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quarta-feira, 13 de julho de 2022

DOIS POEMAS de Nilto Maciel

DOR

Não tenho mal nenhum, senhora minha,
como se fosse puro, imaculado,
como se fosse um anjo, um serafim,
como se fosse deus, imune à dor.

Eu nada sinto, dor nenhuma tenho,
quer na cabeça, quer no amargo peito.
Não tenho mal nenhum, senhora minha,
perfeitamente são me sinto e puro.

Se existe mal em mim, se existe dor,
é a de morrer tão cedo, a pleno sol,
envelhecer como qualquer mortal.

E a dor maior, minha senhora bela,
é dentro d'alma, bem profunda e aguda,
a dor chamada angústia, a dor de ser. Possessão

Nada é meu,
nem a vida,
que é minha.
.......
SÍSIFO
Para Cátia Silva

O meu destino é semelhante àquele
imposto ao legendário rei coríntio,
que carregava ao ombro para o monte
pedra que despencava em avalancha.

Buscava novamente a rocha bruta,
subia o monte e, mal chegava ao cimo,
de suas mãos sangradas escapava
o mineral, que ao solo retornava.

E assim jamais o seu suplício ao fim
chegava, mesmo exausto, quase morto.

O meu suplício é semelhante ao dele
? a cada “não” que tu me dizes, subo
minha montanha, carregando pedras,
que se desprendem de meus ombros, rolam
ladeira abaixo, e volto a ti, pedinte.

E tu de novo dizes “não”, sorrindo.

Apanho minha rocha, subo o monte.
Se conseguir chegar ao cimo e lá
deitar a pedra, ao chão fincá?la, o “sim”
de ti terei; porém fui condenado
a carregar meu fardo vida afora
e vê-lo escorregar pelas escarpas.

E quando quase morto me encontrar,
sabendo, embora, que somente “não”
a mim dirás, ainda assim direi:
“Melhor este suplício, a ser feliz
longe dos olhos teus, vizinho à morte”.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

VELEIRO ARPOADOR – Cyda Zola

 

Meu corpo
se entrega
ao mar
neste instante
derradeiro
sou eu o veleiro
e o arpoador
no fundo do mar
meu instante de poesia

Sou onda
porção de água
que se eleva
sóbria e forte
sensual e livre
sendo somente onda
fica em mim
o veleiro que passa
friso dentro do mar
vela do meu destino

Faz hora que você se foi
meu corpo exala
cheiro de mar
faz hora que você se foi
meu corpo tem
a forma de mar
infinito horizonte
nas marcas que teu corpo
verticalmente
deixou na minha cama

Quero o poema
se traduzindo
em desejo intenso
boca e silêncio
sussurro e beijo
embriagado de azul

Um poema
é a única
eternidade
possível
de um amor

Estás tão distante
e ainda assim
derramas teu corpo
sobre o meu
e te esqueces de partir

domingo, 8 de maio de 2022

POEMAS de Mariana Artigas

 

DESVARIO

Noites em claro
Dias no escuro,
Antecedendo
As chuvas de março
As moiras
Tecem o destino sorrateiro.
De mansinho,
Imediato e forasteiro
O vento oscilando,
Ancoradouro de uma
Tempestade,
Pressente e adivinha
Através das linhas
Do meu corpo,
Que o sal
Dos meus olhos
A terra há de comer.
.......
INCORPÓREA

Incorpóreas somos espectros
Uma das outras,
Tomando lugar no corpo
De mulheres que mantinham
O olhar cabisbaixo,
Para fazer nascer mulheres
Que se recusarão a olhar para baixo.
O anjo do lar ousou seduzir
Envolto em aromas e beijos
Trazendo lampejos irreais.
E das nossas mães e avós
Carregávamos uma linhagem
De mulheres que apenas poderiam
Ter sido.
E como presságio do destino
O nome do pai de seus filhos
Não constava no registro,
Incorpórea vida invisível.
.......
VOZ ALTA

Em todos os movimentos
Em todos os silêncios
Vou buscando em teus cabelos
As respostas para as coisas
Que me acontecem
Enquanto vou tropeçando
Ao redor dos dias
Vou percebendo que planejo,
Planejo um mestrado.
E vivo assim alugando um apartamento
Sem perceber que alugo também
Afetos estrangeiros
Alugo os ratos e as baratas,
O som dos vizinhos e o tilintar das taças.
Alugo os territórios em volta,
E o cachorrinho da vizinha
Do apartamento oitenta e três.
E nada mais direi amor,
Sobre os beijos do vento quando tocam
Meu rosto, meio assim de lado.
E restam apenas percepções visuais
Em meio a ruas pandêmicas
De uma paisagem extinta, enquanto leio
Seu destino em voz alta.

terça-feira, 19 de abril de 2022

ALMA DE NAVEGANTE – Isvânia Marques da Silva

Navego, com destino aos meus sonhos
E por mares nunca antes navegados
Mas por mim sempre almejados
E só pela imaginação realizados.

Mergulho sob as ondas da saudade
Numa total esquiva da realidade
Deixando-me arrastar pela solidão
Até a beira do meu pobre cais.

Vagueio sobre o imenso oceano
Infinito em extensão e beleza
Vejo nele refletidos meus acanhados sentimentos
Flutuando na imaginação de meus versos
Imersos de mar.

Aí louvo a natureza que se apresenta
A meus atônitos e deslumbrados olhos
Prepotente em sua calmaria
E valente na rebeldia das ondas.

Acordo-me tocada pelo despertar
Do barulho do inefável mar
Entrego-me ao seu doce balanço
E à música que convida a amar...
Apenas o mar
A amar... o mar.