segunda-feira, 14 de maio de 2018

IMORTAL – Vivita Cartier

Tenho o corpo abatido, o olhar tristonho;
recôndita opressão me esmaga o peito;
falta-me o ar, nunca respiro a jeito;
se me obrigam a andar, logo me oponho.

No espaço indefinido os olhos ponho,
atirada, sem forças, sobre o leito.
E penso… penso nesse gozo eleito
duma vida futura, com que sonho…

Embora humilde, resignada embora,
        sucumbo ao negro horror que me apavora,
        se pressinto um tormento prolongado.

E anseio pela queda da matéria,
para minh’alma, em escalada etérea,
        chegar, enfim, ao mundo desejado…

VIRTUAL – Terêsa Tenório

No epicentro das ondas invisíveis
edifiquei mandalas para os celtas
habitantes dos últimos milênios
guelras de peixes e barbatanas retas

Onde o mar arrastara nossas redes
para morder-nos tênues fios de espera
o fluir das espumas retalhou
os tecidos da carne contra as pedras

nos módulos lunares dissolvi
toda a sombra da superfície líquida
seus cardumes de tubarões-martelo

entre indormidos teoremas míticos
arremessei ao lume destes versos
nossa imagem virtual de estranhos ritos

terça-feira, 8 de maio de 2018

NOTÍCIAS – Violeta Branca

Vento que vens de longe
nas horas de maré alta,
vento que nunca trazes
notícias de quem me falta.
Vento que já passaste
entre veleiros nos portos,
em ti só escuto as palavras
de saudade dos meus mortos.
Vento de mãos abertas
abrindo as salas desertas
onde guardo o meu sossego,
leva contigo essa angústia
que ame atormenta e exalta
mais o desejo e o apego
que tenho por quem me falta.

EU (:) RIO – Bianka Andrade

Eu: rio de dor.
Eu rio da dor
persistente,
perspicaz,
penetrante.

Eu rio da dor.
Eu: rio de dor
consciente,
cos+]tumaz,
cortante.

Companheiro sagaz
esse absinto amargor.
Companheiro insistente
esse rio de dor.

Eu rio da dor.

INCERTO CAMINHAR – David de Medeiros Leite

Na mesma estrada longa e sinuosa
seguindo por estorvos, descaminhos
- ao lado a companhia generosa -,
agruras transformadas em carinhos.

A estrada/ que se faz ida e retorno,
transporta realidade e desvario.
Há vida no seu leito e em seu entorno,
assim como no curso de algum rio.

Também há o andarilho solitário,
disperso em seu mundo sempre errante,
sem data, sem agenda, sem horário.

A estrada é esta vontade de chegar...
E é o passo que transforma a todo instante
a vida num incerto caminhar.

NOITE DE INSÔNIA – Emilio de Menezes

Este leito que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito.
Ambos cheios de anelo e ambos cheios de susto;

Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto.
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito.
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

Louco e só! Desvairado! A noite vai sem termo
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais.
Envolve a Natureza e penetra o meu ermo.

E mal julgas talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo,
Este horrível temor de que não voltes mais!...

BAIRRO DO RECIFE: ADOLESCÊNCIA – Gastão de Holanda



Zona portuária, espectro de blenorragia
e cargueiros.
A puta se mira no espelho
mão no queixo, como se perguntasse:
- Que meios, para atravessá-lo?
Eu responderia:
- Mil vezes, o outro lado.
Ela sorri pelo canto amargo da boca
e desaparece atrás do biombo chinês.
Ouço o chocalhar das abluções
como as mareias no casco do cargueiro.
Considero o toucador colorido,
espectro de enormes vidros de loção.
Estou nu como uma garrafa,
nudez de vidro,
o quarto é o Éden.

NOBILITAÇÃO – Filinto de Almeida

À história de Raquel, Jacó e Lia
É como outras do Gênesis, obscena;
E se o ludibrio de Jacó faz pena,
A sordícia das fêmeas enfastia.

Além da permitida bigamia,
As servas entram igualmente em cena,
Com a cumplicidade mais serena,
Que só evita o leito à luz do dia.

Mas eis que o Poeta entra naquela alfurja,
Analisa e pondera a história lida,
Sem que o seu gênio sideral se insurja;

E dela, transformada e enobrecida,
Faz, em quatorze versos, que ressurja
Num puro amor mais longo do que a vida.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

NEGRO ADEUS – Vitoriano Palhares

Adeus ! Já nada tenho que dizer-te,
Minhas horas finais trêmulas correm.
Dá-me o último riso, pra que eu possa
Morrer cantando, como as aves morrem.

Ai daquele que fez do amor seu mundo!
Nem deuses nem demônios o socorrem.
Dá-me o último olhar, para que eu possa
Morrer sorrindo, como os anjos morrem.

Foste a serpente, e eu, vil, ainda te adoro !
Que vertigens  meu cérebro percorrem !
Mente a última vez, para que eu possa
Morrer sonhando, como os doidos morrem.

ARTE – Zeno Cardoso

Tu estás no meu sangue. E não posso olvidar-te.
Tenho ódio de ti, e no entanto te adoro.
O teu olhar de fogo eu sinto em toda parte
pela terra gelada onde em degredo eu moro.

És tênue como a luz. Em vão tento apertar-te
nos meus braços vazios. E se tu vens, imploro
que te afastes de mim. Mas não posso deixar-te
porque estás no meu ser, clarão de meteoro!

És coveira piedosa e plantas nas feridas
que costumas abrir no âmago das vidas
a semente de luz que diviniza o pranto.

És brancura lirial divinizando o mangue,
és vampiro infernal, e bebes o meu sangue,
e por isso te odeio e te idolatro tanto.

POMBA FERIDA - Zalina Rolim

Ela veio cair trêmula, exangue,
junto a um craveiro aberto em rubras flores.
Tinha entre as penas úmidas de sangue,
das pétalas do cravo as rubras cores.

A moribunda olhar enevoado,
toda a tremer de inquietação, volvia
para beirais fronteiros do telhado,
de onde queixoso pipilar partia...

Batendo as asas, arquejante, ansiado,
rápido chega, exausto, alucinado,
o companheiro que o lamento ouvira;

E a pobre, que a esperá-lo à dor persiste,
soergue ao vê-lo a cabecinha triste,
e, as brancas asas agitando, expira...

PÁSSARO AZUL – Charles Bukowski

há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica aí dentro,
não vou deixar
ninguém ver-te.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu despejo whisky para cima dele
e inalo fumo de cigarros
e as putas e os empregados de bar
e os funcionários da mercearia
nunca saberão
que ele se encontra
lá dentro.
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado duro para ele,
e digo, fica escondido,
queres arruinar-me?
queres foder-me o
meu trabalho?
queres arruinar
as minhas vendas de livros
na Europa?
há um pássaro azul no meu coração
que quer sair
mas eu sou demasiado esperto,
só o deixo sair à noite
por vezes
quando todos estão a dormir.
digo-lhe, eu sei que estás aí,
por isso
não estejas triste.
depois,
coloco-o de volta,
mas ele canta um pouco lá dentro,
não o deixei morrer de todo
e dormimos juntos
assim
com o nosso
pacto secreto
e é bom o suficiente
para fazer um homem chorar,
mas eu não choro,
e tu?

O “ADEUS” DE TERESA – Castro Alves

A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus
E amamos juntos. E depois na sala
“Adeus” eu disse-lhe a tremer co’a fala

E ela, corando, murmurou-me: “adeus.”

Uma noite entreabriu-se um reposteiro. . .
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus
Era eu. Era a pálida Teresa!
“Adeus” lhe disse conservando-a presa

E ela entre beijos murmurou-me: “adeus!”

Passaram tempos sec’los de delírio
Prazeres divinais gozos do Empíreo
… Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse – “Voltarei! descansa!... ”
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: “adeus!”

Quando voltei era o palácio em festa!
E a voz d’Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei! Ela me olhou branca surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!

E ela arquejando murmurou-me: “adeus!”

O POETA DO HEDIONDO – Augusto dos Anjos

Sofro aceleradíssimas pancadas
No coração. Ataca-me a existência
A mortificadora coalescência
Das desgraças humanas congregadas!

Em alucinatórias cavalgadas,
Eu sinto, então, sondando-me a consciência
A ultra-inquisitorial clarividência
De todas as neuronas acordadas!

Quanto me dói no cérebro esta sonda!
Ah! Certamente eu sou a mais hedionda
Generalização do Desconforto

Eu sou aquele que ficou sozinho
Cantando sobre os ossos do caminho
A poesia de tudo quanto é morto!