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quinta-feira, 26 de maio de 2022

CARA METADE – Wilton Azevedo

 

Recorte
Teu rosto pela metade
Talvez se estranhe
Tanto quanto eu mesmo
Me estranhei
Por não
Achar bondade alguma em você
Nem um pavio de constrangimento
Que manteve
A pólvora acesa
Sem que confundisse em bondade...

Será mera coincidência
Ou pior,
Formalidade.

O tempo
Este não se encarrega de nada.

O protagonista
Somos nós
E é isso que dói.

Não são as palavras
Que esquecemos,

Os amores perdoados,

As paixões ainda
Em entranhas,

O perfume incrustado,

A voz que vem de outro cômodo
Chamando para aquela perna
Que sobra debaixo dos lençóis,

Somos nós mesmos
Tão humano e precário
Quanto nosso próprio imaginário
Tocando o céu da boca do outro
Com dedos curtos
Das horas vagas
Sem perdão...
Sem nada.

NADA

quinta-feira, 3 de março de 2022

POEMAS de Camila Vardarac

 

BONDADE DOS ANJOS

eu não acredito na bondade dos anjos
todos parecem bebês de rosemary
o colorido dos vitrais não ameniza
a melancolia assustadora estampada
em seus semblantes

no centro da casa
sagrada
o homem abre o livro
sagrado
e recita para si palavras pesadas
como o som de mil crucifixos
arremessados ao chão

e eu penso nos pecados mais bizarros
que rondam o confessionário de vozes alteradas
depois aliviadas,
por depositarem nos ombros do representante do pai
a culpa dos seus atos impensados
ou dolorosamente calculados

penso nos joelhos esfolados
por baixo das calças puídas dos fiéis fervorosos
que não sentem o gosto de ferro na boca
nem o gosto do sangue no cálice

e os sinos badalam doze vezes pausadas
ensurdecendo meus sonhos sacros
fazendo-me abrir todas as noites os olhos
quando deveriam estar fechados.
............................
CASA AO LADO

na casa ao lado
espíritos inquietos sobem e descem escadas
como se o melhor a fazer fosse
subir e descer escadas

são 3:47
o sono das 3:00 já foi perdido
agora no ponto dos conscientes
espero a dormência dos sentidos

calem esses passos
como calaram as almas dentro da casa escura
amarrem esses pés
como fizeram com as vozes na gaiola da mordaça
tirem seus valiuns das gavetas
e entrem nas sombras dos cobertores

morfeu, acuda esta gente!
dardos com soníferos no centro das testas
areia movediça ao redor das camas
e uma injeção de sonhos mudos na espiral dos meus ouvidos.