terça-feira, 23 de junho de 2020

ENQUANTO A VIDA PASSA- Helena Valentine

A vida passa,
No pula, pula amarelinha
Bem na frente da casa da dona Maria
A vida passa,
A bola rola,
A professora rebola,
O aluno cola na prova de história
E a menina suspira carregando o sonho na sacola

NATUREZA MORTA - Geruza Zelnys

triste arte de produzir efeito
sem causa/sem paixão/sem verdade
no conforto do sofá

condenando à morte os gerânios
e também os girassóis/bromélias
e margaridas/mesmo as petúnias
com a confissão de que as pintavam mãos
entediadas

as flores encantadas das cores vivas
eram apenas capricho de pintor
emolduradas em túmulo rosa
de paspatur

apenas os cactos não morreram

os cactos secos e tristes
sobreviveram

os cactos secos
e tristes sobreviveram
porque já estavam mortos

segunda-feira, 22 de junho de 2020

A CATEDRAL DA NOITE - Ana Pinto

A catedral da noite é como um berço
onde habitam harpas, acordes que procuram
a forma indivisível da casa
em colunas erguidas à última corda dos céus.

Dizem que no meio estão os anjos todos brancos
e que aí a música dos ares abre
crateras amplas de fogo e de cristal.
E que nas entranhas da noite se move
o espírito do poema. Por isso
nas mãos, nos dedos,
cresce-me a cadência, o uso
de revolver a palavra no negrume
até descer ao silêncio
e ouvir o som.