quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

PROCESSO FINAL - Rafael Rocha


Quando nossos poentes avermelharem céus...
Quando as paixões adormecerem frias...
Eis o processo final!
Das tantas vezes em que tentamos dormir
impedidos pela adrenalina do amor...
Eis o processo da última vertigem!

Não mais tentativas de sedução às rosas!
Não mais tratativas de colar os corpos!
Hoje dormimos, dormimos!
A sede de viver permanece ativa
e geme medrosa de se perder nas noites!
Eu escuto! Escutas! Escutamos!

Apenas tratativas de nãos e fugas!
Pensamentos partindo em revoada!
Anoitece! Anoitece! Anoitece!
Eis o processo final de nossas auroras!
Eis o processo final de nossas tardes!
Eis o processo final das nossas noites!

A paixão morreu!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

SILÊNCIO - Gilberto Nogueira de Oliveira

Ando pelo deserto, ouço a tempestade.
Ando pela rua, passa um trator.
Ando pelo campo, ouço a covardia.
Ando pela periferia, ouço lamentos chorosos.
Ando pelas capitais, ouço discursos incultos.
Ando dentro de mim, ouço a minha tristeza,
Miséria, confusão. E o meu ser, é o meu eu.
Parei de andar. Olhei para o cemitério
Tinha gente chorando pelos mortos.

EVANGELHO - Leandro Angonese

Não acredito
Em Deus
Nem no diabo
Que o homem veio do barro
Do paraíso prometido
Nem no fogo da geena
Não acredito
No amor absoluto
Na instituição do casamento
Nos ditos sacramentos
Nos homens e seus rituais
Nos tratados de paz
Não acredito
No coringa no jogo de baralho
No poder do adversário
Na umidade do orvalho
Não acredito
Nas visões da bola de cristal
Na profecia de Nostradamus
Na amizade entre os sexos
Ho gozo das prostitutas
No feitiço das bruxas
Não acredito
Na santidade do papa
Nas lidas da Sagrada Escritura
Na magia dos xamãs
Na maldição do faraó
Na passagem do mar vermelho
No meu reflexo no espelho

REDIVIVO – Esmeraldo Homem Siqueira

Nenhum de vós me conhece.
Já morri muitas vezes!
O que vedes em mim,
Depois de tantas mortes sucessivas,
Não sou eu, mas o egresso de mim mesmo,
Por milagre extraordinário
Da vontade consciente de viver.
Rebentei, uma a uma, as paredes do túmulo
Onde haviam tentado sepultar-me,
E apareci ao sol, completamente outro,
Reafirmando aos brados
O desejo de ser.

Minhas ressurreições passaram despercebidas
E ninguém duvidou de que eu fosse eu mesmo.
Não vi como nem para que provar
Aos cegos de nascença a existência da luz.
Meus amigos, eu trouxera do berço
Os estigmas negros do infortúnio.
- "Hás-de ser infeliz! hás-de ser infeliz!" -
Foi o refrão que ouvi durante anos e anos.
E realmente, fui um réprobo da sorte.

Vieram não sei de onde algozes misteriosos,
Arautos de sinistras potestades,
Cada um com seu suplício original.
Havia três bilhões e meio de outras almas
E era tão grande a terra!
Por que seria eu o eleito supremo,
Justamente eu, meus amigos?
Devo calar em meu próprio respeito.
Por mais que vos falasse,
Não teríeis tempo de entender-me.
Gritarei, apesar de tudo,
A plenos pulmões e em tom desafiador:
- Eu sou o liberto! eu sou o liberto!

NOITE - Vassili Andrèievich Jukovski

Tradução de Marco Luccbesi

Morrem os últimos raios do dia
sobre as águas tingidas pelo ocaso,
e a sombra passa sinuosa e fria;
a noite recomeça a caminhada,
silenciosa, pela eterna estrada;
antes, vem Héspero a ditar-lhe o rastro
com a luminescência de seu astro.

Ó noite!, vem, com teu manto sublime,
com teu espesso velame de vento
com a tua poção de esquecimento.
A paz em nosso coração imprime.
Ó noite!, vem, tão pura e sublimada,
alivia nossa alma angustiada;
com o teu canto, dá-nos esperanças,
como fazem as mães com as crianças.

GRATIDÃO – Maria Cristina Gama de Figueiredo

Todo meu ser é uma resposta
agradecida à natureza que me cerca.
E porque tudo é natureza,
mesmo o objeto fabricado,
mesmo o controle remoto sobre a mesa,
tudo me é indiferentemente natureza
porque tudo faz parte da vida
pelo manuseio ou pela vista
e porque simplesmente está:
então é vida, é natureza.
E bem agradecida melhor que não agradecer
e mesmo infundida de tanta dor e ser
menos doída quanto mais a ferida esquecer.


O PÂNTANO - Faria Neves Sobrinho

Ouve e guarda contigo
este conceito amigo:

Alma não há de crimes tão perdida,
nem coração tão torvo e escuso e escuro,
que se não abra, uma só vez na vida,
ao riso em flor de um sentimento puro.

Olha:  o pântano é todo
feito de vasa e lodo.

No entanto, em noites claras, é de vê-las:
na água malsã que a vasa está cobrindo
chispam, tremeluzindo,
                                   cintilações de estrelas...


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

A VINDA – Viriato Gaspar

Chegaste de manhã, e era dezembro.
O mar cuspia azul sobre as estrelas
e marejava um cais para bebê-las.
Teu rosto era um farol, é o que lembro.

Chegaste como a chuva; pelo avesso,
acendendo a manhã nas minhas unhas.
Agora foi depois, quando eu supunha
não mais molhar-me o sol, seu sal espesso.

Nunca disse teu nome, não cabia.
A palavra era apenas seu esgar,
um modo de morder a ventania.
Só lembro do dezembro. E então o mar.

ENCANTAMENTO DO MUNDO - Jean-Claude Renard

Tradução de Ivo Barroso

Qual se um odor de mentas e maçãs
a sagração do sangue envolve o pão.

Todo o pulmão do cosmo se dilata
nessa respiração de sua glória.

Ah que esses velhos cálices da morte
sob o vento do mar dos ossos caiam-me!

A lã de Deus tem o sabor das folhas
e dessas fontes - onde brota a vinha.

Farei maduro o ouro, entre os cervos brancos:
que ache o verão em mim os seus cassis.

EM QUE TEMPO? – Isabel Cristina Albuquerque

O olhar descansado
No horizonte
Traz o futuro
Que desejo.
A visão cega
Do agora
Esconde o presente
Que recebo.
A lembrança perdida
Na distância
Mostra o passado
Já vivido.
Em que tempo estou?

domingo, 3 de fevereiro de 2019

DEITA TRANQUILO, DORME EM PAZ – Dylan Thomas

Tradução de Ivan Junqueira

Deita tranquilo, dorme em paz, tu, com tua chaga
Que arde e se retorce na garganta. Por toda a noite,
Sobre o mar silencioso, escutamos os rumores
Que vêm da chaga envolta num lençol de sal.

Sob a lua, distante tantas milhas, estremecemos ao ouvir
O som do mar flutuando como o sangue da sonora chaga
E quando o lençol de sal se rasgou numa tempestade de canções

As vozes de todos os afogados nadaram sobre o vento.
Abre uma senda através da lenta vela taciturna,
Lança ao vento, na lonjura, as rotas do barco erradio
Para que se inicie a viagem ao fim de minha chaga,

Ouvimos ecoar o som das ondas e o que diz o lençol de sal.
Deita tranquilo, dorme em paz, esconde a boca na garganta,
Ou teremos de obedecer, e cavalgar contigo por entre os afogados.

ÁGUAS RASAS – Sônia Barros

Atrás do muro, o outro lado
do mundo que seu canto curto
não alcança nem ousa — não ousa mais
voo maior que o rastejar.  Aprendeu
a contentar-se com fiapos, trilhas,
trilhos sob o pés descalços,
música de ouvido que vem do rio,
colhida na concha acústica das mãos.
Altas pedras cerceando as águas
rasas de um riacho: tão efêmeras
quanto eternas, asas e muralha.

INVENTÁRIO – Geir Campos

Esta epiderme há muitos muitos anos
me cobre: guarda algumas cicatrizes,
outras não lembra mais, e até mistura
uns caminhos da infância a outros de agora.

As unhas não direi que são as mesmas
com que o seio nutriz terei vincado:
são mais duras, mais feias e mais sujas
— pois nem sempre de amor e entrega foi
o chão em que plantei, colhi nem sempre.

Se os dentes não gastei, gastei meus olhos
entrevendo paisagens, vendo coisas,
cegando-me ante sésamos de sombra.

A alma apanhou demais e vai pejada,
mas vão leves as mãos cheias de nada.

AUREOLADA – Flávia Perez

Eu tão anjo tenho andado
que em mim nasceram asas.

O que me perde pro céu
é esse meu grande
rabo
endemoniado
e minhas coxas grossas...

HUMILDADE – Abgar Renault

Minha humildade de água me trouxera
ao mais íntimo pó do pós de ti
e rira à desatada primavera
os ouros e cristais que ela sorri.

Trajada de urze, barro, liquen e hera,
ficara em desbotado e eterno aqui,
marcando, à tinta de ar, pelo ar a espera
de se entreabrirem tempestades e

silêncios para os lumes do teu passo.
Modelara-me em terra ou limo crasso
para ser teu desdém, objeto ou chão.

Vivera no final de selva e furna,
tornara o coração ilha noturna,
século, inverno a dormir o teu clarão.