sábado, 21 de julho de 2018

SOBRE O MAIS FAMOSO SONETO DE TODOS OS TEMPOS DE AUTORIA DO POETA FÉLIX ARVERS


O poeta francês Félix Arvers escreveu este soneto no álbum de uma jovem de 19 anos, comprometida, recatada e dotada de muita inteligência,
Marie Mennessier-Nodier.
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SONNET – Félix Arvers

Mon ame a son secret, ma vie a son mystère,
Un amour eternel en un moment conçu;
Le mal est sans espoir, aussi j'ai dú le taire,
et celle qui l'a fait n'en a jamais rien su.

Helas! j'aurai passé près d'elle inaperçu
Toujours à ses côtés et toujours solitaire;
et j'aurai jusqu'au bout fait mon temps sur la terre,
n'osant rien demander, et n'ayant rien reçu.

Pour elle, quoique Dieu l'ait faite bonne et tendre,
Elle ira son chemin, distraite, et sans entendre
Ce murmure d'amour elevé sur ses pas;

à l'austère devoir pieusement fidèle,
elle dira, lisant ces vers tout remplis d'elle,
"Quelle est donc cette femme?" et ne comprendra pas.
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A primeira tradução em português no Brasil do célebre soneto
foi feita por Pedro Luiz no ano de 1880

SONETO DE ARVERS

Guardo um mistério n'alma e na vida um segredo,
um sempiterno amor que há muito me enlouquece;
não tem remédio o mal – por isso o oculto a medo
e aquele que o causou jamais quis que o soubesse.

Perpasso junto dela e abafo ardente prece!
Ao seu lado respiro e sempre em um degredo.
A romagem da vida acabarei bem cedo,
sem que eu nada pedisse e nada ela me desse.

Terna formou-a Deus, mas – bela peregrina –
na trilha do dever não vê, não imagina
que eu – mísero – sagrei-lhe amores imortais.

E, um dia, talvez, diga ao ler em doce calma
estes versos que assim vibraram de sua alma:
– “E essa mulher quem é?” – Não cismará jamais.
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Muitas outras traduções foram feitas por brasileiros e portugueses, mas melhor deixar por aqui aquela duas mais aceitas pelos estudiosos, a de Guilherme de Almeida e Olegário Mariano:
SONETO DE ARVERS
Tradução de Guilherme de Almeida

Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a, pois, escondida,
e aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
sempre a seu lado, mas num triste isolamento.
E chegarei ao fim da existência esquecida,
sem nada ousar pedir e sem um só lamento.

E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

A um austero dever piedosamente presa,
ela dirá, lendo estes versos, com certeza:
— "Que mulher será esta?" — E não compreenderá.
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SONETO DE ARVERS
Tradução de Olegário Mariano

Tenho um mistério na alma e um segredo na vida:
eterno amor que, num momento, apareceu.
Mal sem remédio, é dor que conservo escondida
e aquela que o inspirou nem sabe quem sou eu.

A seu lado serei sempre a sombra esquecida
de um pobre homem de quem ninguém se apercebeu.
E hei de esse amor levar ao fim da humana lida,
certo de que dei tudo e ele nada me deu.

E ela que Deus formou terna, pura e distante,
passa sem perceber o murmúrio constante
do amor que, a acompanhar-lhe os passos, seguirá.

Fiel ao dever que a fez tão fria quanto bela,
perguntará, lendo estes versos cheios dela:
- "Que mulher será esta?" - E não compreenderá.
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Aparentemente, o soneto passou despercebido à moça dos sonhos do poeta. Félix Arvers nasceu em 23 de julho de 1806 e morreu em 7 de novembro de 1850. Sua musa, Marie Nodier, faleceu muitos anos depois do poeta. Félix Arvers entrou na galeria dos imortais com este soneto de amor e sem jamais saber que Marie Nodier tinha respondido ao soneto com um de sua autoria em seu próprio álbum, mas que os estudiosos da obra de Arvers consideram apócrifa. E que dizia assim:

REPONDRE AU SONNET

Ami, pourquoi nous dire, avec tant de mystère,
que l'amour éternel en votre âme conçu
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
et comment supposer qu'Elle n'en ait rien su?

Non, vous ne pouviez point passer inaperçu,
est un mal sans espoir, un secret qu'il faut taire
Parfois, les plus aimés font leur temps sur la terre,
n'osant rien demander et n'ayant rien reçu.

Pourtant Dieu mit en nous un coeur sensible et tendre
Toutes, dans le chemin, nous trouvons doux d'entendre
le murmure d'amour élevé sur nos pas.

Celle veut rester à son devoir fidèle
s'est émue en lisant vos vers tout remplis d'elle.
Elle avait bien compris... mais ne le disait pas.
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E eis aqui a tradução de Edmundo Lys da pretensa resposta
ao SONETO DE ARVERS por parte da musa Marie Nodier:

RESPOSTA AO SONETO

Meu amigo, por que, de forma tão sentida,
dizeis que o eterno amor nascido num momento
é uma dor sem remédio, e há de estar escondida,
e como supor que ela ignora esse tormento?

Vós não fostes jamais sombra despercebida,
nem deveis vos julgar num triste isolamento:
os mais amados vão, às vezes, pela vida,
sem nada receber e sem um só lamento.

Deus, entanto, à mulher, deu uma alma complacente
e ela por seu caminho irá mais docemente,
se um murmúrio de amor a segue onde ela vá.

Aquela que ao dever deseja ficar presa,
os versos, cheios dela, os sentiu, com certeza,
e tudo compreendeu... mas nunca ela o dirá.

CASAMENTO – Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.

O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

terça-feira, 17 de julho de 2018

SOPA DE CEBOLA E ESPARGOS – Ivanise Mantovani

Sopa de cebola e espargos. É domingo.
Na sala do almoço, mesa posta.
A toalha branca se enfeita em réstias de luz.
Cheia de enlevos, vovó viúva, suspira.
Ouvindo a voz musical de Puccini. Sonha!
Seus dedos em nós artríticos
fazem renda de croché
e basta a beleza própria
do modo doce, da doce ternura
dos miosótis que ela tem no olhar.

Vovô não resiste...
desce do porta-retrato,
nas mãos flores do campo (o beijo é brisa)
deposita o buquê no colo de vovó,
nos cabelos, carícias.
Como antigamente quando namorados.

SONETO - Eduardo Guimarães

"Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante

Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!

Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,

Magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!"

(Do livro A Divina Quimera, 1916)

A LÍNGUA - Benette Bacellar

dois corpos
emaranhados em desalinho

a língua na pele
(re)inventa caminhos

descobre mistérios
escondidos sob os panos

a língua, antes maldita
abre fogo; delírios agita

consome a flor aberta
semeia gemidos no sal

a língua embriaga-se no vinho
mata a sede no céu da boca, em gotas

segunda-feira, 9 de julho de 2018

AOS PREDADORES DA UTOPIA – Lau Siqueira

dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres

PAZ – Kátia Borges

Invento a paz: panos brancos nas janelas.
Os burgueses da pensão estranham – canto.
Eu, que nunca cantei.

Atendo no balcão os mortos todos,
procurando achados e perdidos.

E vivo. Eu,
que nunca ousei.

O luto, que cobriu de negro
este quarto, hoje é passado.
Enterrado no quintal dos fundos.

Que as crianças entrem e desarrumem tudo,
rasgando em algazarra meus retratos.

O POÇO – Regina Carvalho



Corra a tampa do poço
e beba este poema
num único gole grosso
que fira sua goela

Descasque esta rima
e morda este poema
Amole em mim a lima
e corte este poema

Corra a tampa com força
Beba o verbo deste sol

Ele é bom
Isca gorda em fino anzol

VERSOS DA MORTE - Gabriel L´Abbate Melo

Abandona teu lar, o teu sossego,
abandona teus vícios, sem apego.
Abandona o teu Sol, a tua fonte,
e pousa teu olhar sobre o horizonte.

Abandona a família, sem raízes,
crava na alma o abandono feito um prego.
Abandona teus sonhos mais felizes
e tudo o que nasceu junto a teu ego.

Abandona as paixões, os teus prazeres,
abandona o teu ciclo de deveres
e pousa teu olhar sobre altos ares.

Quando o próprio abandono abandonares,
então, num gesto calmo, lento e mudo, 
dissolva-te na ação de unir-se a tudo.