quinta-feira, 14 de junho de 2018

PEDRA – Carlos Rocha

Despi-me do orgulho,
De toda ambição
E até da esperança.
Dei-te meus olhos
E fiquei cego.
Dei-te meus lábios
E fiquei mudo.
Dei-te corpo e alma
E virei pedra.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

EU – Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

CADÊ – José Paulo Paes


Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!

PRESSÁGIO – Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

sábado, 9 de junho de 2018

CAMINHOS - Flávia Savary

Os caminhos seguem
diferentes caminhos.
Tem os sem eira nem beira,
e os que se perdem na poeira.
Tem os aéreos, etéreos,
e os caminhos de ferro.
Há os que são subterrâneos
e os que são mediterrâneos:
brincam de água, são quase crianças.
Tem os retos, sem curvas -
esses não gostam de mudanças.
Uns são solitários, ermos;
outros se enchem de romeiros.
E aqueles outros,
os que não estão no mapa?
Caminho de fogo, caminho da onça,
caminho de vento, caminho da roça.
Pra quem quiser, tem caminho.
Basta tino e seguir o próprio destino.

SONO CÓSMICO - Célia Musilli

há dias em que não sabemos
a que tribo pertencemos
a que rio
a que pântano
a que reino em flor
em barro
quinta-essência
carne e lágrima
matéria enigmática
poeira galáctica
que expele o futuro dos homens
mas não há nada
que os deuses confabulem
que valha perder o barulho
da chuva
e aí, tanto faz,
inseto, planta,
a humanidade possível
a expressão do inexprimível
que oscila entre a solidão
e a beleza destinada à
construção das pétalas
ou das palavras
eu, mulher mandrágora,
bebo o orvalho dessa noite
e estico mebros
seivas e raízes.
enfeitiçada pela vida
alcanço o húmus
das árvores dos quintais
e, sem incomodar ninguém,
volto à terra
adormecendo em meu sono
de auroras boreais.

A CONVIDADA - Genny Marcondes

Para o festim que se inaugura agora
mal preparada vou e enfraquecida
o convite chegou fora de hora
e, sabem, sempre fui tão distraída
Os atavios de outrora são inúteis
assim também perfumes e ouropéis
Fiquem guardados túnicas inconsúteis
as tintas, as paletas, os pincéis
Esboço ainda úmido na prancheta
os versos nos cadernos, indefinidos
e pastas de projetos na gaveta
Que sigam só o corpo bem lavado
o rosto limpo, os cabelos lisos
as mãos tranquilas, o olhar cerrado.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

LUA ENCABULADA - Antonio Carlos Gomes

Lua acanhada
Olhava o mar
A água agitada
Foi lhe afagar

Sonha encabulada
A lua a vagar
A água evaporação
Quer acariciar

Luz e água
Infinito e mar
É madrugada

A boemia é água
Também luar
Jogo de amar

VISÃO SIMPLES E PURA- Ana Maria Costa Félix

E foi assim
que a marca do tempo foi vista:

Pequena
para tantos enganos

Média
para alguns encantos

Grande
para poucos sonhos

Pouca
para tantos seres

Muita
para poucos amanheceres

Perto
para muitos quereres

Longe
para tantos credos e dizeres

POEMA 20 – Pablo Neruda

Trad. de Domingos Carvalho da Silva

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada
e tiritam, azuis, os astros à distância".

O vento desta noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis e por vezes ela também me quis.

Em noites como esta apertei-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela me quis e às vezes eu também a queria.
Como não ter amado seus grandes olhos fixos?

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa mais profunda sem ela.
E cai o verso na alma como o orvalho no trigo.

Que importa se não pôde o meu amor guardá-la?
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. A distância alguém canta. A distância
Minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Para tê-la mais perto meu olhar a procura.
Meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite faz brancas as mesmas árvores.
Já não somos os mesmos que antes tínhamos sido.

Já não a quero, é certo, porém quanto a queria!
A minha voz no vento ia tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro, seus olhos infinitos.

Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
Ah, é tão curto o amor, tão demorado o olvido.

Porque em noites como esta a apertei nos meus braços
minha alma se exaspera por havê-la perdido.

Mesmo que seja a última esta dor que me causa
e estes versos os últimos que eu lhe tenha escrito.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

A LOUCURA MOSTRA AS UNHAS – Fernando Abreu

Sempre que a loucura mostra as unhas de gato
Para arranhar teus ossos sob a paz do beco
Deixa elétrica dor dizer na lata e a seco
Vida de gado na mesmice desse mato

Fingindo ser farinha de outro saco
Cão e gato se lambem à luz do gueto
Erguendo brindes comem o mesmo naco
Da tua carcaça crua em branco & preto

Exposto assim ninguém aguenta o tranco
Entrega os pontos antes do último ato
Um pirata perneta caolho troncho e manco
Surge do fundo para afundar teu barco

Dança com esse lobo até soltar o pêlo
No fim tem sempre um olho atrás do palco
Uiva de escalpo em punho e fim de papo
Pouco importa saber quem paga o pato.

SPES ÚNICA – Quintino Cunha

- Morto, dentro da fria sepultura,
sem te poder falar?
E tú, que me amas, boa criatura,
indo me visitar...

Banhada de suspiros, de soluços,
desmaiada, talvez ...
Muita vez reclinada, até de bruços,
na altura dos meus pés...

Pedindo a Deus o meu viver eterno
junto das glórias suas;
que me livre das penas do inferno,
e a chorar continuas...

Lembrando nossa vida a todo instante
repassada de dor,
a lembrar-te que fui o teu amante,
- o teu único amor,

Mal, pensando na horrífera caveira,
em que me transformei,
exausto de fadiga, de canseira,
imaginar não sei...

Para evitar essa hora amargurada,
esse quadro de dor, tão verdadeiro,
Deus há de ser servido, minha amada,
que tu morras primeiro! ...