segunda-feira, 22 de junho de 2020

TRISTANTE – Beatriz Bajo

tristante é uma fisgada acesa
arranhando a abóbada silvestre
dos que não veem o céu
tristante é ante antes
do néon estúpido que embaça
o sal nos ferimentos
ah! tristante intenso e vingador
partindo ao meio os substantivos
coisapalavrasemjeito
não há unguentos mas fardas
cingindo a cinzas as singelezas
dos que imploram aos perfumes
óleos essenciais lavandas
nos quintais insolúveis
álcoois para forjar imagens
batons, sandálias e dálias
nas amenidades desconcertantes
para macular de vez ou tristante

A MANCHA - Basilina Pereira

E este vazio no meio da tarde!
Uma mancha de faz de conta, solta,
assim como a dor dos que ficam
do lado de fora da felicidade.
Não tem pé nem cabeça;
tampouco hora para libertar os pensamentos,
presos a uma certeza tão efêmera
quanto o olhar dividido na encruzilhada.
A vida que me sorri agora é um telhado sem chão
frente às tantas goteiras prontas para o salto,
mas temerosas do abismo.
O vento não traz o que falta,
talvez porque não saiba as respostas
perdidas naquela estrada cada vez mais estreita,
por onde já passei tantas vezes
desapercebida.

domingo, 21 de junho de 2020

QUALQUER LEVEZA DA QUEDA - Viviane de Santana Paulo

Qualquer peso que caia
É um peso caído
Qualquer pena que flutue
É uma pena flutuada
Qualquer papel que se amasse
È um papel amassado
Qualquer lenço que se dobre
É um lenço dobrado

Qualquer pensamento que se busque
É um lugar encontrado
Qualquer gesto que se componha
é um gesto aliviado
Qualquer palavra que se diga
É um sentimento revelado
Qualquer lágrima que caia
É uma lágrima regressiva
Qualquer riso que se dê
É um riso devido
Qualquer caminho que se tome
É um caminho predestinado

Qualquer dobra de um lenço
É uma dobra marcada
Qualquer amassar de papel
É uma mão fechada
Qualquer flutuar de pena
É uma queda esperada
Qualquer cair de pedra
É uma viagem demarcada