Mostrando postagens com marcador aurora. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador aurora. Mostrar todas as postagens

domingo, 8 de maio de 2022

POEMAS de José Pinto

 

CORRESPONDÊNCIA #1

Da espécie de pássaro que voa solitário ou
Do aguilhão do incomensurável ou
Do traçado circular da fragilidade concêntrica:
dariam bons versos e bons títulos de livros.
Mas isso não seria isso.
Pensa na tristeza ocular antes de uma partida.
Deixar não deixando.
Pensa que quem escreve possa estar a
considerar uma perda completa dos sentidos,
um liberdade última. Susto secreto e
desamor ou não saber amar.
Uma busca pela distância maior do que ar.
E a ponta da navalha a re-ti-rar crostas,
o fio infindo de sangue entre os dedos.
O sol que devia ter nascido hoje.
.......
UM CHÃO QUE SUSTENHA

Que voz vem no som das ondas
que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
mas que, se escutamos, cala,
por ter havido escutar.

Que no silêncio
as estrelas guiam até
à aurora enterrada até
raízes de um chão que
por abandonado ser
a si mesmo se refaz.
.......
EU ACREDITO NO HOMEM
ao João Branco e à Janaina Branco
....
Eu acredito no Homem.
Eu acredito na influência das constelações,
nas molas que seguram as pontas do
varal enlaçado na garganta a um instante de romper,
anciãs lendas africanas de espectros noturnos que
visitam a carne.
Arepas da saudade,
um homem dorme no passeio há horas,
alheio, feliz, garanto.

Há dias, porém, em que não me esforço o suficiente.
Dizem que o rei de Espanha decidiu que
a pronúncia castelhana seria mais cerrada. E que
havia apenas uma maneira de desenhar a
caligrafia no tempo dos nazis e que
esta era encantadora. Como simpáticas eram as
pessoas que começaram a guerra.
E não falo com o meu pai há mais de um mês.

Vibrações suaves, doces, preenchem o nada, ar.
O verniz na língua,
a orquestra chinesa que nos submete,
o cheiro a fritos a descer as paredes do quarto,
tiroteio distante, bairros para
nos proteger uns dos outros,
preservar o orgulho em não sabemos o quê,
ruas para dividir os nossos passos,
prédios para delimitar egos,
habitáculos para manter as mentes controláveis,
eu e tu e o mar entre os nossos quartos.

Cabelo, pele, unhas, pernas, dedos.
A pele domina a neblina privada,
origem do ódio.
Desafia-me a sonhar.

Chão, terra, discussões infernais, ponche para
lavar o quê, um filho por hipótese,
a vida já e até sempre, conforto.
Visões demoníacas, reformadoras. Reais como
a noite a aumentar o mistério.
Eu acredito nos braços do polvo:
longos abrigos mortíferos.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

NO BOSQUE - Luís Murat

 

Entro no bosque... Fulvas, zarelhantes,
Redes de insetos movem o ar cheiroso:
Fecham e abrem os cálices brilhantes,
Junto de um lírio branco e voluptuoso,
Rosas sanguíneas, como a palma fina
De tua perfumosa mão, querida!
O amor palpita e fulge-me à retina,
E em glaucos copos bebo o sol e a vida.
Comparo então esta existência agreste
À nossa antiga e plácida existência.
Tu cheia d´essa emanação celeste,
Que é aurora — no céu, n´alma — inocência,
De folha em folha o meu olhar vagueia
Sob tendas de errantes melodias,
Como de vaga em vaga uma sereia
Acompanhada pela ardentias...
Trilos de aves sussurram no arvoredo,
Como um sorriso de mulher que sonha,
Ou como um beijo a estremecer de medo
Na tua boca, túmida e risonha.
Flavas ondas de aroma em torno ondeiam>>>
Lhamas de prata colmam o ar silente,
E entre pâmpanos murmúrios gorjeiam
Os gaturamos amorosamente.
Parece que à magnólias entreabertas
Vêm beijar um deus loiro, de arco e flecha;
Porque há um ruído subtil de asas incertas,
E uma abre o cálix e outra o cálix fecha.
“Tens o sol”, digo então ao bosque, rindo;
“Tens a relva”, onde guardas os teus beijos,
E uma nápea em cada folha, ouvindo
De tua orquestra os módulos arpejos:
Tens crepúsculos róridos e ardentes
Que vêm cantar às margens dos riachos:
Caçadoras de lábios sorridentes
Com estrelas na testa em vez de cachos.
Donas e cavaleiros sobre a alfombra
Bebem e cantam árias abraçados;
Dás-lhes um véu de perfumada sombra
E suntuosos leitos perfumados.
Porém se ela viesse fulgirias
Como um soberbo e esplêndido castelo:
Que fantástico aspecto não terias
Iluminado pelo seu cabelo!...

terça-feira, 15 de março de 2022

MANHA(Ã) - Ilka Brunhilde Laurito

 

O recém-nascido
chora de madrugada
seu choro alto.
Também o dia
recém-saído
de seu parto
dói a vida
no grito
anunciador
dos galos.

E se entreouvem
(a criança e a alvorada)
e pois que participam
da mesma hora clara
de reinventar a luz
na carne do mundo
e das criaturas
repartem irmãmente
a voz dúplice
da
noite.

Mas feita a escolha,
cabe à criança o silêncio,
e o seu avesso
à manhã que vai nascer
inaugurando inda uma vez
a criação dos sons

e o secreto mudar
da sombra em sol.
Agora,
a criança
dorme:

- O dia
acorda.
E sobre
o sono mudo
do filho do homem
debruça
o véu da aurora
e a canção de ninar
da noite
morta.