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terça-feira, 24 de maio de 2022

TRÊS POEMAS de Nestor Lampros

 

SURPRESA

surpresa
diagramada
em viver ou morrer
um detalhe

no cimo
do monte
a sempre
pomba avante
escape

da paz
que se ensina
para o soldado
em que se abomina

a arma
talvez adiante

diagramada
sombra

na olheira do coveiro
uma cor
que entendo

uma coisa intérmina
ociosa em diáspora

espero
.......
NOITE SEM SONO

Pleno dados no teclado, vidas de informe.
O sono foi-se embora para Guantánamo,
depois envio um e-mail para configurar
dois dedos de prosa e sem a voz de novo

Para se desfazer dos dúctilos do movimento.
Clico duas vezes com o lado direito do mouse,
para deformar as imagens no photoshop
e cinco vidas no site, na internet, se mentem.

Nem concluo o fato de ser do meu poema,
na fossa larga dos coreldraw inside one
se tornando loquazes no infortúnio word

de cair a força sem estarem salvos
os meus arquivos tão monótonos,
de noites insones no chat da minha rede.
.......
VENTO

O vento adentra a janela
aberta para que o vento entre,
para que tudo em movimento
em movimento fique,
até ser chegada a sua hora,
tempo de não haver mais janelas
e o vento estático se petrifique.

sexta-feira, 25 de março de 2022

DOIS POEMAS de Cláudio Portella

 

CABAÇO
a Hilda Hilts
.....
Quando digo olhar
nunca, jamais
penso em
o-l-h-o
Olho para o meu
transformou-se em vidro
cartão telefônico com uma fina camada de plástico

Quando digo mulher
todo o meu saber fazer
fora preparar um peixe e exagerar no sal
Mulher para os devaneios
é um intervalo entre um poema feminino de Vinicius
e um dia de ressaca

Quando digo vou embora
jamais, nunca
pretendi dizer adeus
Adeus para mim é uma oferenda ao criador
é estilhaçar com um tiro na boca
a pedrinha de cânfora debaixo da língua
........................
LIVRO ATA: OCORRÊNCIA DE OITO DE MARÇO

quando senti o banho de cerveja na pele
o descontrole de uma mulher a atirar
a cerveja do copo em meu corpo
vi retroceder o filme
há quatro anos dei, vejam bem, por duas vezes
um banho de cerveja gelada na mulher amada
hoje, como se o destino estivesse previsto por Nostradamus,
oito de março, dia internacional da mulher
uma mulher descontrolada, como eu há quatro anos
encarna a mulher amada de outrora
e em nome, não só dela, mas de todas as outras
que um dia foram agredidas com um copo
de cerveja na cara
banha meu corpo e lava minha alma

domingo, 20 de fevereiro de 2022

ASSIM É O MEDO – Henriqueta Lisboa

 

Assim é o medo:
Cinza
Verde.
Olhos de lince.
Voz sem timbre
Torvo e morno
Melindre.

Da sombra espreita
à espera de algo

que o alente.
Não age: tenta
porém recua
a qualquer bulha.

No campo assiste
junto ao títere
à cruz que esparze
vivo gazeio
de nervosismo
com vidro moído
grácil granizo
de pássaros.

E que rascante
violino brusco
não arrepia
ao longo o azul
dos meus veludos
se, a noite em meio
cá no fundo
quarto escuro,
a lua arrisca
numa oblíqua
o olhar morteiro.

Dentro da jaula
(mundo inapto)
do domador
em fúria à fera
subsinuosa-
mente resvala.

Aos frios reptos
do ziguezague
em choque, súbito
relampagueio,

as duas forças
se opõem dúbias
se atraem foscas
para a luta
pelo avesso:
despiste e fuga
ouro e vermelho
desde a entranha.

As duas forças
antagônicas:
qual delas ganha
acaso
ou perde
o medo
frente a
frente ao
medo?