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quinta-feira, 19 de maio de 2022

CINCO MIL FORMAS – Leda Cartum

Há cinco mil formas de se apaixonar
antes eu achava que eram duas
ou três.

Desde que acordo e abro a janela
como o primeiro afazer da manhã
me apaixono pelos dias
e noites na minha cama
quando as pessoas se tornam imagens
fantasmas, lembranças no escuro
depois que enfim adormeço
passam a ser sonhos claros
desenhos que traço nas margens
pessoas que deixei para trás
que nunca deixaram meus dedos.

Também tem as tardes inteiras
que passo com quem conheci
e devagar me apaixono
pelos traços firmes do rosto
que se movem e definem
enquanto falamos:
somos amigos – às vezes repito
para mim mesma e perco
um pedaço da conversa –
como somos amigos
e admiro as formas que fazem
os lábios para dizer.

Depois minhas próprias mãos
os livros que não terminei
habitam a escrivaninha
como se fossem presenças
muito antigas, ancestrais
de vidas que já morreram
que voltam para chamar
atendo, respondo depressa
aceito o que me lembraram
abro um espaço no peito
e me apaixono também
por essas almas penadas
que pedem pouco, me ninam
assistem o que divago
os olhos absortos nas prateleiras.

Mais ainda do que isso
tem outra coisa maior
que não sei como explicar
interpela, interrompe
acompanha pelo avesso
desmancha tudo o que digo
filtra as horas, limpa a casa
organiza os travesseiros
é como um centro sem forma
no qual demoro, de que me perco
para depois, se distraio,
devolver o que eu tinha jogado
me ensinar numa pressa distante
que nada vem antes da hora –
uma voz diz em tom baixo
sussurra de longe no ouvido
escutamos ali dentro
de um clarão fundo e bem fraco
me apaixono sobretudo
por essas formas estranhas
que descobri nesses anos:
recônditos subterrâneos
calada quase não procuro
ignoro, desconheço
deve ser assim que se faz:
aprendo e depois esqueço.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

NO BOSQUE - Luís Murat

 

Entro no bosque... Fulvas, zarelhantes,
Redes de insetos movem o ar cheiroso:
Fecham e abrem os cálices brilhantes,
Junto de um lírio branco e voluptuoso,
Rosas sanguíneas, como a palma fina
De tua perfumosa mão, querida!
O amor palpita e fulge-me à retina,
E em glaucos copos bebo o sol e a vida.
Comparo então esta existência agreste
À nossa antiga e plácida existência.
Tu cheia d´essa emanação celeste,
Que é aurora — no céu, n´alma — inocência,
De folha em folha o meu olhar vagueia
Sob tendas de errantes melodias,
Como de vaga em vaga uma sereia
Acompanhada pela ardentias...
Trilos de aves sussurram no arvoredo,
Como um sorriso de mulher que sonha,
Ou como um beijo a estremecer de medo
Na tua boca, túmida e risonha.
Flavas ondas de aroma em torno ondeiam>>>
Lhamas de prata colmam o ar silente,
E entre pâmpanos murmúrios gorjeiam
Os gaturamos amorosamente.
Parece que à magnólias entreabertas
Vêm beijar um deus loiro, de arco e flecha;
Porque há um ruído subtil de asas incertas,
E uma abre o cálix e outra o cálix fecha.
“Tens o sol”, digo então ao bosque, rindo;
“Tens a relva”, onde guardas os teus beijos,
E uma nápea em cada folha, ouvindo
De tua orquestra os módulos arpejos:
Tens crepúsculos róridos e ardentes
Que vêm cantar às margens dos riachos:
Caçadoras de lábios sorridentes
Com estrelas na testa em vez de cachos.
Donas e cavaleiros sobre a alfombra
Bebem e cantam árias abraçados;
Dás-lhes um véu de perfumada sombra
E suntuosos leitos perfumados.
Porém se ela viesse fulgirias
Como um soberbo e esplêndido castelo:
Que fantástico aspecto não terias
Iluminado pelo seu cabelo!...

quinta-feira, 28 de abril de 2022

ESQUECIMENTO – Teixeira de Mello

 

Quando eu cair cansado da romagem,
Uma ave só não quebrará seus cantos;
Ninguém meu leito há de juncar de flores
Nem o pó de meus pés lavar com prantos.

Quando eu lançar dos ombros já dormentes
O roto manto dum viver sem glória,
Ninguém meu berço embalará chorando,
Quem do meu nome guardará memória?!

Por mim, que a vida atravessei cantando,
Por mim, que o mundo chamará de louco,
Ninguém um riso apagará dos lábios.
Dos lábios, onde a dor dura tão pouco!

Eu fui na terra o eco do abandono!
Fui astro errante e de emprestado brilho!
Não descobri nos ermos da romagem
Um marco, um só! Que me ensinasse o trilho!

Cantei; mas foi meu canto o som convulso
Do regougo do mar nas tempestades!
Sonhei como Gonzaga, amei como ele,
E deixo a vida sem deixar saudades.

Folha de um ramo desgrenhado à tarde
- Despregada no inverno e solta ao vento -
Fui tanta vez também rolar por ermos,
Seguindo sempre o mesmo pensamento.

Amei a infância na mulher que amara,
De olhar de fogo e coração de gelo.
Dormi com crenças, acordei descrido;
Prendi a vida a um longo pesadelo.

Passei na terra - como à flor dos mares
Num céu de bronze um bando de andorinhas;
Elas gemem talvez, gemi como elas;
Mas ninguém escutou as queixas minhas.

Vaguei comigo só pela existência,
Fitos debalde os olhos no caminho,
Sem uns laivos de amor e de verdade
Nem ninguém, meu Deus! sempre sozinho.

Quero agora em frouxel, à beira d´água,
Onde o canto do mar me embale a medo,
Descansar da romagem no deserto,
Como um riacho à sombra do arvoredo.

Não tem dobre o finado em leito estranho
Nem letreiro nem cruz nem pedra - Embora!
Por ínvia solidão, sem musgo, à sombra,
Posso, como vivi, dormir agora!

Que noite vou passar - amadornado
No seio imenso e nu da eternidade!!
Talvez lá venha iluminar-me os sonhos
Uma réstia de luz e de verdade!

A dois passos de mim lá corre a louca
Ao mar da eternidade em que se lança!
Rio de lodo, quis sondar-te em seios
Que há de em pouco esconder minha lembrança.

Magdalena gentil, eu te amo tanto!
Contigo sonho em noites de abandono,
Contigo acordo e nutro-me de insônias,
Até que em teu regaço eu tenho sono!

Em que lençol vais embrulhar meus ossos,
Quando eu mudar de pó e isolamento!
Dura verdade que aprendi comigo: -
Pesa mais que a mortalha - o esquecimento!