Mostrando postagens com marcador mundo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mundo. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de julho de 2022

RELÓGICO – Mantovanni Colares

 

“¡Ay qué terribles cinco de la tarde! / ¡Eran las cinco en todos los relojes!”
(La Cogida y la Muerte. García Lorca)

Quando menino
Às três horas da tarde, me parecia que
O mundo inteiro estava feliz

Nessa hora, achava-me geralmente no
Quintal da casa da infância, a
Brincar na lavanderia, que me
Parecia um enorme oceano onde
Barcos singravam sem rumo ou destino

Sempre às três horas da tarde
Eu sentia ali a própria felicidade, e o
Engraçado é que sequer portava relógio

Porque nesse tempo o adorno de pulso
Era privilégio dos já crescidos

Sabia eu, porém, a exata hora, eis que
O sol me anunciava a mediação
Entre o início e o fim do entardecer - era
U’a sensação única aquele calor nas
Costas a não incomodar; um afago de
Saudação do astro-rei

Três horas da tarde, dizia então sorrindo

E porque eu me encontrava invariavelmente
Feliz, achava por bem que assim todo
O mundo se pensava naquele instante

É que, para mim, o relógio marcava a
Felicidade, a chegar sempre às três horas
Da tarde. Era lógico, tão lógico que
Nem duvidava da óbvia certeza

Só muito tempo depois, quando
Três horas da tarde passou a ser mero
Referencial de pesarosos compromissos
No enfadonho mundo dos adultos,
Descobri que a felicidade não é
Transportada por relógios

Senão o medidor de felicidade seria um
Relógico, onde os ponteiros só marcariam,
Invariavelmente, três horas da tarde.

domingo, 29 de maio de 2022

CORDEL DE FACAS – Sávyo Fernandes

 

Ô, terra
desértica, esquálida, quem vê não vê
Carregam dos rios a água pra beber
De sede morre o gado, sem ter pasto pra comer
De gente escorre a peste, essa pobreza de sofrer
Ô povo condenado, com poder mas sem saber

Corre os vales, danado
Vendaval cortina de causos
E de rasteiros são os gritos dos autos
desse mito surtido e lascado

Queima as cordas de nylon, espreguiça
Seu chapéu de pastor tão surrado
Nos mercados de Meca nortista
Encontrar teu clamor tão sonhado

Com uma rosa colhida na serra
Ponteando a boca cerrada
Veste o terno de listra serrana
Violeiro de vista encerrada

Cega o mundo na tua parábola
De cigarras e mamulengos
Chega até os contos primeiros
Dos reis daquela enseada

Faz do riso à risca faga
Das serestas sob o sereno
Fez do rico um pobre de graça
Nas cantadas com o palo seco

Carrega em outras violas
A missão profetizada
Destes loucos arautos de estórias
Batizados na beira da estrada

São tão velhos quanto o mundo
Santos mestres do perigo
Trazem à língua uma jornada
Em cada fala, um desafio

Lembram espadas e cavalos
Dos tempos do feito antigo
Donzelas, castelo e magos
Verdades de cunho ríspido

No encontro de suas cordas
Travam um conflito proibido
Desafiam o próprio homem
Do diabo ao Altíssimo

Da peleja consagrada
Nos altares do tranquilo
Servos de tanta coragem
Das palavras que te digo

Contam versos dessa vida
Como se prepara a fava
Cortam velha falha rica
Das torturas dessa fala

E o corte tão profundo
Corta a pele tão pregada
Sorte a do cortador
Cortejo numa lapada

Segue lenda das cacimbas
Dessas onde o povo mata
Feito bodes na baixada
Dois colegas de infância
Brigavam por coisa de cabra
Pra ver quem dançava melhor
Com a mocinha de saia rodada
No forró das dez e meia
Junto dos dono da farra

Começaram a se estranhar
Como o velho vê as rusgas
Partiram pra vias de fato
Sem cerimônia pra luta
O mais velho pegou ar
Mão na cinta, expressão bruta
Começou a ameaçar
Apontando a causa última:

“- Meu bichin, olhe pra ponta
E a lâmina talvez não tarda
Entrará na tua carne
Nem terá tempo pra nada
Quando o sangue escorrer
Pode preparar a mortalha
Um chá pra visita de fora
Caixão e vela chorosa
Velório e tristeza em casa”

No entanto, respondeu
O caçula aperreado
“- Irmão meu não tem desculpa
Pra apanhar feito um imundo
Puxa arma nessa altura
Porque nem se garante no murro
Largue essa covardia, deixe de tanto dilema
Venha pra cima de mim, pra mim lhe quebrar suas venta.”

Quem sofreu, deixou saudade
Quem souber, em carta marcada
Pularam perante a pressa
A peleja de uma ciranda traçada

Cantador de ouro e piada
Ouviu nas suas andanças
Conheceu senhor satisfeito e também viu as carrancas
Versejou o grã-sertão, em cada parte da sua malha

Pelejou em tantas praças
Guardou a fé nas festas suas
Herói de viola guardada
A capa nas dobraduras
Menestrel das semeaduras
Horário de volta aguardada
Soltou farpas nas caras duras
Cortadas em Cordel de Facas.

domingo, 22 de maio de 2022

DIA DO JULGAMENTO – Gabriel Nascente

(Para Nilo Benetti, companheiro)
.......
Eu não vim para molestar o sentimento
daqueles que perderam o caminho das lágrimas.
Nem tampouco para ulcerar a dignidade sacra
do pão sobre a mesa. Eu vim, amigo, para falar
desta ferramenta fundamental que é a vida,
destes olhos naufragados na rebelião de um pranto,
da tristeza sem fim de minha mãe
que toma remédio de hora em hora,
do cansaço comprido de seus olhos
pedindo sossego pro mundo -
sobretudo, amigo, para falar
do regresso imponderável de todas as manhãs
da estrela magnífica que clareia
como espuma
nos olhos da lavadeira,
daqueles que trabalham com os mortos
e sabem de cor a numeração das lágrimas,
dos que constroem apartamentos
e dormem em camas de zinco,
dos que tiram fotografias
ao lado dos políticos,
da poesia, sobretudo da poesia,
que é mais forte que um boi
na canga de seu ofício,
da poesia
que é mais vulgar
que um beijo no prostíbulo
da poesia
que cancela o desespero
que maltrata o sofrimento
que proclama a paz
da poesia
que navega em nosso corpo
como um grito numa mansão deserta
da poesia
que é mais bela
que um trem na mata
da poesia
que é mais bela
que um cantil cheio d'água
da poesia
sobretudo da poesia,
que é como a presença de um rio
entrando pela noite dos escombros,
- ave muito clara, ternura,
deixa-me morrer
entre as estrelas.