quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES – Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

O ENCONTRO - Jorge da Cunha Lima

O primeiro encontro
foram tijolos abertos
com palavras pedras.

É belo um livro
como um tijolo
limpo — é triste
um livro lido,
um muro pronto.

Um livro lido
é um amigo no cais,
que nos dá o percurso
e nos deixa só,
do encontro.

CANÇÃO SOBRE O MESMO TEMA ANTIGO - João Alphonsus de Guimarães

Eram cinco donzelas.
Queriam todas me adorar.
Mas não adorei nenhuma delas.
Oh, elas
Queriam todas me adorar.

Eram cinco donzelas.
Queriam todas me abraçar
Mas não abracei nenhuma delas.
 Oh, elas
 Queriam todas me abraçar.

Eram cinco donzelas.
Queriam todas me beijar.
Não beijei nenhuma delas,
Oh, elas
Queriam todas me beijar.

Eram cinco donzelas
Queriam todas me matar
Mas não matei nenhuma delas,
Oh, elas
Queriam todas me matar.

Eram cinco donzelas.
Queriam todas me desprezar.
Mas eu amei a todas elas,
Oh, elas
Queriam todas me desprezar.

EM QUE TEMPO? – Isabel Cristina Albuquerque

O olhar descansado
No horizonte
Traz o futuro
Que desejo.
A visão cega
Do agora
Esconde o presente
Que recebo.
A lembrança perdida
Na distância
Mostra o passado
Já vivido.
Em que tempo estou?

ANÁLISE DA SOMBRA – César Leal

Analisa-se da sombra
seu caráter permanente:
pela manhã retraindo
a imagem, à tarde crescente.

E aquele instante em que a sombra
adelgaça o corpo fino
como se no chão entrasse
quando o sol se encontra a pino.

Quem a esse instante mira
em oposição ao lado
onde o sol era luz antes
logo vê o passo vago

da sombra que agora cresce
o corpo de onde se filtra
até fundir-se no limbo
que em torno dela gravita.

Forma esse limbo a coroa
que as sombras traz federadas:
soma de todas as sombras
num só nó à noite atadas.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

TEODICEIA - Henryk Siewierski


As provas não estão comigo
deixei-as do outro lado
do Atlântico.

Eram muito pesadas
para quem ia
à América.

Aqui não se fazem provas
de que Deus existe
e é bom.

Aqui a gente espera
que se explique
melhor.

Enquanto espera vive
e deixa-o viver
e ao Diabo.

E a vida corre sem prova
as provas, 
do outro lado.

ASPIRAÇÃO – Gonçalves Vianna

Que eu sempre seja assim e que ninguém compreenda
A causa desta dor atroz que me tortura,
E seja sempre triste e, como o herói da lenda,
Parta em busca do Amor, do Sonho e da Ventura.

À conquista do ideal meu pensamento ascenda,
Na certeza cruel de não chegar à altura.
E que este coração de bem seja uma tenda,
E eu aceite, a sorrir, o cálice da amargura.

E aos soberbos despreze e aos humildes proteja,
E, qual guerreiro antigo, heroico e lutador,
Eu tombe ensanguentado em meio da peleja.

E que leve, ao partir deste exílio medonho,
O orgulho de viver sofrendo a minha dor
E a glória de morrer fechado no meu sonho!

NOSSA VIDA É UMA BALANÇA... – Belmiro Braga

Nossa vida é uma balança
Com duas conchas iguais:
Numa a alegria descansa,
Noutra descansam os ais.

Como são afortunadas
As almas que podem ter
Nas conchas equilibradas
Igual dor, igual prazer.

Minhas conchas em porfia
Não se equilibram jamais:
Sempre a dos risos vazia
E sempre cheia a dos ais.

ANTIGAMENTE E HOJE – André Carneiro


Toca-se um botão,
nasce a tartaruga
exata, cibernética.

Euforia vai à fonte
de meprobamato.
Propaganda subliminar,
põe-se gravata
de polietileno,
dentes na clorofila.

Agora é fácil,
a morte vem
da estratosfera
nas estrelas a j ato.

O medo criou asas,
alçou voo,
cobriu o sói.

O cogumelo derrama
a sombra radiante

sobre o mar.

Peixes morrem calados.

Homens resolvem
explosões,
inocentes
e secretas.

MARÉS - Luís Pimentel

A vida dá muitas voltas
e volta sempre ao começo.

Nos mostrando em cada volta
seus passos e seus tropeços.

A vida é maré revolta.
A morte é que vem de berço.




FÁBRICA – Joaquim Namorado

Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto frio e liso dos metais,
a segura confiança
do saber-se que é assim e assim exatamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma ventura
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:
é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento;
como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.

Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;
as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
& fábrica-, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.

TERRA DO SOL – Jader de Carvalho

I

Dói na alma ver a seca no sertão:
toda a caatinga tem a cor da cinza;
a água do rio esconde-se na areia;
mugem as vacas dolorosamente.

As moças e os meninos (tão magrinhos!)
estão catando os últimos capulhos
do algodoal. Ele florara em junho,
mesmo com a rara chuva que o molhou.

Verdes, apenas os mandacarus,
os xiquexiques e os ásperos juazeiros:
verdes, mas defendidos por espinhos!

Por sua vez, o homem também protege,
com a pouca fala e o rosto duro, a abelha
que lhe fabrica o mel no coração...

II

Abro a janela. A terra está feliz:
toda molhada, trêmula de frio.
Mas a cidade é muda nas calçadas:
ó meninos, já não gostais da chuva?

Minha terra se molha como a gente.
Quer dizer: na mais íntima alegria.
Ela mata saudades. Era tempo.
Como eu gosto das árvores na chuva!

Chuva não é somente o sono bom,
a música macia no telhado:
é o pão-nosso, também, de cada dia.

Feito as mulheres grávidas, a terra
vai ficar terna, vai ter olhos úmidos,
vai fechá-los, com medo dos relâmpagos...

MIRAR-SE – Guto Leite

há um espelho colocado fora
que anda comigo
nele me vejo continuamente

às vezes reflete o desconhecido
mínimo e profundo
que transpareço

mas normalmente em seu corpo
deita aquilo que costumo
ter por mim

a aparência com que a luz
aprendeu a enganar-me
os sonhos laminados

a grandeza hesitante
que se exibe
esquiva do acaso

o espelho por outro lado
me vê com as mesmas ressalvas
e vaidades

pergunta-se o quanto de mim
pode dizer de si mesmo
qual é a parte da carne

em que não se reconhece
se minha face o reflete
se escreve o mesmo poema