terça-feira, 16 de outubro de 2018

MEU SONHO FAMILIAR – Paul Verlaine



Tradução de Guilherme de Almeida

Sonho às vezes o sonho estranho e persistente
De não sei que mulher que eu quero e que me quer,
E que nunca é, de fato, uma única mulher
E nem outra, de fato, e me compreende e sente.

Compreende-me, e este meu coração, transparente
Para ela, não é mais um problema qualquer,
Só para ela, o meu suor de angústia, se quiser,
Chorando, ela transforma em frescura envolvente.

Se é morena, ou se loura, ou se ruiva – eu ignoro.
Seu nome? É como o nome ideal, doce e sonoro,
Dos amados que a vida exilou para além.

Seu olhar lembra o olhar de alguma estátua antiga,
E sua voz longínqua, e calma, e grave, tem
Certa inflexão de emudecida voz amiga.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

RENASCER – Cristina Semblano

Quero acordar no meu País
Sem náuseas.

Sem cheiro a corvos
A matilhas de lobos
E a cães de guarda.

Apenas o cheiro da chuva
Na terra queimada.

O regresso dos filhos
Que partiram.

E o recomeço de uma nova
Sementeira...

ELOGIO DA DIALÉTICA – Bertolt Brecht

Tradução – Haroldo de Campos

A injustiça vai por aí com passo firme.
Os tiranos se organizam para dez mil anos.
O poder assevera: Assim como é deve continuar a ser.
Nenhuma voz senão a voz dos dominantes.
E nos mercados a espoliação fala alto: agora é minha vez.
Já entre os súditos muitos dizem:
O que queremos, nunca alcançaremos

Quem ainda está vivo, nunca diga: nunca!
O mais firme não é firme.
Assim como é não ficará.
Depois que os dominantes tiverem falado
Falarão os dominados.
Quem ousa dizer: nunca?
A quem se deve a duração da tirania? A nós.
A quem sua derrubada? Também a nós.
Quem será esmagado, que se levante!
Quem está perdido, que lute!
Quem se apercebeu de sua situação, como poderá ser detido?
Os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã.
De nunca sairá: ainda hoje.

QUANDO VIERES VER UM BANZO COR DE FOGO - Nina Rizzi

talvez a sida ou peste já nos tenha a todos
afetado a pele a não mais luzir o suor dos lombos
os olhos sejam o quê de duas coisas verdes.

também eu estalo e não terei estado em penedo
e faço sacrilégios pra que daqui a lá já não te deva
aqueles quase dois mil euros.

toda carne então é só essa coisa de meter
ternura. e os bocadinhos de lembrança
do lume à cera. vigília e nada.

quando vieres ver um banzo cor de fogo
oxalá não se enrugue esse couro que de tão velho
já não será tambor. oxalá cresçam pitangas, poemas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

SEM DESTINO – Sérgio Borja

Se até a esperança
já é fuga
já é mortalha

Se te quedas
segregado
pela mente
ensimesmado
e cercado

Se teu horizonte
é parede
o musgo e mofo
nas veias
da muralha
em cuja malha
tua vontade desmaia
Caminha
simplesmente
caminha
até mesmo
sem caminho
a esmo
sem rumo
ou destino
pois existem
outros mundos
outros rumos
paralelos
a teus muros
concomitantes
a teu mundo.

ISSO – Rafael Mantovani

se for mesmo tudo
em vão
(digo, se tudo é vaidade)
quero o vão onde eu encaixe
ou seja:
o seu

aguento enquanto
posso, protelo a
dissipação
pois só você
(amor) é meu
perfeito desperdício

sempre tive forças
pra passar
pro outro
lado (não
espero
mais que isso)

pena que é tão difícil
(e eis o
desespero)

preso entre o ser e as coisas
encontrar
o orifício.

CONSTRUÇÃO – Dagmar Braga

Lanhada a pedra,
faço-me fio,
partilho, rasgo
entranha e estranho.

Quebrado o leme,
desoriento,
acolho vento,
maré e abismo.

Cavado o poço,
torno-me água,
mão retorcida,
lisura e barro.

Feito o silêncio,
lasso a palavra -
gume sequioso
de outra navalha.

sábado, 6 de outubro de 2018

NESTE MESMO MUNDO – Adriana Lisboa

vida íntima
de uma menina de dez anos
na Somália (Somália é qualquer lugar
neste mundo, neste mesmo mundo):
o clitóris e os lábios vaginais são decepados
a menina é costurada em seguida, deixando-se
apenas uma pequena abertura para a urina e a menstruação
a menina é imobilizada até que a pele grude
entre suas pernas
e no dia em que estiver pronta para o sexo
seu marido
ou uma mulher respeitada na comunidade
vai abri-la de novo, cortá-la
como se corta uma fruta, como se corta
a aba de um envelope que traz um documento importante
como o avião corta a nuvem
como a nuvem corta o céu.

A NOITE – Dirceu Quintanilha

No exato momento do grito
janelas e portas
amedrontadas,
fecham-se -
na noite do grito.

Na noite interna dos trincos
paredes, petrechos,
móveis-sombra,
vestem-se de silêncio.

Homens-mulheres-família
encolhem-se como vermes:
- Estátuas
onde o sangue flui, o gelado -
em desamparo.

No exato momento do grito
noturno.

NIHIL - Guimarães Passos

Sem aos outros mentir, vivi meus dias
desditosos por dias bons tomando,
das pessoas alegres me afastando
e rindo às outras mais do que eu sombrias.

Enganava-me assim, não me enganando;
fiz dos passados males alegrias
do meu presente e das melancolias
sempre gozos futuros fui tirando.

Sem ser amado, fui feliz amante;
imaginei-me bom, culpado sendo;
e se chorava, ria ao mesmo instante.

E tanto tempo fui assim vivendo,
de enganar-me tornei-me tão constante,
que hoje nem creio no que estou dizendo.

RUA DOS MEUS AMORES – Juliana Bernardo

este é o trecho de penumbra que divide
a rua dos meus amores

com leões e dragões tateio o escuro

meu amor não precisa dizer verdades
bastam-me seus segredos
e um endereço que nunca consultarei

fico com os recados do tempo
e sigo extraviada, mãos atadas à sombra
nenhum dos amores

CACTUS - Laís Chaffe

Seguem regando cactus
com seus versos consumados,
seus desejos de fatiota,
seus gestos de pince-nez.

No ar, punhais se aposentam,
restam punhos descerrados,
pulsões de terno e gravata
e impulsos protocolares.

Seguem regando cactus,
aram desertos, cimento.
Há vigilância nos atos
e assepsia nos leitos.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

VARANDAS – Priscila Lopes

Pela varanda
Vejo o Sol
O dia-a-dia
Vejo promessas
De um amanhecer
Com alegria
Vejo meus sonhos
Na varanda
Contemplativos
Vejo teus olhos
Que tanto têm
A ver comigo

Pela varanda
Eu me perco
Em devaneios
Rasgo cadernos
Corto meus pulsos
Parto-me ao meio
Na varanda
Espalhado está teu riso
Teu canto
Teu pranto
A mostrar que te preciso

Pela varanda
Eu recordo
O que não fui
E o que serei
Se não sair
Dessa varanda
Se não declarar
Meu sentimento
Sufocado
Sinto que sou como o vento
Passando na varanda
Sem nunca ser notado

SOMBRAS – Lêda Selma

Sento-me à mesa e divido as culpas
numa ceia farta
de esperanças murchas e de sonhos avariados.
E tudo é sem rosto, disforme e insosso
como um verso falso.
E tudo é só um vulto nas sombras dos cacos.
E é só um morto
— menino em trapos —
que matou a fome dilatando as narinas
ou estendendo o braço....

INVERNO – Joana Maria Neves Guimarães

há uma fera e suas presas:
ela aqui monta guarda
e um pavor disfarçado
pelas ruas do rosto
há um rio seco a rolar
por raízes do ser
e um projeto roubado
pelo tempo
há uma voz que nos fala
de chegadas e partidas
pelo chão de seus olhos
caminha um adeus.