quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

TERRA – Isabel Hirata

Para Vladimir Herzog

Eu quero teu corpo moído,
de pancadas.
Eu quero teu cérebro torturado.
Eu quero tuas mãos inutilizadas.
Eu quero teu corpo moído,
sufocar com beijos, teus gemidos.
Eu quero ouvir bem baixinho,
tua voz a me dizer:
— Eu só queria a liberdade...
Te guardarei por toda eternidade
Quando de você só restar
Para os que te amaram
A dor de tua perda.
E esta tremenda saudade!
Abrirei minhas entranhas
Para que nelas sejas depositado
Porque em mim germinará a semente
Teu corpo será passado
Teu nome será presente

OUTROS RESÍDUOS – Heitor Ferraz Mello

Fica um par de brincos
em cima da cômoda.
Fica um elástico solto
como retrato, na gaveta.

Fica a marca da cabeça
deitada no travesseiro
(às vezes um fio de cabelo
para restituí-la em silêncio).

Fica a lua — a meia-lua —
que banal comparei
ao seu sorriso (lembra?).

Fica você que caminha.
Seu corpo indeciso muda
e mudo se desmembra.

TRISTES HOMENS AZUIS - Marcos Prado

não é blues, tristes, não é mesmo 
a tristeza não faz um homem azul 
o branco é branco,o negro é negro 
ninguém é triste, não há blues 
só existem, tristes, os tristes homens azuis

eles se vestem de branco e de negro 
e os outros veem azul 
porque não são brancos nem negros 
os tristes homens azuis

ninguém nasce azul 
não se põe no mundo 
alguém azul 
mas quando a noite baixa 
se levantam 
os tristes homens azuis

A TUA BOCA ADORMECEU – Cruzeiro Seixas

parece um cais muito antigo
à volta da minha boca.

Mas as palavras querem voltar à terra
ao fogo do silêncio que sustém as pontes
perdidas na sua própria sombra.

E há um cão de pedra como um fruto
que nos cobre com o seu uivo
enquanto pássaros de ouro com mãos de marfim
transplantam as árvores transparentes
para o ponto mais fundo do mar.

As lágrimas que não chorei
arrependidas
fazem transbordar a eterna agonia do mar
como um lençol fúnebre
com que tivesse alguém coberto o rosto metafórico
dos cinco continentes que em nós existem.

Assim é ao mesmo tempo
que sou eu e não o sou
aquele relógio das horas de ouro
que além flutua.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

OCUPAÇÃO - Sebastião Nicomedes

Da torre do prédio mais alto
contemplo a cidade toda
edifícios e casas
quantas portas e janelas
e a nós sem teto
sem um lugar para morar.

Essa noite não dormiremos, vamos vigiar
que amanhã bem cedinho
vem a tropa de choque
pra me expulsar daqui.

SEM VOCÊ - Sandra Fayad

(com sete ervas)
Sem você, sou galho de arruda  murcha,
Que não protege de mal olhado,
Nem afasta despacho na encruzilhada
Ou feitiço amarrado por uma bruxa.

Mas se você vem, comigo-ninguém-pode,
Mesmo que a tempestade impiedosa,
Ameace projetos e deixe seqüela..

Na sua ausência, para irmos ao pagode,
Os caminhos não se abrem
E o alecrim se descabela.

Mas se você chega, mesmo na tigela,
A capuchinha se põe mais bela,
O manjericão perfuma tudo o que pode,
Arroxeando de vergonha a  alfavaca donzela..

Sem você a espada de São Jorge
Não atravessa nenhuma pinguela,
Nem aqui em Brasília, nem na Guiné.

Mas se você aparece na minha janela,
A pimenteira até combina com café,
E meu sorriso grita feliz:
Alevante o trinco da cancela!

sábado, 7 de dezembro de 2019

OUVE – Gilson Pereira de Araujo

Haverá sempre um ouvido a ouvir
As queixas que deixas a preencher o vazio.
Não serão vãos teus lamentos, perdidos
Na distância que te afasta de quem te quer ouvir.
Preencherão o espaço, invisível aos olhos
Que se alegram no que se dissipa à flor dos lábios,
Mas persistem naqueles que enxergam almas
Nas vozes que galopeiam os sentimentos a vagar.

Dói-me tua ausência, que se firma a cada dia,
A desenganar-me da esperança que se oferece
Sem que se faça real, do sonho que alimento,
O passado que amo e que presente quero.
Ouvidos ouvem os gemidos de minh’alma,
Como se nada fosse dito no silêncio que alimento.
Parece-me vão o sentimento sentido em teu louvor.
E, desejo o silêncio que se deseja por eterno.

O caminho, inevitavelmente, só estreita e encurta
E o passado é lembrança que não se goza estando só.
Acompanham-me passos de um caminho sem começo
Que não me acompanham nem me causam tropeço,
Seguem a mesma trilha sem que me mostre o rumo,
E, assim, sigo insano em permanente prumo.
Ouvidos ouvem, dessa dor, inerte, o vão lamento
Sem que o coração sinta a causa do sentimento.

INFÂNCIA – Lucia Hazim

Não deixaram palmo sobre palmo
Cavaram e destroçaram o solo.
E as cabras baliam entre
as entranhas das casas.
Os bárbaros!

Deus havia olvidado seu povo.
Esquecido que um dia palmilharam
a cidade das tamareiras nos dias de Josué.

Então pusemo-nos a caminho
e partimos.
Digo-vos, pois, sob a fé
daqueles que nos antecederam.
Que antes de havermos cruzado
o chão de Nápoles e Roma.

Onde aprendemos
uns mágicos vocábulos.
Era já chegada a primavera.
E passamos a nos abastecer
de frutas e verduras.

Através de uma cestinha
suspensa no ar. Em sua frágil
viagem — para cima e para baixo.
Quase uma história medieval

Digo-vos, pois, outra vez
Não sei de crianças com faces
mais rosadas — e luxo maior.

Um dia, a mulher desceu os sete
lances de escada. E comprou
vestido ornado de renda
para cada uma das meninas.

Um anjo havia passado
E nem percebeu.

Entanto nunca hei de esquecer a beleza
peregrina desta
fábula.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

AS CIDADES - Juareiz Correya

As cidades são pessoas.
Assim crescem e vivem
À luz dos nossos olhos
E no coração do sangue.
Habitam nossa alegria
E nossa dor.
Por um momento
Se perpetuam em nós
E somos
A própria imagem e semelhança
Do que nunca morre.
Também se apequenam
E se apagam
Como um tempo perdido
E o avesso da humana verdade:
Vivendo a vida sem ter vivido.

AMORES IMPOSSÍVEIS – Maristela Freitas

O pragmatismo do amor expulsa a ilusão. 
Para cada passo dado, cada olhar arrancado  
o tempo não será lembrado. 
Para cada degrau subido, 
o tempo será esquecido.  
A paixão queima as águas do desejo.  
Para amores impossíveis, o tempo atrasa a estação.  
Tento segurar o amor mas ele foge das minhas mãos.  
Na verdade, ele não existe. 
Mas quando um amor tem de ser, ele acontece
sem precisar de paredes ou intermediários.  
Ele vem correndo pelos vasos sanguíneos da vida.

FALANDO EM LIBERDADE - Eliakin Rufino

Eu falo de liberdade
como quem fala de pão
de algo que se reparte.

Eu falo de liberdade
como quem fala de arte
de algo que se inventa.

Eu falo de liberdade
como a dos anos sessenta
"faça amor, não faça guerra".

Eu falo de liberdade
como quem fala da terra
a que todos têm direito.

Eu falo de liberdade
porque carrego no peito
uma flecha atravessada.

Eu falo de liberdade
como quem fala de amor
para a pessoa amada.

RETRATO - Helena Parente Cunha

de agora a mil horas
o meu retrato
ainda estará aqui

quem aparece
onde pareço?

pouso de passagem
na fotografia

atrás do quadro
que me contorna
desapareço

quem comparece
na própria face?

poso de novo
(me encontra pronta
cada hora que mil)

de agora a mil horas
quem perece
no meu retrato

PENHOR – Walmir Ayala

Quanto pode valer um pássaro
de canto puro e goela solta
que gosta de carícia e se espreguiça
como qualquer amado amante?

O dono levou-o à penhora
por trinta e oito mil
cruzeiros. Diz
que vale o dobro.

Avaliado, não dá mais do que mil e quinhentos
diz o causídico do banco, e chama de brincadeira
esta causa de tão pessoal alcance.

Falando por seu advogado
o dono do pássaro diz
que o assunto é muito sério
e pede mesmo que o pássaro
seja tratado com carinho
pois cantando e recebendo amor
é que se prova valioso.

Neste poema, atentem, a palavra é tão banal,
mas o miolo é pura
poesia.
Difícil é contar como canta o pássaro.
Aí é que seríamos sublimes.

OS USOS DA ADVERSIDADE – Vasco Graça Moura

os usos da adversidade
de repente, é este o uso da adversidade:
as crianças que ficam aprenderam a matar,
no brasil, em angola, na bósnia, em moçambique,
usam a adversidade como uma faca assassina,

de repente uma urgência, um rebate de sinos,
cidades destruídas casa a casa e corpos
e armas abandonadas e incêndios e
silêncios no silêncio, rumores de pó, mais corpos.

usam a adversidade como uma carabina.
de repente os motores de um avião que parte
a sua sombra pousa como a asa do destino
nas oliveiras feridas de ruína em ruína

e o ruído que faz nestes montões a morte
como se morrer fosse uma cava rotina.