sábado, 26 de maio de 2018

CANÇÃO DO AMOR LIVRE – Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

TEUS CABELOS – Gilberto Amado

Quero louvar o zelo desenvolto
com que arranjas o próprio desmazelo,
é sempre para mim cabelo solto
por melhor penteado o teu cabelo.
Em doce névoa de volúpia envolto
gozo contente o descuidado zelo
com que logras fazer de um mar revolto
de ondas lisas o clássico modelo.
Mergulham minhas mãos na noite funda
da perturbante tempestade em ordem
que o teu rosto claríssimo circunda.
E encontram minhas mãos onde mergulham
um ninho de relâmpagos que mordem,
novelos de serpentes que fagulham.

FORMA – Dante Milano

Envolvente sentimento,
Abraço que se insinua
E entre amoroso e violento
Quer que a mulher fique nua.

Tirado o vestido aéreo,
O eflúvio sexual que a inunda
Revela a região profunda
Da vida, do seu mistério.

Mulher de orlas misteriosas,
Água de desenhos sábios,
Contorno de olhos e lábios
Feitos de linhas sinuosas.

O ventre em remanso de onda
Transborda, em círculos cheios,
Pelas ancas se arredonda
E redemoinha nos seios.

Ó pedra atirada n´água,
Que o meigo umbigo magoa.
Água tocada de mágoa,
Beijo com força, que doa.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

RASGO - Monica Marques

Trago o tempo entre os dentes
É preciso morder a existência pelas bordas
para que não escape

É necessário rasgar a carne
para o que está dentro
possa vir à tona

Rasgar entre a luz e a fumaça
Mexer as imagens com os dedos
Acordar entre a loucura e poesia
Sonhar até ficar vazia

Não há mais delicadeza
Apenas pólvora queimando sem rima
Poesia frita em óleo sujo
Translucidez

Ser é tempo iluminado
Que se desdobra em sua espessura
E vira a esquina

UM MARINHEIRO E O RECIFE – Pedro Américo de Farias

Indiferente
à verdade e à fantasia

ao traçado do primeiro
e do último arquiteto

à lógica que não seja
a do olho e do tato

ao amor louco dos bêbados ansiosos
e à auto-flagelação dos ressacados

ao deslumbramento do turista aprendiz de hoje
e à lamentosa tortura dos passadistas

à complacência dos podres poderes
e à penitência dos pobres beatos

um marinheiro
pinta para si mesmo
a rua que lhe convém

diminui distâncias e aproxima o porto
desmancha a topografia
recompõe a cidade
sem perder de vista
o mar e a linha do horizonte

POCILGA – Rafael Rocha

Do livro “Ômega & Alfa”

Na curva dos caminhos dos porcos
o tempo estacionou taciturno
apagou a luz da rua
trouxe o vento frio
e pintou o horizonte de nada.

Homens gritaram crueldades
o dia fez-se vagabundo
e os poderosos filhos das putas:
sargentos, coronéis, generais,
deputados, senadores, ministros
abriram os cadafalsos
e despejaram neles as línguas dos vivos.

A sirene do calabouço tocou ao longe
e o chicote do feitor vibrou na escuridão.
Na curva dos caminhos dos porcos
os proprietários das pocilgas da pátria
levaram repasto de merda para o povo.

AVE APRENDIZ - Susanna Busato

Escondidas nas pernas
minhas perdas:
suas penas
de ave aprendiz.
Voam baixo
sob os últimos raios
do nosso eterno
olhar cicatriz.
Voam rentes agora e sempre
as penas à pele a sentir
e como presas se rendem
e entre as pernas se perdem
e cantam um não existir.

ÍNTIMO – Valentim Magalhães

Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito…
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONETO DA PALAVRA NUA - Carla Nobre

Quero para minha poesia
Todas as palavras nojentas
As obscuras, as ambíguas
Uma linguagem piolhenta

Não me envergonho das minhas escolhas
Minha palavra é minha pepita
Catarro, mentira, dor, sangue
Suvaco, urubus, bruxaria, bauxita

Todas as palavras são bem vindas
E com elas as penas, a moela, as tripas
E todos os seus sentimentos e suas histórias

Das mais tristes às mais lindas
Fico com o verbo parir
E toda a sua memória

ESP-HERANÇA – Ádyla Maciel

O que nos acende e o que nos apaga
São os nossos desejos e ideologias
Ninguém está preparado pra nascer

Ninguém conhece o real segredo
Do mistério indecifrável de nossa existência.
Existe uma lei natural e inatingível

Mas se nesse momento você tiver audição
Pare e ouça o assovio do vento
É o cosmo paquerando sua vibração

Pega aquela concha antiga
Pega aquela concha e põe perto do ouvido
E Escuta o barulho do mar

O barulho do mar não é um barulho
É um código, um dialeto.
Como as cordas vocais dos elefantes

Comunique-se com o sol, com o vento
Dance com as árvores
Seja o que você quiser !

E quando sua carne apodrecer e desaparecer
Feito um gambá atropelado na estrada
Entregue sua caixinha de segredos para a humanidade

Lições, um punhado de amor, um legado de poesia e paz
Quando morreres não se esqueça de ser eterno
Eternize suas ideias influencie gerações

Como Drummond e Dumont voe em sua própria criação
Comunique-se com as ondas,
porque até a morte tem algo a nos dizer.

REBELDIA - Adélia Maria Woeliner

Para não repetir
o modelo
que me apresentaram,
escrevi roteiro contrário.
Fixação insana,
não ser igual.
Desperdício e cansaço.

Acordei.
Soltei balaios
de rebeldias e sofrimentos.
                                      
Moldes vazios,
insinuo passos que são só meus
e jeito próprio de andar,
para escrever
outro enredo,
nova história...

MAINHA – Kátia Drummond



Quando eu era criança, ainda me lembro,
menina da rua, fugaz andorinha,
eu via os homens entrando e saindo.
Malditos ladrões. E perversos bandidos.
Querendo prazeres, todos mal vividos,
buscavam o corpo da minha mainha.
Na mesma alcova. Bem onde eu dormia,
sem cama e coberta. Deitada no chão.
No colo onde eu jamais me deitaria.
Na casa que eu pensava que era minha.

Alguns davam doces. E outros, brinquedos.
Pequenas bonecas vestidas de trapos.
E eu, curiosa, pensava comigo:
Por que tantos homens entrando e saindo?
O que é que eles fazem? Parecem farrapos!
Às vezes ficava quietinha, espiando.
Nas pontas dos pés. Infeliz bailarina.
Sem mesmo saber que ali, do outro lado,
mainha traçava pra mim minha sina.

Aquela mulher, já exausta da lida,
chorava baixinho pra ninguém ouvir.
E eu já crescida, menina perdida,
fui vendo em meu corpo o preço da vida.
Odiei os homens. Desejei partir.
Pensei em tirar a mainha da luta.
Mas ela me olhava e com raiva dizia,
gritando aos brados, no maior desdém:
"Se manda daqui. Vai, menina vadia.
Que filha de puta, é puta também."