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quinta-feira, 26 de maio de 2022

CARA METADE – Wilton Azevedo

 

Recorte
Teu rosto pela metade
Talvez se estranhe
Tanto quanto eu mesmo
Me estranhei
Por não
Achar bondade alguma em você
Nem um pavio de constrangimento
Que manteve
A pólvora acesa
Sem que confundisse em bondade...

Será mera coincidência
Ou pior,
Formalidade.

O tempo
Este não se encarrega de nada.

O protagonista
Somos nós
E é isso que dói.

Não são as palavras
Que esquecemos,

Os amores perdoados,

As paixões ainda
Em entranhas,

O perfume incrustado,

A voz que vem de outro cômodo
Chamando para aquela perna
Que sobra debaixo dos lençóis,

Somos nós mesmos
Tão humano e precário
Quanto nosso próprio imaginário
Tocando o céu da boca do outro
Com dedos curtos
Das horas vagas
Sem perdão...
Sem nada.

NADA

terça-feira, 24 de maio de 2022

TRÊS POEMAS de Nestor Lampros

 

SURPRESA

surpresa
diagramada
em viver ou morrer
um detalhe

no cimo
do monte
a sempre
pomba avante
escape

da paz
que se ensina
para o soldado
em que se abomina

a arma
talvez adiante

diagramada
sombra

na olheira do coveiro
uma cor
que entendo

uma coisa intérmina
ociosa em diáspora

espero
.......
NOITE SEM SONO

Pleno dados no teclado, vidas de informe.
O sono foi-se embora para Guantánamo,
depois envio um e-mail para configurar
dois dedos de prosa e sem a voz de novo

Para se desfazer dos dúctilos do movimento.
Clico duas vezes com o lado direito do mouse,
para deformar as imagens no photoshop
e cinco vidas no site, na internet, se mentem.

Nem concluo o fato de ser do meu poema,
na fossa larga dos coreldraw inside one
se tornando loquazes no infortúnio word

de cair a força sem estarem salvos
os meus arquivos tão monótonos,
de noites insones no chat da minha rede.
.......
VENTO

O vento adentra a janela
aberta para que o vento entre,
para que tudo em movimento
em movimento fique,
até ser chegada a sua hora,
tempo de não haver mais janelas
e o vento estático se petrifique.

sexta-feira, 20 de maio de 2022

POEMAS de António Vilhena

BELEZA

Não sabia que existias…Só se ama o que se conhece!
Quem espera traz uma esperança antiga,
uma praça em festa de solidão oculta.
Às vezes, é preciso que as velas ardam até ao fim.
Depois, vem a madrugada e o chocalhar dos rebanhos,
os trilhos, o incenso, a voz e o horizonte iniciático.
A beleza nos sentidos é um rio de fogo,
atravessa-nos como a paixão imperativa,
véu intemporal de um amor para sempre.
.......
CLAUSTRO

Quando ficava só
todas as palavras sucumbiam à mudez
as sombras, quase monásticas, atravessavam os claustros
as tuas mãos resgatavam as conversas inacabadas.

Por detrás das colunas ancestrais
o sol desenhava o teu rosto no rendilhado da pedra.

Era de filigrana a paciência
o tempo era um véu de linho.
.......
CUIDAR DE TI

Cuidar de ti é trazer a Primavera cativa
os aromas do amor num aquário azul
peixes e beijos desenhados na boca.
Cuidar de ti é acordar corpo a corpo
eternidade dos instantes sem pressa
num mar de desejos em pleno fogo.
Cuidar de ti é ser tudo quanto somos
guardar o antes e o depois na melodia
de um verso que viva dentro de nós.
Cuidar de ti é dar-te sem que me peças
nunca é muito se nos damos ao outro
e ao sonho nesse mar a que regressas.
.......
DEMORA

Desce a tarde onde a noite espera depois do sol.
Quem demora e não sabe a pressa do amor agora
chega depois, chega tarde, às dobras do lençol
como se chegasse cedo com pressa de ir embora.
.......
DOR

Quando o nosso amor está doente
as estrelas parecem ainda mais distantes
há uma dor indizível sob a pele mesmo se não dizemos nada.
Sei do que falas quando falas dessa dor
que nos acorda ao nascer do dia
e se entranha quando as aves nocturnas saem para a caçada.
A dor mais funda é onde a liberdade atravessa o olhar
como um rio levada na corrente inadiável
de um amor inteiro sem lágrimas.