quarta-feira, 4 de abril de 2018

POEMA DE AMOR – Fernando Namora

Se te pedirem, amor, se te pedirem
que contes a velha história
da nau que partiu
e se perdeu,
não contes, amor, não contes
que o mar és tu
e a nau sou eu...

E se pedirem, amor, e se pedirem
que contes o velho drama
do lobo que matou o cordeiro
e lhe comeu o seu pão,
não contes, amor, não contes
que o lobo é a minha carne
e o cordeiro a minha estrela
que sempre tu conheceste
e te guiou, — mal ou bem...

Depois, sabes... eu estou cansado
desta farsa.

Histórias, lendas, amores...
tudo me corre os ouvidos
a fugir.
Sou o guerreiro sem forças
para erguer a sua espada;
sou o piloto do barco
que a tempestade afundou...

Não contes, amor, não contes
que eu tenho a alma sem luz...
............................................
Quero-me só, a sofrer e a arrastar
a minha cruz!

O MAR, O MAR – D. H. Lawrence

Tradução de Leonardo Fróes

O mar dissolve tanta coisa
            e a lua leva embora tão mais
            do que sabemos -

Assim que a lua baixa
e o mar se apossa de nós
as cidades se dissolvem como sal-gema
o açúcar funde fora da vida
o ferro some como velha mancha de sangue
o ouro se transmuda em sombra verde
o dinheiro sequer deixa um sedimento:
só o coração
cintila em seu triunfo salino
sobre tudo o que soube e agora foi-se
na salinidade do nada.

O INVENCÍVEL – Mario Barité

Esta luz que se ergue
firme te atravessa,
esta lava que alivia
e não queima quando avança,
e é louvor de rei.

E é aço e é papiro
e transgride qualquer lei,
amnésia de quase tudo
que dura quanto um suspiro
e de tão fugaz parece eterna.

Esta luz é o invencível
e fulgura na caverna,
a que não podemos dizer
senão com extremo tato,
com palavras inaudíveis,
com silêncios que redimem
quanto solidão de peso”,
quantas ganas de prender,
de tornar-te prisioneira
e ser teu escravo possesso.

Esta luz é  o invencível
e transgride qualquer lei,
amnésia de quase tudo
que dura como um suspiro
e de tão fugaz parece eterna.

PALAVRAS ADEQUADAS - Alberto Acosta-Pérez

Tradução de José Eduardo Degrazia

Eu não quis cantar nem o amor,
nem o país, nem a mim
mesmo, mas todos,
o amor, o país, e eu mesmo,
numa golfada fatal
através de mim se levantaram
e como deuses invencíveis,
por cima do medo,
deslizaram na minha boca
as palavras adequadas para ferir e amar,
mais altas do que o inverno,
mais fortes,
mais permanentes que o diamante;
palavras que fecharam as portas da fuga
e atravessaram meu coração feito punhalada,
e se escreveram sozinhas,
contra a minha vontade de ser totalmente livre,
contra o meu pensamento,
e inclusive, às vezes,
contra o meu próprio coração!

segunda-feira, 2 de abril de 2018

CANTIGA DO MUNDO – Paulo César Pinheiro

O vento não nasce de nada.
Também ninguém sabe onde finda.
Cheguei com esse vento na estrada.
E vou muito mais longe ainda.

Eu moro no meio da rua,
Do rio, do mar e do mundo.
Se a brisa passar, ela é sua.
Se é o vento, eu mergulho no fundo.

Pra mim não tem vento bravio
Que venha apagar minha brasa,
Pois é com a corrente do rio
Que eu tranco o portão lá de casa.

Tem gente que ouve o meu nome
Gravado em rajada de vento
Porque furacão e ciclone
Me servem de cama e assento.

O vento que faz rodopio
Desata o cordão da sacola.
E uso do seu assovio
A fim de afinar a viola.

Por isso é que eu sou vagabundo.
E o vento que quer que eu prossiga.
Que eu faço a cantiga do mundo
E o vento é que canta a cantiga.

AS POMBAS – Raimundo Correia

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.

sábado, 31 de março de 2018

DE NOITE VELAM OS POETAS – Sergio Mondragon

De noite velam os poetas
         com olhos que brilham no escuro;
         aptos para a contemplação
                            o pensamento voa
         no sono mergulham
         o sentimento do altiplano os agasalha
                  em sua cama de intuições
         abutres do divino
         aves dos desfiladeiros com o pescoço exposto
         a ira de imagens em debandada:

abandonem esta presa!
                   soltem estas mãos!
                   deixem que a noite pense por suas bocas!

na substância espessa do imóvel
         sabem o que as coisas se dizem no escuro
         ouvem os seres roçam com os seres
         ouvem-nos saboreando a maçã
         na ânima do mundo
         na chapada terrível sem beiradas
         os poetas vela
                   os poetas sonham
                            com os olhos abertos para o vazio

MANDALA – Tereza Calderon

Tradução de Albino M.

Cumpri os 40.
Vi esta noite o universo despenhar-se nas minhas costas
e abrir-se um buraco negro absoluto para diante.
Depois tive que fazer 41.
A metade que já se foi da minha vida faz sinais
à outra metade que está para vir
e ambas duas se esquivam de mim.
De modo que não tive outro remédio senão fazer 42.
Posta então a meio do caminho desmorono-me
pedaço de terra vou terra na terra girando.
Ninguém sabe o que espera em que futuro se houver futuro
cinzas sombra e sombra apenas sobre figuras de lama
grão de areia pó no pó a derramar-se
há quatro mil milhões de anos.

ÍNTIMO – Valentim Magalhães

Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito…
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.

terça-feira, 27 de março de 2018

DÚVIDA DE ELECTRA - Delfina Acosta


Tradução Antônio Miranda

Acaso essa mulher - creio tê-la visto sempre -,
que me olha do meu modo
desde aquele imenso espelho,
que ostenta meu vestido azul
e leva este lenço
de cor dando voltas
em ondas pelos ombros
- parecia mais contente instantes atrás -,
não sou eu.
É possível duvidar dos espelhos?
E que da calórica e suas leis?
E que das imagens sensatas?
Anos que levo mirando-me em seus rostos,
duvidando seriamente de sua fidelidade.
Anteontem o busto de Ifigênia, filha de Agamenon,
Rei de Micenas e de Argos,
nesta manhã, Joana, embandeirada e resoluta,
Virginia Woolf de tarde, pasmada de mar,
amamentando crustáceos.
Agora, quem se atreverá a dizer-me
que essa mulher aqui diante
e senta frente ao espelho,
sou eu, setenta vezes eu,
sem mirar-se antes nele?

QUEM SOU? – Ulisses Tavares

Não sou só o que sinto
Nem o que faço ativo
Além de minhas verdades
Sou o que também minto.
Verdade é o que vivo.
Para onde vou?
Vou para um lugar encantado
Sem sofrimentos sem baixarias
Vou para onde nem sei onde fica
Espero que seja a utopia
Tipo do lugar que não terei consciência
Daquilo que me fira, me pica.
De onde vim?
Vim daquele território que não tem nome
Nem codinome nem definição
Vim do éter, do nada, do indefinível
Sou assim, por isso, o sem nome,
Qualquer nome possível, anátema ou admirável,
O impossível e o viável
Se houvera na origem um deus
No momento há eu.
Olhem meu corpo
Olhem meu corpo e pensem:
Quantos espaços alcançam meus braços?
Quantos metros andam minhas pernas?
Talvez aí estejam meus limites
Talvez aí estejam minhas finitudes
Bem se falam de altitudes e latitudes
Estes chegares da ciência e do avanço,
Eu estou no lugar que posso,
Eu estou no lugar que alcanço.

HÁ QUEM – Kori Bolivia

Tradução de Anderson Braga Hortas

Há quem, no silêncio da morte,
sussurre segredos escondidos do além.
Há quem, no silêncio da morte,
escancara as janelas da alma e assim se mantém.
Há quem, na alegria da sorte,
chore os sonhos enterrados, também.
Há quem, na alegria da sorte,
invente caminhos debruçado na madrugada que vem.
Há quem, no burburinho da vida,
apunhala a melodia do olhar que não tem.
Há quem, no burburinho da vida,
pense que é grão de areia na praia de ninguém.
Há quem, no vaivém da vida,
não sabe o valor que a vida tem.