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sexta-feira, 3 de junho de 2022

AS MULHERES QUE QUERO – Lívio Oliveira

 

Não quero mulheres em preto-e-branco,
nem em cinza.
Quero mulheres a cores,
mulheres com o brilho
das manhãs de sol
de Tabatinga
ou de Honolulu.
Mulheres que deitam
e dormem, de repente,
não se doam,
doem-se,
doença do tédio.

Quero as mulheres verdes,
mulheres cor de rosa,
mulheres azuis,
como o céu do sertão
do Cauaçu.

Quero a mulher que vibra,
a mulher com tremores,
a mulher sem pudores,
a mulher que me crava os dentes,
aquela que parte suas unhas
nas minhas costas.

Quero a mulher vital,
a fatal também,
mas mulher de tentos
e de tetas suculentas.

Quero a mulher-mistério,
a mulher que ri,
mas que guarda sempre
um ar de interrogação
e um segredo de mim.

Não aceito as mulheres
que não seduzem,
mulheres sem glamour,
mulheres sem fantasias,
mulheres sem música,
sem poesia,
sem uma gula impudica
que contamine
de desejo
todo ser amante.

Quero as mulheres
que não sejam só cérebro,
mas coxas entreabertas,
seios em órbita,
lábios em rosa,
coração explodindo,
champagne que explode
sobre seu corpo
e o meu.

Quero mulheres,
urgentemente as quero,
aquelas que me ninem,
como no primeiro dia,
que afaguem os meus cabelos,
que me façam dormir,
que me deem o seu leite,
que me derramem seu vinho,
alimentando-me, loucamente,
de paixão.

Quero mulheres de sangue,
mulheres de luta,
mulheres que gritem
e façam irromper, no ar,
a força dos seus sonhos,
dos seus vícios,
desejos, todos.

Quero as mulheres
que amem as artes,
que odeiem o dinheiro,
mulheres supérfluas,
mulheres manhosas,
como gatas no cio.

Quero as mulheres
vivas,
loucas,
apaixonadas,
prontas para o escândalo
do amor.

Quero-as, todas,
desesperadamente.

domingo, 8 de maio de 2022

POEMAS de Mariana Artigas

 

DESVARIO

Noites em claro
Dias no escuro,
Antecedendo
As chuvas de março
As moiras
Tecem o destino sorrateiro.
De mansinho,
Imediato e forasteiro
O vento oscilando,
Ancoradouro de uma
Tempestade,
Pressente e adivinha
Através das linhas
Do meu corpo,
Que o sal
Dos meus olhos
A terra há de comer.
.......
INCORPÓREA

Incorpóreas somos espectros
Uma das outras,
Tomando lugar no corpo
De mulheres que mantinham
O olhar cabisbaixo,
Para fazer nascer mulheres
Que se recusarão a olhar para baixo.
O anjo do lar ousou seduzir
Envolto em aromas e beijos
Trazendo lampejos irreais.
E das nossas mães e avós
Carregávamos uma linhagem
De mulheres que apenas poderiam
Ter sido.
E como presságio do destino
O nome do pai de seus filhos
Não constava no registro,
Incorpórea vida invisível.
.......
VOZ ALTA

Em todos os movimentos
Em todos os silêncios
Vou buscando em teus cabelos
As respostas para as coisas
Que me acontecem
Enquanto vou tropeçando
Ao redor dos dias
Vou percebendo que planejo,
Planejo um mestrado.
E vivo assim alugando um apartamento
Sem perceber que alugo também
Afetos estrangeiros
Alugo os ratos e as baratas,
O som dos vizinhos e o tilintar das taças.
Alugo os territórios em volta,
E o cachorrinho da vizinha
Do apartamento oitenta e três.
E nada mais direi amor,
Sobre os beijos do vento quando tocam
Meu rosto, meio assim de lado.
E restam apenas percepções visuais
Em meio a ruas pandêmicas
De uma paisagem extinta, enquanto leio
Seu destino em voz alta.

sábado, 7 de maio de 2022

A PRIMEIRA MENSAGEM – Idelma Ribeiro de Faria

 

Transponho ilhas de vazio
e vou buscar-te em fragmentos,
pequenina.
Névoas circundam-te os cabelos,
névoas penetram-te na boca,
turbam-te os olhos.

Mas a cantiga é cristal líquido.
Nasce na sala,
transporte o inerte corredor
e eclode em vívida mensagem
na soleira.

Um vulto vago
- Mãe sereníssima -
se dualiza:
senta-se ao piano,
o filho ao colo.

Canta o menino.
E a melodia te trespassa
e fragmenta.
Vou encontrar-te na soleira
em braços, pernas, gesto e riso.
Entanto, plenos de presença,
olhos e ouvidos
estão na sala
irmanados ao canto.

Notas florescem em tênue fio,
unem-se à noite.

Vultos se movem, nebulosos,
mas voz filtrada
fixa o quadro
nitidamente:
- Um ano se canta!...

Dez são os irmãos em torno ao instante.
Dez, todos eles intocados,
leves, ingênuos,
pés levitando além do lastro
do inapelável e do obscuro.

Não percebem
no canto
o voo migratório
a emoldurar a infância débil,
a perseguir além da infância
o rosto branco e adolescente,
rosto translúcido,
pulverizado em febre e tosse,
rosto-sombra,
vagando insone,
rosto-paina,
aberto em círculos de silêncio.