quarta-feira, 22 de agosto de 2018

CAVALOS FRENTE AO MAR - Nancy Morejón

Tradução de Antonio Miranda

Diante destes cavalos,
sob a própria luz
ou a luz alva da manhã
o tempo estanca outra vez
alheio aos rabos e as crinas
destes cavalos que cheiram tudo
em sua imobilidade terrestre.
                    E posso divisar
o ondular do tempo frente às ondas
que se reduzem e se levantam
sob a própria luz
ou esta luz alva da manhã
onde a existência nada mais é
que estes cavalos frente ao mar.

JOGO DE PALAVRAS – Madeline Mendieta



Levanta-se numa esquina de um fio
A Palavra,
desnuda seus antagônicos ossos
e os dilui em limonada quente.

Cospe um álacre sabor a doce
atormenta, apertar suas margens prenhas
ensurdece,
fecha os olhos para não titubear
seu significado.

O contexto a subordina a seus poeirentos
enfrentamentos sintagmáticos.

E se dissipa em um absurdo comentário
especula um incompreensível dilema rotineiro

A palavra espirra suas pausadas ironias
dependurada de um argola,
balança precocemente seus prefixos
e lança-se ao vazio.

FUI TE DESPINDO – Dulce Maria Loynaz

Tradução de Alai Garcia Diniz

Fui despindo você de você mesmo,
de seus "vocês" superpostos que a vida
te cingiu ...

Te arranquei a casca - inteira e dura –
que parecia fruta, que tinha
a forma da fruta.

E diante do vago assombro de seus olhos
surgiu você com olhos ainda velados
de sombras e assombros ...

Surgiu você de você mesmo, da mesma
sombra fecunda - intacto e desgarrado
em alma viva ...

DURAÇÃO DA PAISAGEM – Duda Machado


Esquece a música.

Antes sustentar a tensão
a ponto de contemplá-la
dentro ainda
de sua permanência.

A partir daí
- o mundo intacto -
vai-se abrindo um espaço,
paisagem no-preenchida,
habitada somente
por uma duração
para a qual acordamos
e, na qual, às vezes,
podemos existir.

ENCONTRO – Cássia Fernandes

A vida anda tão corrida,
que o encontro marcado
com a amiga
é no supermercado
enquanto faço as compras do mês.
Ela me conta seu dia,
eu reclamo do ex.
Enquanto escolho as batatas,
ela narra os casos de amor e de família.
Discutimos os temas em alta.
Declaro que me sinto só,
enquanto ela me recomenda
a melhor marca de sabão em pó.
Falamos sobre o tempo
e sobre a vida.
          Viu como as maçãs estão bonitas?
E como vai sua prima?
E tomamos
um café
que a demonstradora da nova marca
nos oferece ali em pé.
Ela tenta me ensinar uma receita
que eu não terei tempo de fazer.
Você não esqueceu da manteiga?
Não precisa levar ovos?
Passemos no caixa
e os encontraremos logo.
Você está na minha lista.
Não me esqueço de você.

DESPEDIDA – Natália Parreiras

Um rosto,
Um apego,
Mil lembranças.

Sem traços,
Sem rastros,
Sem esperanças.

Só um esboço,
Nesse esforço,
De pele e osso,
É o que faço.

Lágrimas que não têm rumo,
Tristezas profundas que em sumo,
São sentimentos rasos.

Pele quente, peito aberto,
Toda desgraça chega perto.
Nesse meu rosto sem marcas,
Deixo cortes, passo a faca,
Num desespero discreto.

Sangue que derrama,
Que encharca a alma e minha cama,
É um destino certo,
No suicídio secreto,
De alguém que ninguém ama.

SONETO – Gomes Cardim

Quando no oceano o sol mergulha, quando
São de ouro as aves, e de chama os lagos,
Vejo envoltas de luz, em mil afagos,
As pombas que, uma a uma, vêm chegando.

E logo surgem os implumes, vagos,
Trêmulos todos, estendendo ao bando
Os biquinhos abertos, implorando
Os beijos maternais, de efeitos magos.

Mas hoje embalde vi chamar... chamar...
Um flébil, triste e pequenino par:
- Não voltara um casal, que aos prados fora.

Então lembrei-me de que tinha outrora
Um lar dileto... e que também agora
Choro os que foram para não voltar.

DEUSES E MITOS – Gastão Torres

Bilhões de auroras foram necessárias
Até que o fogo se fizesse lava,
Até que a lava se fizesse pedra,
Até que a pedra se fizesse Terra.

Bilhões de auroras foram necessárias
Até que os brutos se tornassem homens,
Até que os homens se tornassem anjos,
Até que os anjos se tornassem Deuses.

Bilhões de auroras foram necessárias
Até que os homens inventassem mitos,
Até que os mitos constituíssem fé.

Contudo apenas uma aurora basta
Para que os homens, finalmente homens,
Cancelem mitos e estraçalhem Deuses.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

A MORTE – Moya Cannon

Tradução de Luci Collin

a respiração pesada e curta -
um trabalho, vil como o nascimento.

Minha mãe, com quase noventa,
deve correr uma maratona.

Três semanas atrás,
ela fez sua última objeção incisiva;
três dias atrás, comeu um morango fatiado;
hoje ela não consegue tomar um gole -
com esponjas presas numa haste molhamos seus lábios.

Nós, sua ninhada grisalha, chegamos
em carros, de trem, de avião.
Seu quarto está cheio de celulares desativados.

E íntimo o território da morte,
como o do amor.

SEFERIS – Lawrence Durrell

Tradução de Jorge Wanderley

O tempo nos coleta como a feixes.
Ronda um dia, acena aos raros que vê
(Com um pássaro que em folhas se deixe).
Alguém como K.. ou como você.
Alvo em queda livre para a estocada.
— Que à sombra segue nossa caminhada.

Assim o escritor que sai do ar
Vê nos horizontes da dispersão
Suas palavras, um pólen perfeito.
Notas que o vento e o pássaro carregam.
Chegando a amores sem preparação.
Imagem mais madura que seus feitos.

As tuas certamente já partiram
De Delos ou de Rhodes dominantes.
Contra os deuses do sol fundando bases,
Em Nápoles, no Rio, ou nunca dantes
Sonhadas terras, difundindo Grécia:
O novo fogo grego que ofereces.

Maravilhoso é ter leito e deixado
A "achados e perdidos" dos amantes
Este sussurro ouvido por instantes.
O caminho dos grandes vens mostrar.
Que vão silentes, calmos, pois souberam:
Mesmo o morrer confina com criar.

REVENDO AGORA A ILHA LEGENDÁRIA - Cecil Day-Lewis

Tradução de Jorge Wanderley

Revendo agora a ilha legendária
De cantos e sereias e de morte,
Pergunto o que a fazia temerária
E aos marinheiros perderem o Norte...
Essas coristas já são bem senhoras...
Cai a pintura, o som da voz é bruto,
Os lábios que beijavam contra as horas
Torcem-se agora ao favor de um minuto.
Já não podem morder. E a nós, gravetos,
Fome e trabalho já nos assediam
Somos uma equipagem de esqueletos
Zombando da canção que nos enviam:
Vamos olhar, sem que nos acovarde,
A retórica púrpura da tarde.

RAVENA – Alexandre Blok


Tradução de Augusto de Campos

Tudo o que é instante, tudo o que é traço
Sepultaste nos séculos, Ravena.
Como uma criança, no regaço
Da eternidade estás, serena.

Sob os portais romanos os escravos
Já não trazem mosaicos pelas vias.
O ouro dos muros arde
Nas basílicas lívidas e frias.

Os arcos dos sarcófagos desfazem,
Sob o beijo do orvalho, as cicatrizes.
Nos mausoléus azinhavrados jazem
Os santos monges e as imperatrizes.

Todo o sepulcro gela e cala,
Os muros mudos, desde o umbral,
Para não acordar o olhar de Gala*,
Negro, a queimar por entre a cal.

Das pesadas de sangue e dor e insídia
O rasto já se apaga e se descora.
Para que a voz gelada de Placídia*
Não se recorde das paixões de outrora.

O longo mar retrocedeu, longínquo.
As rosas circundaram as ameias,
Para que os restos de Teodorico
Não sonhem com a vida em suas veias.

Onde eram vinhedos - ruínas -
Gentes e casa - tudo é tumba.
Sobre o bronze as letras latinas
Troam nas lages como trompa.

Apenas no tranquilo e atento olhar
Das moças de Ravena, mudamente,
Às vezes uma sombra de pesar
Pelo irrecuperável mar ausente.

À noite, inclinado entre as colinas,
Só, pondo os séculos à prova,
Dante - perfil aquilino -
Canta para mim da Vida Nova.

PASSATEMPO – Dulce Gracia Alonso Moron

Abro a gaveta junto à minha cama.
Ouço o grito sufocado que reclama
atenção aos guardados que se ama.

Velhas fotos não trazem mais
o perfume e a intimidade dos quintais
já inscritos na aura do jamais.

Alguém passou feito nuvem.
Da ausência calmamente surgem
cálidas falas qual contato de penugem.

Comporta de gaveta aberta,
a incerteza do tempo é certa
e esta dimensão me põe alerta.

ATEMPORAL – Flavia Rocha

No espaço das formas inconstantes,
o vazio preenche eternidades distintas –

um morrer de uma coisa que já não existe
para que outra tome o seu lugar

fora do tempo - explosão da célula sutil
que nos difere de todas as coisas.

MEU DESEJO – Leodegária de Jesus

Não quero o brilho, as sedas, a harmonia
Da sociedade, dos salões pomposos,
Nem a falaz ventura fugidia
Desses festins do mundo, tão ruidoso!

Prefiro a calma solidão sombria,
Em que passo meus dias nebulosos;
Sinto-me bem, aqui, à sombra fria
Da saudade de tempos mais ditosos.

Eu quero mesmo, assim, viver de lado,
Das multidões passar desconhecida,
Me alimentando de algum sonho amado.

Nada mais quero, e nada mais aspiro:
Teu casto afeto que me doira a vida,
Meus livros, minha mãe e meu retiro.