
Tipo do lugar que não terei consciência
Daquilo que me fira, me pica.
De onde vim?
Vim daquele território que não tem nome
Nem codinome nem definição
Vim do éter, do nada, do indefinível
Sou assim, por isso, o sem nome,
Qualquer nome possível, anátema ou admirável,
O impossível e o viável
Se houvera na origem um deus
No momento há eu.
Olhem meu corpo
Olhem meu corpo e pensem:
Quantos espaços alcançam meus braços?
Quantos metros andam minhas pernas?
Talvez aí estejam meus limites
Talvez aí estejam minhas finitudes
Bem se falam de altitudes e latitudes
Estes chegares da ciência e do avanço,
Eu estou no lugar que posso,
Eu estou no lugar que alcanço.

HÁ QUEM – Kori Bolivia

Tradução de Anderson Braga Hortas

Há quem, no silêncio da morte,
sussurre segredos escondidos do além.
Há quem, no silêncio da morte,
escancara as janelas da alma e assim se mantém.
Há quem, na alegria da sorte,
chore os sonhos enterrados, também.
Há quem, na alegria da sorte,
invente caminhos debruçado na madrugada que vem.
Há quem, no burburinho da vida,
apunhala a melodia do olhar que não tem.
Há quem, no burburinho da vida,
pense que é grão de areia na praia de ninguém.
Há quem, no vaivém da vida,
não sabe o valor que a vida tem.

A BELEZA DESNUDA – Fabíola Palomares



Tradução ao português de Antonio Miranda

Tenho em minhas veias um alegre poema
sem curso e turvo como o mar
tão forte e espumante como a garoa que
cai entre meus sapatos descalços
Veias impregnadas
efêmera utopia
de minha cabeça mal humorada
Tão claro como o claro da lua
rocinante como o cavalo imaginário
Meu mundo fora do mundo
existe no impossível
e a beleza desnuda

ESQUIVA - Fabio Fiallo

Tradução de Solon Borges dos Reis

Nunca sua mão se pôs em minha mão
jamais gozei seu cândido sorriso
e o murmúrio que deve ser sua voz
nunca me amenizou a mágoa oculta.

Quando a sorte a põe em meu caminho
ela se esquiva logo, casta e trêmula
e eu finjo não vê-la em meu cuidado
para não lhe causar constrangimento.

Mas quando já vou longe em minha estrada
sinto voar atrás de mim seus olhos
qual par de abelhas cuja doce carga
vem, devagar, deixar sobre meus ombros.

sábado, 24 de março de 2018

TALVEZ O VENTO SAIBA – Ivan Junqueira

Talvez o vento saiba dos meus passos,
das sendas que os meus pés já não abordam,
das ondas cujas cristas não transbordam
senão o sal que escorre dos meus braços.
As sereias que ouvi não mais acordam
à cálida pressão dos meus abraços,
e o que a infância teceu entre sargaços
as agulhas do tempo já não bordam.

Só vejo sobre a areia vagos traços
de tudo o que meus olhos mal recordam
e os dentes, por inúteis, não concordam
sequer em mastigar como bagaços.

Talvez se lembre o vento desses laços
que a dura mão de Deus fez em pedaços.

AFRODIVINO – Edir Meireles

quero-te bem bronzeada
ao ponto
no tempero
apimentada

sabes do meu paladar apurado
sendo que meus sentimentos
na mesa e na cama
são requintados

quanto aos condimentos
são fundamentais
pimenta do reino
afrodivino

o sal

deve estar à flor-da-pele
a fêmea sensual
cheirando a canela

temperatura
fogo em brasa
exalando perfume tropical
mania de brasilidade

MULHER ABJETA – Daniela Galdino

Não sei desenhar
não sei fazer conta
só entendo de assustar palavras.

Puxo o verbo pelo rabo
finco dente no dorso.

Quero des-edificar lares
provocar divórcio
entre significante e significado.
Aí será o oco da linguagem varrido pelo avesso.

Encosto a boca na orelha dos vocábulos
e sussurro:
"Deus é a nossa criação necessária".
Eles habitam pântanos de pânicos.
Estão prontos para representar meus terrores.

Eu não espero pelo dia
em que o meu nome flutuará
nas páginas de uma hagiografia.

Não sei qual evangelho rege
as impurezas da minha arte.

Eu transbordo excrescências,
dúvidas, luminosidades.
E... só entendo de assustar palavras.

CARTOGRÁFICA – Carina Castro

de distâncias traçadas entre sonhos
passos e pousos
redimensiono o interior do meu interior
e a brevidade entre pensamento e pensamento
não acompanha o vagar do corpo
entregue ao manejo da maré
nem o vagar da garrafa ondulando sobre os dias
entre soluços de bêbado e pranto
encontraste a carta, mas não entendeste a letra
e não há legendas, coordenadas, vozes,
mapas para minha memória
dói fundo a longitude de meus garranchos
perdidos no efémero de um idioma
ilegível entre latentes caligrafias, alfabetos
e não vês no céu
a constelação com meu nome
não podes ler minhas mãos
e latejando minhas letras dizem
teu futuro, te dão leme
leem tuas digitais
no leme, no copo, na garrafa
só não traduz a lancinante latitude
do teu entendimento
envias de volta um papel em branco

IMPOSSÍVEL – Benedicta de Mello

Vive sempre a fugir-me o que procuro,
numa volúpia incrível de ir-se embora;
passa-me n’alma, voa, pousa fora,
cai-me das mãos se o tenho mais seguro.

Se o alcanço, não o vejo, é muito escuro;
ansiosa espero o refulgir da aurora,
para perdê-lo assim que o dia aflora.
E outra vez a segui-lo me aventuro.

Impossível! Efêmero estandarte!
queira o homem , não queira, o mundo é vosso.
Estais em tudo, como em qualquer parte.

Empregando em buscar-vos todo o empenho,
quando quero é uma coisa que não posso,
quando posso é uma coisa que não tenho.

O SANGUE DAS ROSAS – Abdias da Costa Neves

Quando sinto cantarem sobre as telhas
o ouro da luz e a voz das madrugadas,
vou ver morrer no céu as irisadas,
pequeninas e fúlgidas centelhas.

Ainda não despertaram as abelhas
para a festa das ramas enfloradas.
Pássaros dormem. Abertas nas estradas,
rosas pompeiam pétalas vermelhas...

De onde lhe vem aquele sangue rubro?
Sigo, pé ante pé, olho e me encubro
nos roseirais e de onde posso vê-las,

E vejo, então, velando o espaço infindo,
aquele sangue vir do céu caindo
pelos olhos de prata das estrelas...