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sábado, 16 de julho de 2022

RIO DOCE - André Merez

 

E o rio que era doce?
A lama matou.
E os peixes, a vida, a população ribeirinha?
A lama matou.
E os sonhos, os desejos, as virtudes e tudo?
A lama matou.

A lama que escorre,
o líquido podre, chorume das almas
dos homens da Vale,
dos homens de cifras,
números,
contratos,
benefícios,
financiamentos de campanhas.

Homens sem poesia,
sem piedade,
sem pêsames,
sem arrependimento.

O rio sem vida vai gritando até o mar
pela justiça que nunca veio,
mas ninguém ouve, estamos surdos
não temos ouvidos para o rio.

O rio se foi,
se perdeu.

E nenhuma urgência é maior
que o rio estendido sem vida no mundo.
O rio morto era doce, acabou.

quarta-feira, 25 de maio de 2022

VELEIRO ARPOADOR – Cyda Zola

 

Meu corpo
se entrega
ao mar
neste instante
derradeiro
sou eu o veleiro
e o arpoador
no fundo do mar
meu instante de poesia

Sou onda
porção de água
que se eleva
sóbria e forte
sensual e livre
sendo somente onda
fica em mim
o veleiro que passa
friso dentro do mar
vela do meu destino

Faz hora que você se foi
meu corpo exala
cheiro de mar
faz hora que você se foi
meu corpo tem
a forma de mar
infinito horizonte
nas marcas que teu corpo
verticalmente
deixou na minha cama

Quero o poema
se traduzindo
em desejo intenso
boca e silêncio
sussurro e beijo
embriagado de azul

Um poema
é a única
eternidade
possível
de um amor

Estás tão distante
e ainda assim
derramas teu corpo
sobre o meu
e te esqueces de partir

segunda-feira, 23 de maio de 2022

SONHO – Anderson de Araújo Horta

 

Há muito tempo que eu venho
tentando forçar o sonho.
Como carne, bebo vinho,
mas apenas sinto sono.

Hoje, entretanto, acordado,
lembrei-me dos tempos idos.
Pus a preguiça de lado
e sentei de qualquer modo.

Desde então pude notar
que tudo é fácil fazer.
Basta só querer mentir
um pouquinho, por favor.

De modo que vou contar
esse sonho de mentira.
Fico no mesmo lugar
e nem preciso de lira.

Era uma vez um poeta
- menestrel da idade média.
Tanto cantava na rua,
como na feira ou na mata.

Eu era moço, era velho,
segundo o tempo corresse.
Minha vida era um baralho,
conforme a cigana disse.

Só uma coisa podia
me curar - ela dizia:
Vestir ao menos um dia
as vestes da poesia.

Vesti, então, a roupagem
que o tal poeta me deu.
E logo a formosa imagem
de uma deusa apareceu.

Então parece que Píndaro
falou pela minha voz.
(Embora morresse Píndaro
há dois mil anos, talvez.)

- Escuta, formosa imagem
(não sei se deusa ou mulher,
pois sendo assim como és
qualquer mulher será deusa):

Eu quero que tu me ensines
o segredo da composição.

- Não há segredo nenhum
para quem sabe sonhar.
Mas até no sonho existem
os motivos de escolher.
E detrás de qualquer sonho
tem imagem de mulher.

- Não me avexo em confessar,
não me fiz compreender.
O que é que você prefere:
métrica tradicional
ou o tal ritmo livre?
Assonância, verso branco
ou rima parnasiana?

- Eu não prefiro nem nada.
Pois quem prefere é você.
Entretanto, meu poeta,
uma coisa eu vou dizer:
Você pode cozinhar
consoantes com vogais.
Pode até nasalizar
muito pouco ou muito mais.
Porque isso, naturalmente,
é lá com o seu paladar.

Na boa composição
do soneto ou redondilha,
seja uma simples canção
ou seja coisa que o valha,
seja fresco como o linho
ou quente como fornalha,
eu lhe digo: - Não faz mal.
Precisa muito cuidado
é com a música verbal.

- Só com a música verbal?

- Qual o quê, senhor Mistral!
A coisa está no talento.
Porque se não há talento...
também música não há!...