segunda-feira, 4 de junho de 2018

Dois poemas de Lila Ripoll

VIM AO MUNDO EM AGOSTO – Lila Ripoll

Sou triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo no triste mês de agosto
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.
Vim ao mundo chorando... (o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
o plangente compasso de um adágio,
anunciando agoirento uma desgraça.

Sou triste. É irremediável este mal.
E eu não quero curar minha tristeza.
Só ela para mim tem sido leal,
Na minha via-sacra de incerteza.

Sou triste de nascença. É mal sem cura.
A vida não desfez meu nascimento.
Sou a menina triste e sem ventura,
que em agosto nasceu, com chuva e vento.

RETRATO – Lila Ripoll

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!
Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.
A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma idéia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...
O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!
E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...
Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.
E sabe desde quando estou descrente!...

terça-feira, 29 de maio de 2018

ODE A JOVEM LUZ - Eliseo Diego

Tradução de Alai Garcia Diniz

Em meu país a luz
é muito mais que o tempo, demora-se
com estranha delícia nos contornos
militares de tudo, nas relíquias
enxutas do dilúvio.
A luz
em meu país resiste à memória
como o ouro ao suor da cobiça,
perdura entre si mesma, nos ignora
desde seu alheio ser, sua transparência.

Quem corteje a luz com fitas e tambores
inclinando-se aqui e ali conforme a astúcia
de uma sensualidade arcaica, incalculável,
perde seu tempo, argúi com as ondas
enquanto a luz, ensimesmada, dorme.

Pois em meu país a luz não vê
as modestas vitórias do sentido
nem os finos desastres da sorte,
mas se entretém com folhas, passarinhos,
caracóis, clarões, intensos verdes.

E é que cega a luz em meu país deslumbra
seu próprio coração inviolável
sem saber de ganhos ou de perdas.
Pura como o sal, intacta, erguida,
a casta, demente luz desfolha o tempo.

TRÉGUA FECUNDA - Legna Rodríguez Iglesias

Tradução de Mariana Ruggieri.

Sobre o túmulo do meu grandfather
tem flores nacionais
esse homem lutou em uma guerra
há mais de sessenta anos
uma guerra por liberdade
libertar-se do que prende
é a luta comum.
Sabia ler e escrever
com certa facilidade
mas não melhor que eu
foi uma tristeza
que quem fez a autópsia
deixou o marcapassos
no fundo do peito
agora sob as flores
tem um marcapassos me vigiando
O que esperava meu grandfather de mim?
Que eu semeasse uma flor nacional
no fundo do meu coração fecundo?
Que descanse em paz grandfather
já escrevi coisas grandfather
e essa é a melhor revolução
que farei.

sábado, 26 de maio de 2018

VIGÍLIA – Márcia Luz

Minha mãe tamborilava os dedos
enquanto esperava meu pai.
O cuco cantava as horas
E papai...
nada.

Minha mãe chorava
enquanto esperava meu pai.
O cuco contava as horas
E papai...
nada.

Minha mãe fumava
enquanto esperava meu pai.
O cuco calava as horas
E papai...
nada.

Hoje mamãe tamborila os dedos, chora, fuma.
O cuco se cansou
É apenas um detalhe na parede
E meu pai
não vem mais.

CANÇÃO DO AMOR LIVRE – Jacinta Passos

Se me quiseres amar
não despe somente a roupa.
Eu digo: também a crosta
feita de escamas de pedra
e limo dentro de ti,
pelo sangue recebida
tecida
de medo e ganância má.
Ar de pântano diário
nos pulmões.
Raiz de gestos legais
e limbo do homem só
numa ilha.

Eu digo: também a crosta
essa que a classe gerou
vil, tirânica, escamenta.

Se me quiseres amar.

Agora teu corpo é fruto.
Peixe e pássaro, cabelos
de fogo e cobre. Madeira
e água deslizante, fuga
ai rija
cintura de potro bravo.

Teu corpo.

Relâmpago, depois repouso
sem memória, noturno.

TEUS CABELOS – Gilberto Amado

Quero louvar o zelo desenvolto
com que arranjas o próprio desmazelo,
é sempre para mim cabelo solto
por melhor penteado o teu cabelo.
Em doce névoa de volúpia envolto
gozo contente o descuidado zelo
com que logras fazer de um mar revolto
de ondas lisas o clássico modelo.
Mergulham minhas mãos na noite funda
da perturbante tempestade em ordem
que o teu rosto claríssimo circunda.
E encontram minhas mãos onde mergulham
um ninho de relâmpagos que mordem,
novelos de serpentes que fagulham.

FORMA – Dante Milano

Envolvente sentimento,
Abraço que se insinua
E entre amoroso e violento
Quer que a mulher fique nua.

Tirado o vestido aéreo,
O eflúvio sexual que a inunda
Revela a região profunda
Da vida, do seu mistério.

Mulher de orlas misteriosas,
Água de desenhos sábios,
Contorno de olhos e lábios
Feitos de linhas sinuosas.

O ventre em remanso de onda
Transborda, em círculos cheios,
Pelas ancas se arredonda
E redemoinha nos seios.

Ó pedra atirada n´água,
Que o meigo umbigo magoa.
Água tocada de mágoa,
Beijo com força, que doa.

quinta-feira, 24 de maio de 2018

RASGO - Monica Marques

Trago o tempo entre os dentes
É preciso morder a existência pelas bordas
para que não escape

É necessário rasgar a carne
para o que está dentro
possa vir à tona

Rasgar entre a luz e a fumaça
Mexer as imagens com os dedos
Acordar entre a loucura e poesia
Sonhar até ficar vazia

Não há mais delicadeza
Apenas pólvora queimando sem rima
Poesia frita em óleo sujo
Translucidez

Ser é tempo iluminado
Que se desdobra em sua espessura
E vira a esquina

UM MARINHEIRO E O RECIFE – Pedro Américo de Farias

Indiferente
à verdade e à fantasia

ao traçado do primeiro
e do último arquiteto

à lógica que não seja
a do olho e do tato

ao amor louco dos bêbados ansiosos
e à auto-flagelação dos ressacados

ao deslumbramento do turista aprendiz de hoje
e à lamentosa tortura dos passadistas

à complacência dos podres poderes
e à penitência dos pobres beatos

um marinheiro
pinta para si mesmo
a rua que lhe convém

diminui distâncias e aproxima o porto
desmancha a topografia
recompõe a cidade
sem perder de vista
o mar e a linha do horizonte

POCILGA – Rafael Rocha

Do livro “Ômega & Alfa”

Na curva dos caminhos dos porcos
o tempo estacionou taciturno
apagou a luz da rua
trouxe o vento frio
e pintou o horizonte de nada.

Homens gritaram crueldades
o dia fez-se vagabundo
e os poderosos filhos das putas:
sargentos, coronéis, generais,
deputados, senadores, ministros
abriram os cadafalsos
e despejaram neles as línguas dos vivos.

A sirene do calabouço tocou ao longe
e o chicote do feitor vibrou na escuridão.
Na curva dos caminhos dos porcos
os proprietários das pocilgas da pátria
levaram repasto de merda para o povo.

AVE APRENDIZ - Susanna Busato

Escondidas nas pernas
minhas perdas:
suas penas
de ave aprendiz.
Voam baixo
sob os últimos raios
do nosso eterno
olhar cicatriz.
Voam rentes agora e sempre
as penas à pele a sentir
e como presas se rendem
e entre as pernas se perdem
e cantam um não existir.