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domingo, 22 de maio de 2022

DIA DO JULGAMENTO – Gabriel Nascente

(Para Nilo Benetti, companheiro)
.......
Eu não vim para molestar o sentimento
daqueles que perderam o caminho das lágrimas.
Nem tampouco para ulcerar a dignidade sacra
do pão sobre a mesa. Eu vim, amigo, para falar
desta ferramenta fundamental que é a vida,
destes olhos naufragados na rebelião de um pranto,
da tristeza sem fim de minha mãe
que toma remédio de hora em hora,
do cansaço comprido de seus olhos
pedindo sossego pro mundo -
sobretudo, amigo, para falar
do regresso imponderável de todas as manhãs
da estrela magnífica que clareia
como espuma
nos olhos da lavadeira,
daqueles que trabalham com os mortos
e sabem de cor a numeração das lágrimas,
dos que constroem apartamentos
e dormem em camas de zinco,
dos que tiram fotografias
ao lado dos políticos,
da poesia, sobretudo da poesia,
que é mais forte que um boi
na canga de seu ofício,
da poesia
que é mais vulgar
que um beijo no prostíbulo
da poesia
que cancela o desespero
que maltrata o sofrimento
que proclama a paz
da poesia
que navega em nosso corpo
como um grito numa mansão deserta
da poesia
que é mais bela
que um trem na mata
da poesia
que é mais bela
que um cantil cheio d'água
da poesia
sobretudo da poesia,
que é como a presença de um rio
entrando pela noite dos escombros,
- ave muito clara, ternura,
deixa-me morrer
entre as estrelas.

domingo, 17 de abril de 2022

ÀS DUAS DA MANHÃ - Iatamyra Rocha

 

Às duas da manhã
ave suspensa
noite vã
o gato mia a utopia
de ter sete vidas
e nenhum zelo enquanto outros dormem
duvida até do próprio salto
uniforme a porta trancada
às duas da manhã
o gato mia
não há de ser nada
sua cantiga desesperada
sobe na cama
entrelaça o lençol
até a altura do nariz
as duas da manhã
não há de ser nada
o gato riscando a madrugada
com giz de sol
o miado vem mais alto
estridente
já são três da manhã
e o gato mia indiferente à lua
relógio inverso
o sono vai em pedaços
lençol indigesto
cobre e mumifica
o gesto de espanto
três da manhã
o gato mia
e não é santo
arranha a porta do quarto
joga sapatos pro alto
morde e puxa o pé
a fé das coisas persiste
cobrindo as orelhas
pelo eriçado
feito o gato
safado
são quatro da manhã
passou um furacão no quarto
o gato mia alto
quase um orgasmo de fato
calço os sapatos de raiva
o gato me fez assim
miado insistente
o gato cheira a jasmim
enquanto uso
saco plástico e detergente
descrente com o que o quarto virou
aterra toda fedentina
chega de miado
olho pro lado
o gato eriçado
corre pra janela
abro a porta
ele saí apressado
olhar de quem diz
quase consegui
volto pra cama
não há mais miado
quatro e meia da manhã
pássaro canta
galo bate asas
quase cinco
é claro em toda casa
nada do gato
agora desvirginando o jardim
colhendo seus orvalhos
olhos desconfiados de mim
o gato julga até de longe
eu aqui fazendo esse poema
tentando dormir
enquanto o cão pede pra sair
são cinco horas
cinco horas
cinco horas...