quarta-feira, 2 de maio de 2018

O “ADEUS” DE TERESA – Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos. E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu. Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!... ”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

O POETA DO HEDIONDO – Augusto dos Anjos

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!

SEGUNDA-FEIRA - Mario Benedetti

Voltou o nobre trabalho
puxa, que triste
que nos brinda o pão nosso
puxa, que triste
me enfio no atraso
atéquandomeudeus
como um vício parafuso
como qualquer verme
me enfio no atraso
e o atraso me asfixia,
dois vinte, cinco quinze,
me esmaga, me bate,
onze setenta, mil
trezentos vinte e um,
se perdeu uma cifra
estava aqui e agora
três falsas inversões
gotejam do meu bolso
alguém chama alguém manda
puxa, que triste
alguém
se enfiou no atraso
desorganizou as pistas
e em cada diferença
adicionou três centésimos.

Voltou o nobre trabalho
aleluia
que peste
faltam para o domingo
umas sete semanas.

segunda-feira, 30 de abril de 2018

SUSPENSA – Tatiana Nascimento

pra quem tem: pássaro dentro, o
mais massa do voo é planar
(que é uma fé no sopro
do vento), o tao do movimento

é parar. Pra

que ter pressa com o lento?,
só vai pousar quem ousa
vo(ar: gravidade dá
seu sustento,

imagina imagina imagina

orbitar sem

parar?)

[ g o s t o ] – Bárbara Esmênia


gosto quando teu toque
ultrapassa o mero sentir
e me atinge na inteligência

me masturbo com tuas palavras

e quando concluis uma ideia
chego ao ápice
ao levar-me junta a tal síntese

minha pré-disposição a entender alerta
com neurônios fogosos
excitados de teorias que você mesma inventa

tudo isso porque
- sabe -
que o que abala minha mente
faz gozar meu corpo inteiro


LIBIDO – Mayana Vieira

Tudo começa na boca, menina
E espalha em meu corpo esse desejo sem controle
Rouba-me a razão
E me entrega ao outro lado,
Os corpos despidos em confronto
É a minha coxa
A tua coxa
As pernas entrelaçadas e o ofegar da respiração!
Esses movimentos circulares de dedos molham-me o sexo, menina
É esse vai e vem…
Vem e vai…
Entra e sai…
E tudo termina na boca, menina.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

NO SILÊNCIO DA PEDRA – Patrícia Tenório

A pedra fala
A pedra canta
O que não se quer ouvir
O rouxinol se espanta
Quando de pedra
Me faço
E o estilhaço
Num coração partido

Vem o silêncio
Diz mais à pedra
Que as palavras
Esculpidas
Transgredidas
Esvaídas no tempo

Para saber o laço
Que se tece
E cresce
Entre mim e o outro
Que fala
Canta
E se quer ouvir

DANÇO SOBRE UM ABISMO – Diva Goulart

toda vestida de rosas
mas que ninguém me veja.
de um lado está a vida
e do outro está a morte.

Com o tempo, uma a uma,
as rosas vou desfolhando:
uma rosa para a morte
outra rosa para a vida.

No palco em que me descubro
(alva forma tão despida)
não quero que a profanem.
Que todos fechem os olhos,
assim que subir o pano.

ABRIL – Fernando Fiuza

Abril melava o chão da tarde de cajá
e um gato ronronava dentro do meu peito;
as estradas de lama – quase tudo brejo
onde as almas diziam às rãs coisas do mar.

Não se plantava nada, o mato crescia quieto
e era dono de tudo, dono até das telhas;
a chuva disputava os ares com o silêncio
e um barco de papel coloria a correnteza.

O cavalo mancava – cegos pêlo e crina
que a derradeira luz não mais os penteava -,
a roseta com sangue entre os dentes não gira;
era a vez da leitura e palavras cruzadas.

Abril jamais me foi cruel e sim molhado
- quem sabe são meus olhos, restos do naufrágio.

(De: O Vazio e a Rocha)

INCONSTANTE – Gabriel Nogueira Maia

O tempo está inconstante
como coração de mulher:
chove e me abrigo no carro,
racha o sol e não posso ir a pé.

Nessas horas sofre o pagão,
mais vale a quem tem fé.
Minha fé não tem regras,
regras são coisa de mulher.

A mulher sangre, é certo,
exceto quando fora da idade.
Um dia foi muito cedo,
amanhã será muito tarde.

Então dê asas ao desejo,
enquanto ele ainda lhe arde.
Espraie-se até os herdeiros,
deixe heranças sem calcular-se.

O cálculo atrapalha a vida,
que já mal se filtra,
se ele é renal.

Repito-me:
não fique mola encolhida,
só lhe pode fazer mal.
“hoje eu sei:
Só a mudança é permanente”,
não tem como pensar diferente!

(E ponto final.)

domingo, 22 de abril de 2018

AL-GHARB - Luís Carlos Patraquim

Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras

Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres

Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo

É a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.

PRIMAVERA - Maria da Saudade Cortesão Mendes


A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.

SE ME QUISERES CONHECER – Noêmia de Sousa



Se me quiseres conhecer,
estuda com olhos de bem ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.
Ah, essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida.
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enormes espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica.
Altiva e mística.
África da cabeça aos pés
- Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando...
duma canção nativa, noite dentro...

E nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que eu não sou mais que um búzio de carne
onde a revolta de África congelou
 seu grito inchado de esperança.

DESENGANO – Paulo Brito e Abreu

Nos braços do Amor, o Fado amaro
Me pôs um dia cru, enraivecido;
Me pôs para sofrer, que o dolorido
E tenebroso Amor, me custou caro.

Em lágrimas e Dor, no desamparo,
Amor me foi algoz, e foi bandido;
Foi loucura este Amor, que o deus Cupido,
Por ser vidente e cego, é pomo raro.

Oh Dor, míseras tunas, meus enganos,
Tristes águas, alvor de mágoas mil:
Meu candor, que assim foi nas almas danos,

Seja alor, seja alegre e pastoril,
Que é triste eu ir morrendo anos e anos,
Como é vil, um Abreu não ter Abril.