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sábado, 28 de maio de 2022

POEMAS de Eliane Teixeira

 

PERCEPÇÃO

Mão crispada no meu ombro esquerdo
Profundos olhos de oceano intocado
Visão urgente que tudo percebe
E dissimula
Desconcertando a minha imaginação

Acende agora a chama oculta
No meu peito
E que esse calor sagrado
Aqueça nossos corações
Neste inesperado quase-abraço.
.......
PLENITUDE

Deixem-me ser como aquele rio:
Nunca o mesmo rio a cada segundo
E, ainda assim, água
Como todas as águas
De todos os rios
- É sabedoria pura sua essência intacta

Deixem-me ser como os seixos
Que rolam em seu leito
Com suas formas perfeitas
-Mistério guardado
No silêncio profundo do tempo

Deixem-me ser como as árvores
Em suas margens
Cujas folhas fingem cair e renascer
De tempos em tempos

Deixem-me ser como os pássaros
Deste cenário
Que não precisam disputar o azul do céu
Para serem livres

Também sou essa paisagem
Sei que sou feita de água, pedra,
Árvore e pássaro
Também eles são feitos de mim

Somos todos a página de um mesmo livro
No mistério inexplicável do tempo.
.......
AMOR-MENINO

Meu amor-menino
Vem sempre visitar meus sonhos
Sua presença é sempre doce
Como um pássaro sem medo

O tempo o tornou homem
E a vida o afastou para um país distante
Não sei se é feliz
Nada sei do âmbar
De seus olhos calmos

Nem mesmo sei o seu rosto
Mas minha memória
Guardou suas mãos
Seus longos dedos acariciando
A face morna do tempo

Meu amor-menino
Vem sempre visitar meus sonhos
Somos tão jovens e belos!
Mas ele nada sabe de sonhos,
Ele nada sabe de mim

Ele nada sabe de sua visita inesperada
Que me faz despertar
Em total abandono e abraçar
O amor que nunca tive.

domingo, 13 de março de 2022

RELÓGICO – Mantovani Colares

 

¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
(La Cogida y la Muerte. García Lorca)
........
Quando menino
Às três horas da tarde, me parecia que
O mundo inteiro estava feliz

Nessa hora, achava-me geralmente no
Quintal da casa da infância, a
Brincar na lavanderia, que me
Parecia um enorme oceano onde
Barcos singravam sem rumo ou destino

Sempre às três horas da tarde
Eu sentia ali a própria felicidade, e o
Engraçado é que sequer portava relógio

Porque nesse tempo o adorno de pulso
Era privilégio dos já crescidos

Sabia eu, porém, a exata hora, eis que
O sol me anunciava a mediação
Entre o início e o fim do entardecer - era
U’a sensação única aquele calor nas
Costas a não incomodar; um afago de
Saudação do astro-rei

Três horas da tarde, dizia então sorrindo

E porque eu me encontrava invariavelmente
Feliz, achava por bem que assim todo
O mundo se pensava naquele instante

É que, para mim, o relógio marcava a
Felicidade, a chegar sempre às três horas
Da tarde. Era lógico, tão lógico que
Nem duvidava da óbvia certeza

Só muito tempo depois, quando
Três horas da tarde passou a ser mero
Referencial de pesarosos compromissos
No enfadonho mundo dos adultos,
Descobri que a felicidade não é
Transportada por relógios

Senão o medidor de felicidade seria um
Relógico, onde os ponteiros só marcariam,
Invariavelmente, três horas da tarde.