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quarta-feira, 25 de maio de 2022

VELEIRO ARPOADOR – Cyda Zola

 

Meu corpo
se entrega
ao mar
neste instante
derradeiro
sou eu o veleiro
e o arpoador
no fundo do mar
meu instante de poesia

Sou onda
porção de água
que se eleva
sóbria e forte
sensual e livre
sendo somente onda
fica em mim
o veleiro que passa
friso dentro do mar
vela do meu destino

Faz hora que você se foi
meu corpo exala
cheiro de mar
faz hora que você se foi
meu corpo tem
a forma de mar
infinito horizonte
nas marcas que teu corpo
verticalmente
deixou na minha cama

Quero o poema
se traduzindo
em desejo intenso
boca e silêncio
sussurro e beijo
embriagado de azul

Um poema
é a única
eternidade
possível
de um amor

Estás tão distante
e ainda assim
derramas teu corpo
sobre o meu
e te esqueces de partir

quinta-feira, 19 de maio de 2022

CINCO MIL FORMAS – Leda Cartum

Há cinco mil formas de se apaixonar
antes eu achava que eram duas
ou três.

Desde que acordo e abro a janela
como o primeiro afazer da manhã
me apaixono pelos dias
e noites na minha cama
quando as pessoas se tornam imagens
fantasmas, lembranças no escuro
depois que enfim adormeço
passam a ser sonhos claros
desenhos que traço nas margens
pessoas que deixei para trás
que nunca deixaram meus dedos.

Também tem as tardes inteiras
que passo com quem conheci
e devagar me apaixono
pelos traços firmes do rosto
que se movem e definem
enquanto falamos:
somos amigos – às vezes repito
para mim mesma e perco
um pedaço da conversa –
como somos amigos
e admiro as formas que fazem
os lábios para dizer.

Depois minhas próprias mãos
os livros que não terminei
habitam a escrivaninha
como se fossem presenças
muito antigas, ancestrais
de vidas que já morreram
que voltam para chamar
atendo, respondo depressa
aceito o que me lembraram
abro um espaço no peito
e me apaixono também
por essas almas penadas
que pedem pouco, me ninam
assistem o que divago
os olhos absortos nas prateleiras.

Mais ainda do que isso
tem outra coisa maior
que não sei como explicar
interpela, interrompe
acompanha pelo avesso
desmancha tudo o que digo
filtra as horas, limpa a casa
organiza os travesseiros
é como um centro sem forma
no qual demoro, de que me perco
para depois, se distraio,
devolver o que eu tinha jogado
me ensinar numa pressa distante
que nada vem antes da hora –
uma voz diz em tom baixo
sussurra de longe no ouvido
escutamos ali dentro
de um clarão fundo e bem fraco
me apaixono sobretudo
por essas formas estranhas
que descobri nesses anos:
recônditos subterrâneos
calada quase não procuro
ignoro, desconheço
deve ser assim que se faz:
aprendo e depois esqueço.

domingo, 17 de abril de 2022

ÀS DUAS DA MANHÃ - Iatamyra Rocha

 

Às duas da manhã
ave suspensa
noite vã
o gato mia a utopia
de ter sete vidas
e nenhum zelo enquanto outros dormem
duvida até do próprio salto
uniforme a porta trancada
às duas da manhã
o gato mia
não há de ser nada
sua cantiga desesperada
sobe na cama
entrelaça o lençol
até a altura do nariz
as duas da manhã
não há de ser nada
o gato riscando a madrugada
com giz de sol
o miado vem mais alto
estridente
já são três da manhã
e o gato mia indiferente à lua
relógio inverso
o sono vai em pedaços
lençol indigesto
cobre e mumifica
o gesto de espanto
três da manhã
o gato mia
e não é santo
arranha a porta do quarto
joga sapatos pro alto
morde e puxa o pé
a fé das coisas persiste
cobrindo as orelhas
pelo eriçado
feito o gato
safado
são quatro da manhã
passou um furacão no quarto
o gato mia alto
quase um orgasmo de fato
calço os sapatos de raiva
o gato me fez assim
miado insistente
o gato cheira a jasmim
enquanto uso
saco plástico e detergente
descrente com o que o quarto virou
aterra toda fedentina
chega de miado
olho pro lado
o gato eriçado
corre pra janela
abro a porta
ele saí apressado
olhar de quem diz
quase consegui
volto pra cama
não há mais miado
quatro e meia da manhã
pássaro canta
galo bate asas
quase cinco
é claro em toda casa
nada do gato
agora desvirginando o jardim
colhendo seus orvalhos
olhos desconfiados de mim
o gato julga até de longe
eu aqui fazendo esse poema
tentando dormir
enquanto o cão pede pra sair
são cinco horas
cinco horas
cinco horas...