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sexta-feira, 20 de maio de 2022

POEMAS de António Vilhena

BELEZA

Não sabia que existias…Só se ama o que se conhece!
Quem espera traz uma esperança antiga,
uma praça em festa de solidão oculta.
Às vezes, é preciso que as velas ardam até ao fim.
Depois, vem a madrugada e o chocalhar dos rebanhos,
os trilhos, o incenso, a voz e o horizonte iniciático.
A beleza nos sentidos é um rio de fogo,
atravessa-nos como a paixão imperativa,
véu intemporal de um amor para sempre.
.......
CLAUSTRO

Quando ficava só
todas as palavras sucumbiam à mudez
as sombras, quase monásticas, atravessavam os claustros
as tuas mãos resgatavam as conversas inacabadas.

Por detrás das colunas ancestrais
o sol desenhava o teu rosto no rendilhado da pedra.

Era de filigrana a paciência
o tempo era um véu de linho.
.......
CUIDAR DE TI

Cuidar de ti é trazer a Primavera cativa
os aromas do amor num aquário azul
peixes e beijos desenhados na boca.
Cuidar de ti é acordar corpo a corpo
eternidade dos instantes sem pressa
num mar de desejos em pleno fogo.
Cuidar de ti é ser tudo quanto somos
guardar o antes e o depois na melodia
de um verso que viva dentro de nós.
Cuidar de ti é dar-te sem que me peças
nunca é muito se nos damos ao outro
e ao sonho nesse mar a que regressas.
.......
DEMORA

Desce a tarde onde a noite espera depois do sol.
Quem demora e não sabe a pressa do amor agora
chega depois, chega tarde, às dobras do lençol
como se chegasse cedo com pressa de ir embora.
.......
DOR

Quando o nosso amor está doente
as estrelas parecem ainda mais distantes
há uma dor indizível sob a pele mesmo se não dizemos nada.
Sei do que falas quando falas dessa dor
que nos acorda ao nascer do dia
e se entranha quando as aves nocturnas saem para a caçada.
A dor mais funda é onde a liberdade atravessa o olhar
como um rio levada na corrente inadiável
de um amor inteiro sem lágrimas.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

QUATRO POEMAS de Jeanine Will

 

ABAJUR

a nave da noite pousa na terra
vermelhos queimam velozes
os olhos da cidade devoram arrazoados

deixa tua máscara de lado
mergulha no azul deste quarto
queima teus lábios na ponta dos meus dedos
arranha tuas mãos nas minhas palavras
deita teu ouvido sobre este sussurro
pisa de leve na pista
abre teu zíper até a angustura
dança de costas pro abismo

as sombras são apenas sóis introspectivos
...................
DESEJO NOIR

vai-se o dia retocando a escultura da tarde

entre a cortina de fumaça que ondula
ao sabor das (res)pirações
e olhares que se cruzam

nossas bocas são barcos ainda ancorados
às margens de nossas palpitações
.........................
CONTINUAÇÃO DA NOITE SEM VOCÊ

num curto espaço
nos encontramos
ao longo do vento
nos adivinhamos
em sílabas ainda
o mundo soletrado
com calma e cuidado

mas a haste do tempo entorta
e nos percebemos frágeis
seres de mãos duras demais
o mundo gira torto
em torno do meu pescoço
no meu corpo, no seu corpo: arestas
e agora esse silêncio que não presta
....................
DESARRUMAÇÕES DO DIA

o que nos prende
o que de nós pende
o que dá sentido
aos olhos grudados no teto
aos objetos perdidos
às horas quebradas
aos intervalos sem palavras
mas cheios de afeto?

quarta-feira, 30 de março de 2022

SILÊNCIO – Edith Derdik

 

algumas outras palavras
vem do choque
sentenciam uma onda sem água
esfarelada no ar
onda bate em algo de nada em nada
tão fácil não tão fácil
um silêncio

nuvem carrega saturno
chuva chove
olho cimentado de suor
nuvem carregada de chuva
nem vento dissipa silêncio assim
um silêncio

pedra opaca sem lugar definido
pedra comove uma espécie de dentro
pedra muda nem sai do ponto
elegância discreta aparece
parece vulto
vem por trás e corrói e afirma
quando assim é assim
um silêncio

tempestade de ar e areia e água
de grão em grão, mil grãos chapiscam
na pele na sombra na sobra
dia horário lugar
estreiteza que alarga
líquido que não se contém
esparrama pelas bordas e margens em desvios
um silêncio

sol na sombra e a falésia cai
fim de dia meio de tarde
sol na altura da falésia
a penumbra assombra
traça na terra a graça de uma sombra
caixa preta a céu aberto
luz veloz no limite da lâmina solar
inventa falésia parada cortada em viés
contorno sombrio lúcido cravado nos grãos de areia
deserto-praia vira mar virá e verá
abafa som e timbra olho
sobra linha de horizonte em acordes
um silêncio

silêncio é acordo
o silêncio me acorda