sábado, 9 de junho de 2018

A CONVIDADA - Genny Marcondes

Para o festim que se inaugura agora
mal preparada vou e enfraquecida
o convite chegou fora de hora
e, sabem, sempre fui tão distraída
Os atavios de outrora são inúteis
assim também perfumes e ouropéis
Fiquem guardados túnicas inconsúteis
as tintas, as paletas, os pincéis
Esboço ainda úmido na prancheta
os versos nos cadernos, indefinidos
e pastas de projetos na gaveta
Que sigam só o corpo bem lavado
o rosto limpo, os cabelos lisos
as mãos tranquilas, o olhar cerrado.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

LUA ENCABULADA - Antonio Carlos Gomes

Lua acanhada
Olhava o mar
A água agitada
Foi lhe afagar

Sonha encabulada
A lua a vagar
A água evaporação
Quer acariciar

Luz e água
Infinito e mar
É madrugada

A boemia é água
Também luar
Jogo de amar

VISÃO SIMPLES E PURA- Ana Maria Costa Félix

E foi assim
que a marca do tempo foi vista:

Pequena
para tantos enganos

Média
para alguns encantos

Grande
para poucos sonhos

Pouca
para tantos seres

Muita
para poucos amanheceres

Perto
para muitos quereres

Longe
para tantos credos e dizeres

POEMA 20 – Pablo Neruda

Trad. de Domingos Carvalho da Silva

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros à distância".

O vento desta noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis e por vezes ela também me quis.

Em noites como esta apertei-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis e às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela.
E cai o verso na alma como o orvalho no trigo.

Que importa se não pôde o meu amor guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Para tê-la mais perto meu olhar a procura.
Meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite faz brancas as mesmas árvores.
Já não somos os mesmos que antes tínhamos sido.

Já não a quero, é certo, porém quanto a queria!
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
Ah, é tão curto o amor, tão demorado o olvido.

Porque em noites como esta a apertei nos meus braços
minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Mesmo que seja a última esta dor que me causa
e estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A LOUCURA MOSTRA AS UNHAS – Fernando Abreu

Sempre que a loucura mostra as unhas de gato
Para arranhar teus ossos sob a paz do beco
Deixa elétrica dor dizer na lata e a seco
Vida de gado na mesmice desse mato

Fingindo ser farinha de outro saco
Cão e gato se lambem à luz do gueto
Erguendo brindes comem o mesmo naco
Da tua carcaça crua em branco & preto

Exposto assim ninguém aguenta o tranco
Entrega os pontos antes do último ato
Um pirata perneta caolho troncho e manco
Surge do fundo para afundar teu barco

Dança com esse lobo até soltar o pêlo
No fim tem sempre um olho atrás do palco
Uiva de escalpo em punho e fim de papo
Pouco importa saber quem paga o pato.

SPES ÚNICA – Quintino Cunha

- Morto, dentro da fria sepultura,
sem te poder falar?
E tú, que me amas, boa criatura,
indo me visitar...

Banhada de suspiros, de soluços,
desmaiada, talvez ...
Muita vez reclinada, até de bruços,
na altura dos meus pés...

Pedindo a Deus o meu viver eterno
junto das glórias suas;
que me livre das penas do inferno,
e a chorar continuas...

Lembrando nossa vida a todo instante
repassada de dor,
a lembrar-te que fui o teu amante,
- o teu único amor,

Mal, pensando na horrífera caveira,
em que me transformei,
exausto de fadiga, de canseira,
imaginar não sei...

Para evitar essa hora amargurada,
esse quadro de dor, tão verdadeiro,
Deus há de ser servido, minha amada,
que tu morras primeiro! ...

VERSOS ERÓTICOS – Marina V. Medeiros

Meus lábios buscam teus beijos
e descem sôfregos atrás
do jorro do teu corpo,
néctar do nosso desejo.
........
Dás à outra o que me pertence.
Uma sombra de culpa
perpassou em teu olhar
enquanto sussurravas: perdoa.
Tuas mãos em concha colhem meus seios
e as brumas do ciúme e da mágoa
esvaindo-se deixam ver
teu membro hirto e fremente no qual monto
e num coito a galope
tombo em teu peito arfante
balbuciando: amor, eu te perdoo.
.......
Nossos lábios presos num beijo ardente se separam
e tua língua, qual cobra ondulante, rasteja
pelo meu corpo até a minha fenda aberta
onde entra.

Teu membro pende qual teta enorme
que empunho e, em movimentos rápidos de ordenha,
faço jorrar teu sêmen que sugo
com avidez.

Enquanto dois orgasmos
violentos e simultâneos
nos deixam semidesfalecidos.

MAYA – Lia Testa

é bicho e gente na sua dança
batuqueira bandalheira roda gira move
é gente e bicho na sua dança
tem cheiro de salmoura
é gente gente na sua vadiagem
mata come cava colhe
miríades de beleza maquiada
é bicho que come bicho
tamborilando no couro na carne
encarnada bate bate bota fora a fala
de ba.lan.gan.dãs
fitas folhas figas uma flor lilás na cabeça
santos nas pulseiras a tilintar
berenguendéns berenguendéns berenguendéns
para olhos negros e negros de cor
para bardos lascivos ver balançar
corpo que rodopia para e rodopia
com véus porque é gente e bicho e dança

Dois poemas de Lila Ripoll

VIM AO MUNDO EM AGOSTO – Lila Ripoll

Sou triste de nascença e sem remédio.
Vim ao mundo no triste mês de agosto
o mês fatal das chuvas e do tédio,
e nasci quando o sol estava posto.
Vim ao mundo chorando... (o meu presságio!)
Um vento mau marcava na vidraça
o plangente compasso de um adágio,
anunciando agoirento uma desgraça.

Sou triste. É irremediável este mal.
E eu não quero curar minha tristeza.
Só ela para mim tem sido leal,
Na minha via-sacra de incerteza.

Sou triste de nascença. É mal sem cura.
A vida não desfez meu nascimento.
Sou a menina triste e sem ventura,
que em agosto nasceu, com chuva e vento.

RETRATO – Lila Ripoll

Chego junto do espelho. Olho meu rosto.
Retrato de uma moça sem beleza.
Dois grandes olhos tristes como agosto,
olhando para tudo com tristeza!
Pequeno rosto oval. Lábios fechados
para não revelar o meu segredo...
Os cabelos mostrando, sem cuidados,
Uns fios brancos que chegaram cedo.
A longa testa aberta, pensativa.
No meio um traço, leve, vertical,
indicando uma idéia muito viva
e os sérios pensamentos: — o meu mal!...
O corpo bem magrinho e pequenino.
— Sete palmos de altura, com certeza. —
Tamanho de qualquer guri menino
que a idade, a gente fica na incerteza!
E nada mais. A alma? Ninguém vê.
O coração? Coitado! está bem doente.
Não ama. Não odeia. Já não crê...
E a tudo vive alheio, indiferente!...
Meu retrato. Eis aí: Bem igualzinho.
O espelho é meu amigo. Nunca mente.
No meu quarto, ele é o móvel mais velhinho.
E sabe desde quando estou descrente!...