quarta-feira, 26 de setembro de 2018

POÉTICA – Júlia Souza

POÉTICA II

pinça a palavra disseca ela
sob impossível lente de aumento.
microarquitetura:
aqui temos
o monstro
o monstro
não é segredo
não é entrelinha
não. é
matéria suja
veste a bitola e anda
em linha reta
(para andar em linha reta)
.................................................................
POÉTICA III

superfície algo
movediça se alimenta de
artimanhas ensinadas pelo vento ou
desfaz-se em falta de fôlego
passagem ignorada antes fosse
sombra
paisagem negativa nem chega a
ruína
aqui o poema é (não
passa de) venenosíssima
sereia

AQUILO QUE ÀS VEZES ACONTECE – Ana Beise

Tem coisas que passam
Outras que nem são
Tem as que ficam
E as que vão.
São coisas de momento...
Duram a eternidade
São instantes
E nem chegam a ser.
Tem cheiro de flor
Tem gosto de vinho
E visão do paraíso.
Tem o que é memorável
E o que é preferível esquecer.
Tem pra chorar e rir
(tem histórias e piadas!)
Tem de tudo.
Só não tem pecado

sábado, 22 de setembro de 2018

A VIDA DO MEU SÉCULO - Juareiz Correya

(Recife, setembro 2018) 

No ano 2.000 DC
(final de década de Século e do Milênio) 
o meu coração me surpreendeu de súbito 
disparado e querendo parar 
instaurando o medo em minha volta 
e no semblante de casa  
como se o ano fosse do meu fim também. 

Um ano depois completei 50 anos,
uma data festiva para qualquer brasileiro. 
Já sou um sobrevivente do Século 20
e caminho neste novo Século 
com as minhas pequenas alegrias de viver 
animando o coração para alcançar 
com alguma saúde e lucidez 
o sonhado dia 19 de setembro 2051: 
a vida completa do meu Século. 

terça-feira, 18 de setembro de 2018

RECALQUE – Rafael Rocha

- Meu amigo, uma beleza ver você ainda vivo
e em busca de palavras não escritas
para o seu mais novo livro!
Ainda lembra as aventuras que fizemos
e as loucuras de amor que convivemos?

- Lembro, sim! E muito mais que as loucuras
recordo as velhas amarguras
e delírios por motivos de paixão.
- Interessante, amigo, que você lembre
as esquisitas tessituras da ilusão.

- Mas, veja, assim como escrevi um livro
(não sei se você leu), mas o personagem
identifiquei inteiro com a sua vida.
E até dei um novo rumo à sua imagem
de poeta sem rumo e sem guarida.

- Ah! Aquele livro! Sim! Eu li de cabo a rabo
e confesso: ele me deixou ensimesmado
ao me ver tão fielmente retratado.
- Não sabia que você tinha lido tudo!
O que achou desse tão fiel relato?

- Não degluti com inteireza plena!
E considero essa obra tão pequena
e tão sem sal que nem lembro as palavras.
- Você continua o mesmo recalcado
olhando os que lhe amam pelo alto!

Mas não esqueça que de todas as estrelas
eu colhi a mais brilhante em meus braços.
- Quer dizer então que você ainda a tem?
Valeu a pena de mim tê-la roubado?
Valeu a pena levá-la aos seus regaços?

- Até hoje não sei! Confesso isso
porque ainda que o tempo já passado
tenha deixado tudo carcomido...
- Então confessa que está arrependido?
Confessa de verdade esse fato?

- Nada disso! Foi apenas uma poesia
cultivando paixões e desenganos
a viver comigo naqueles espaços.
- Assim você me rouba a nostalgia,
vivendo de cantar os meus fracassos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

JUVENTUDE - Otacilio Pires

Gostaria de ver essa juventude,
Retornar à sua antiga rebeldia.
Enfrentar esta podre hipocrisia
Um sistema nefasto e sem virtude.

Ver lutar por um mundo mais justo,
Liberto, feliz, sem preconceitos,
Expurgar a velha forma dos preceitos,
Que oprime o cidadão a qualquer custo.

Por um mundo novo e sem fronteiras,
Desfazer, destes campos, as trincheiras,
Que levam, todos nós, ao velho abismo.

Sem amor, sem paz e sem razão,
Provocando tanta fome e opressão,
Oriundos deste vil capitalismo.

RAPINA – Bernardo Linhares

Leque ríspido, incoercível pássaro,
asas abertas, navegando cactos,
seguindo a seca que fulmina os círios,
a rapina aterrissa em crucifixo.

Meia noite, pau d’arco, corre a lágrima
da carneira tábida, a nave mármore
com ossos no ninho, coroa e espinhos,
insere duas cruzes no epitáfio,

depois aponta o bico para o céu.
Mal aventurada, cruel, rapina,
fera faminta, infeliz e funérea.

Sua fúria desafia e fascina,
ela, que vigia no mundo a miséria,
a morte, amigo, é que ilumina a Terra.

O BORDADO CRUEL – Alexei Bueno

Quando era noite, atrás daquela porta,
junto a uma vela duas velhas riam
Matando aos poucos uma aranha torta.

E a alegria que elas dividiam
Poucos tiveram já no mundo um dia,
Mas os que a achavam sempre a bendiziam.

Cheia de medo, a criatura fria
Dançava horrível rente de uma chama
Que lentamente o corpo lhe roía,

E as velhas rindo a observar da cama
Iam falando sobre de que modo
Com dor mais lenta um corpo vil se inflama.

Espécie estranha de um vivente lodo,
Sendo corcunda e só com sete pernas
A aranha uivava por seu corpo todo

Que se expandia em inchações externas
Causando às velhas, com o vermelho horrendo
Do seu ardor, as sensações mais ternas...

Emocionadas, com as mãos tremendo,
Vieram então com um bando de alfinetes
Que em cada pata foram se prendendo,

E a aranha presa de mil cacoetes
Foi só os espinhos de uma prata ardente
Que a recobria em infernais coletes.

E nesta arte foram indo em frente,
Depois agulhas, e um perfume ardido,
E ao fim de tudo uma tesoura ingente,

Até que o fogo e o animal vencido
Murcharam juntos sobre a mesa irada
Em mil pedaços de um negror transido,

E ambas as velhas, conhecendo o nada,
Com face imensa devoraram tudo
Que lhes restava da fatal jornada.

Enquanto, a olhá-las, um retrato mudo
De seu marido ia chorando as dores
Que o recobriam no ancestral escudo,

E todo o chão ia se abrindo em flores
E uma criança, que ninguém notara,
Pela janela olhava sem temores

E ia crescendo, e de uma forma rara,
Enquanto as velhas, enxugando as portas,
Varriam tétricas, na noite clara,

Todo o amargor das profecias mortas!

terça-feira, 11 de setembro de 2018

LEMBRANÇA DO ADMINISTRADOR DO BLOG


GLORIA MUNDI - Siegfried Loraine Sassoon

Tradução de Jorge Wanderley

Quem quer palavras no bosque de outono
Onde a cor termina?
Ali, velhas histórias e glórias contadas
— O vento as elimina.

Estreita-se a razão no vale dos túmulos
Que contam o esforço do homem.
Ali as fábulas do tempo são a luz sumindo
Sobre rostos que somem.

LOLITA - Vladimir Nobokov



Tradução de Brenno Silveira

Lolita, luz de minha vida,
fogo de meus lombos.
Meu pecado, minha alma.
Lolita: a ponta da língua
fazendo uma viagem de três passos
pelo céu da boca,
a fim de bater de leve, no terceiro,
de encontro aos dentes.
LO.LI.TA.

ENCANTAMENTO DO MUNDO - Jean-Claude Renard

Tradução de Ivo Barroso

Qual se um odor de mentas e maçãs
a sagração do sangue envolve o pão.

Todo o pulmão do cosmo se dilata
nessa respiração de sua glória.

Ah que esses velhos cálices da morte
sob o vento do mar dos ossos caiam-me!

A lã de Deus tem o sabor das folhas
e dessas fontes - onde brota a vinha.

Farei maduro o ouro, entre os cervos brancos:
que ache o verão em mim os seus cassis.

BARROSO - Paulo Caldas

Barroso boneco de barro
Rebento de um pai vitalino
Sereno
Observa o destino
De estátua pra si reservado
Sisudo
Quieto
Calado
Dançando ou tocando seu pife
A tudo
A todos assiste
Barroso
Boneco de barro
Fechado em si mesmo é um triste
Escultura de pobres mercados
Às marcas do tempo resiste

domingo, 9 de setembro de 2018

DE_CADENCIAR – Walter Ramos

Fita vivamente a luz que imita o alabastro.
Viste pontos de fuga na fugacidade noturna;
entrelugares, risos em coro, divas de bronze,
pernoitadas nos lupanares - mobílias ocultas.
Urge a dor galopante a devorar as deidades.

Um quarto de tuas noites reservas à loucura;
na loja medíocre, confrades da mendacidade
sorvem torpores, vertem blasfêmia e espuma.
Carcaças vis morfadas em estátuas de Crack;
vagueiam cães no entorno das mesas chulas

mendigam as migalhas, habitam em angústia.
Saíste à tarde, não avisaste quanto a demora:
apearias a aurora, no bairro da Vista Obscura.
Fabularias sobre arte, morte; o mito de Marte.
& amanhecerias insone,
numa roda de putas.

CAMINHÃO DE MUDANÇA – Jessier Quirino

Vai pela estrada um caminhão repleto de mudança
Levando a herança de herdeiros de poucos herdados:

Os engradados de uma cama finalmente em pé
Arca e Noé prisioneiros desse esfaqueado
Encaixotados os tecidos, mimos e quebráveis
E os incontáveis cacarecos soltos remexidos
Dois falecidos num retraio olham pra paisagem
Guardando imagens e lembranças dos seus tempos idos.

Um velho espelho já trincado mostra o azul do céu
E o mundaréu ensolarado se faz de carona
Uma meia-lona sobreposta com o melhor arrojo
Se faz de estojo pra relíquia da velha sanfona
Uma poltrona escancarada de pernas pra cima
Fazendo esgrima com cadeiras, bancas e tramelas
De sentinela dois pilões de bojo carcomido
E um retorcido pé de bucha de flor amarela.

Em dois colchões almofadados dorme a bicicleta
E duas setas de uma caixa mostram dois achados:

Um emoldurado de retraio com um Jesus sereno
E o último aceno de saudade de um cortinado.
Desbandeirado segue o carro rumo a seu destino
Um peregrino pitombado de grande esperança
Vai, na boleia, um passageiro carregando sonhos
Vai, na traseira, dez carradas de velhas lembranças.

ENCRUZILHAMENTO DE LINHAS – Felipe D’Oliveira

Núcleo de convergência no bojo da noite oval.
Lanterna Verde
(amêndoa fosforescente
dentro da casca carbonizada)

Longitudinal, centrífugo,
o trem racha em duas metades
a  espessura do escuro
e, cuspindo pela boca da chaminé
as estrelas inúteis à propulsão,
atira-se desenfreado
nos trilhos livres.

Mas se o maquinista fosse daltônico
a locomotiva teria parado.