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sábado, 7 de maio de 2022

A PRIMEIRA MENSAGEM – Idelma Ribeiro de Faria

 

Transponho ilhas de vazio
e vou buscar-te em fragmentos,
pequenina.
Névoas circundam-te os cabelos,
névoas penetram-te na boca,
turbam-te os olhos.

Mas a cantiga é cristal líquido.
Nasce na sala,
transporte o inerte corredor
e eclode em vívida mensagem
na soleira.

Um vulto vago
- Mãe sereníssima -
se dualiza:
senta-se ao piano,
o filho ao colo.

Canta o menino.
E a melodia te trespassa
e fragmenta.
Vou encontrar-te na soleira
em braços, pernas, gesto e riso.
Entanto, plenos de presença,
olhos e ouvidos
estão na sala
irmanados ao canto.

Notas florescem em tênue fio,
unem-se à noite.

Vultos se movem, nebulosos,
mas voz filtrada
fixa o quadro
nitidamente:
- Um ano se canta!...

Dez são os irmãos em torno ao instante.
Dez, todos eles intocados,
leves, ingênuos,
pés levitando além do lastro
do inapelável e do obscuro.

Não percebem
no canto
o voo migratório
a emoldurar a infância débil,
a perseguir além da infância
o rosto branco e adolescente,
rosto translúcido,
pulverizado em febre e tosse,
rosto-sombra,
vagando insone,
rosto-paina,
aberto em círculos de silêncio.

segunda-feira, 25 de abril de 2022

POEMAS DE Adriana Florio Cairo

 

O ANO SEM FIM

Tudo parece irreal,
Tamanha a realidade de tudo.
Rugas incrustaram nos rostos,
Agarraram-se a nossas almas.
Nós não cantamos parabéns,
Mas nunca nos sentimos tão velhos.

Fizeram-se cicatrizes nos peitos
E a dor nos tomou por morada.
Ausências se fizeram presentes;
O efêmero virou eterno.,
Pó e nunca mais.

O novo tornou-se velho;
O velho virou novo.
Existiu um réveillon
Mas o ano não acabou!
.....................
SONETO DA DESESPERANÇA

Esquecer-me eu deveria
E me esforço pra entender
Podia tudo, e o queria
Crescer, amar, transcender!

Seus sonhos eram tão lindos
E agora nada restou
Desespero vendo findos
Valores que dia prezou.

Meus olhos correm em torno
E um caminho só de ida
Vejo você percorrer.

Precisa haver um retorno
Que em toda história de via
É possível se fazer!
.................
OS OLHOS DE MEU FILHO

Quando vejo os olhos tristes de meu filho,
Vejo todos os meus erros, conhecidos e não.
Um vazio me rasga de cima a baixo.
Sinto a impotência de um amor sem fim,
E me desespero!
Os olhos de meu filho têm poder
De vida e morte, tortura e mansidão.
Às vezes, me elevam ao céu
Com uma ternura quente, profunda e visceral.
Às vezes, esfregam minha alma no chão.
Sobram fiapos de carne viva
Que não consigo remendar
E feneço.
Os olhos de meu filho têm poder
De céu e inferno, esperança e aflição.
Todos os dias, meus olhos se erguem aos céus
E rogo para serem
Apenas e mais nada
Os olhos felizes de meu filho que eu veja
No dia em que os meus anoitecerem!
....................
À FLORIBELA

Tua alma atormentada é também minha
Como meus são teus pecados
E todo o desespero, loucura e demência.
Grito contigo quando pede socorro
E me calo contigo quando sangra por dentro.
Sangramos.
Somos uma mesma alma intensa a ingerir comprimidos
Pra anestesiar a vida.
Também nunca fui a favorita
E essa sanha de entender o porquê
Nos fecha num mundo só nosso
Em que há saudade dos nadas vividos
E angústia pelos nadas que virão.
Tua alma pelo mundo atormentada
Sabe-se, por ele, também culpada
Pois erras ao viver tuas fantasias
E morres ao não fazê-lo.
Por fim, nos acostumamos a se sós,
A gente faz de conta que não dói
E toma mais um comprimido.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

HEMINGWAY – Sérgio Mello

 

meu avô me falando da tarde em que parou um touro
com uma Bíblia
sem que os chifres perfurassem a capa negra
e de um homem
no exército
que de tanto temer que descobrissem sua
homossexualidade
a cada manhã sua voz se tornava mais aguda

meu avô chorando de dor
ao tentar massagear o trecho da sua perna que havia ido
pro lixo
meu avô sorrindo ao lado de um par de muletas de
segunda mão
me apontando uma prótese de plástico
como se fosse um Westley Richards cano duplo

e depois havia as terríveis noites
até que sua mão
pastoral
pousava sobre minha cabeça
a um dialeto ventoso e de vogais nulas
por anos de alcoolismo

aos meus olhos fechados Deus sempre foi um índio
até ontem
quando sonhei que encontrava meu avô e dizia
você não devia estar aí parado na calçada
porque nós te enterramos

e sorrindo ele refutava não filho
foi exatamente o contrário