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terça-feira, 31 de maio de 2022

OS CAMPOS IMAGINAM – Cissa de Oliveira

 

Como diz Herberto
“...os campos imaginam
as suas próprias rosas...”

É setembro por aqui e as flores
tilintam bem devagar as pestanas
antes de se incendiarem em cores vivas.

São fiéis os jornais locais e noticiam
junto com o fogo constante
do pregão da bolsa de valores,
as fotografias da cidade:
numa, a explosão das violetas,
dos gerânios, das papoulas,
ou mesmo de um tapete de ipês dourados
- resto de inverno bordado na calçada,
noutra, o céu sob o contraste vinho
da uma tardinha
mansa como a brincadeira da brisa
no balanço do vestido.

Eu viro a página, é preciso,
mas vou me perguntando se toda a gente
prende a vista nas fotografias
assim como nos noticiários.

Não sei porque eu penso nisso,
e é tão nítido quanto o mercúrio
das luzes incandescentes das cidades,
ou quanto a tua risada,
esse incêndio de cristal que sempre se noticia
na minha alma.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

POEMAS de António Vilhena

BELEZA

Não sabia que existias…Só se ama o que se conhece!
Quem espera traz uma esperança antiga,
uma praça em festa de solidão oculta.
Às vezes, é preciso que as velas ardam até ao fim.
Depois, vem a madrugada e o chocalhar dos rebanhos,
os trilhos, o incenso, a voz e o horizonte iniciático.
A beleza nos sentidos é um rio de fogo,
atravessa-nos como a paixão imperativa,
véu intemporal de um amor para sempre.
.......
CLAUSTRO

Quando ficava só
todas as palavras sucumbiam à mudez
as sombras, quase monásticas, atravessavam os claustros
as tuas mãos resgatavam as conversas inacabadas.

Por detrás das colunas ancestrais
o sol desenhava o teu rosto no rendilhado da pedra.

Era de filigrana a paciência
o tempo era um véu de linho.
.......
CUIDAR DE TI

Cuidar de ti é trazer a Primavera cativa
os aromas do amor num aquário azul
peixes e beijos desenhados na boca.
Cuidar de ti é acordar corpo a corpo
eternidade dos instantes sem pressa
num mar de desejos em pleno fogo.
Cuidar de ti é ser tudo quanto somos
guardar o antes e o depois na melodia
de um verso que viva dentro de nós.
Cuidar de ti é dar-te sem que me peças
nunca é muito se nos damos ao outro
e ao sonho nesse mar a que regressas.
.......
DEMORA

Desce a tarde onde a noite espera depois do sol.
Quem demora e não sabe a pressa do amor agora
chega depois, chega tarde, às dobras do lençol
como se chegasse cedo com pressa de ir embora.
.......
DOR

Quando o nosso amor está doente
as estrelas parecem ainda mais distantes
há uma dor indizível sob a pele mesmo se não dizemos nada.
Sei do que falas quando falas dessa dor
que nos acorda ao nascer do dia
e se entranha quando as aves nocturnas saem para a caçada.
A dor mais funda é onde a liberdade atravessa o olhar
como um rio levada na corrente inadiável
de um amor inteiro sem lágrimas.

sábado, 14 de maio de 2022

O CASO DA VIRGEM POSSUÍDA – Larissa Lins

 

mas o que é que está em jogo aqui afinal de contas?
espero no mínimo respeito
não fiz nada para estar aqui
como vim parar aqui neste banco de réus?
com orgulho bato no peito
brado
minha reputação é ilibada
e ainda que não fosse
audiências
provas
papéis
cupins
todos vocês
algozes

e eu aqui sozinha
e eu aqui a histérica
e eu aqui acuso

num lapso freudiano foi você quem deslizou
quem confessa
a mais torpe vilania
e se alimenta da ruína dos outros
você
todos vocês
algozes cupins

para acabar de vez com cupins
invoco rituais antigos
sacrificiais

escolham imediatamente
dentre homens jovens e de meia-idade
20 e tantos anos e quarentões
escolham dentre aqueles que ali estão
no topo da pirâmide social
4 canalhas brancos dentre os cristãos

empalem-nos vivos à luz do sol do meio-dia
na linha do equador
verter o sangue dos 4 canalhas no
sangue necrosado de outras virgens silenciadas

derramar sangue de homem em expiação
para alimentar a terra
é a moeda que temos
o corpo e o sangue
ou vocês acham mesmo que cristo morreu em vão?

só assim então
forma-se um lastro uma luz
que se alastra incandesce e incendeia
uma grande fogueira
em torno do coração

para acabar de vez com cupins
o fogo