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sábado, 16 de julho de 2022

RIO DOCE - André Merez

 

E o rio que era doce?
A lama matou.
E os peixes, a vida, a população ribeirinha?
A lama matou.
E os sonhos, os desejos, as virtudes e tudo?
A lama matou.

A lama que escorre,
o líquido podre, chorume das almas
dos homens da Vale,
dos homens de cifras,
números,
contratos,
benefícios,
financiamentos de campanhas.

Homens sem poesia,
sem piedade,
sem pêsames,
sem arrependimento.

O rio sem vida vai gritando até o mar
pela justiça que nunca veio,
mas ninguém ouve, estamos surdos
não temos ouvidos para o rio.

O rio se foi,
se perdeu.

E nenhuma urgência é maior
que o rio estendido sem vida no mundo.
O rio morto era doce, acabou.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

PRIMEIRO DE ABRIL – Valdeci Ferraz

 

Menino,
Onde você estava quando quebraram a manhã
E soltaram os elefantes pelas ruas?
Enquanto seus pés chutavam sapotis
Coturnos sem alma esmagavam as flores
E os fuzis anunciavam uma noite sem fim.

Menino,
Você não ouviu o pio triste
De um pássaro sufocado
Pelas cordas de um violino mudo?
Não reparou na cor do vento,
Nas rugas das árvores,
Nos bancos das praças?

Menino,
Trocaram o seu uniforme
Pelo aborto de um sonho invertido
Para manter a pergunta sempre se repetindo no ar:
Mamãe! Quando papai vai chegar?
Menino,
Vai dormir, a noite chegou.

Menino,
Onde você estava quando soou a corneta?
O que trazia nas mãos?
O que trazia na mente?

Onde ficou o riso inocente,
A calma aparente, o quadro pintado,
A vida latente?

Menino, quem esticou o tempo
Para não perder o trono?
Quem se arrastou pela lama
Para enfrentar velhas utopias?
Quem compôs uma sinfonia de trás pra frente?
Quem esmagou o sonho com balas de chumbo?

Ah! Você não ouviu o grito das velhas árvores.
Não viu o sangue escorrendo entre as flores.
E quando a noite chegou onde você se escondeu?
Ah! Você não sabia da carta marcada
Porque só ouvia a mesma piada.
O mesmo tom.
A mesma nota.
O mesmo som.
E trouxeram guizos e plumas.
Prenderam os homens e os seus sonhos,
Porque era o primeiro dia
De um dia que nunca acabaria.

Menino,
Por um momento escuta o vento.
Ouve o lamento dos que tombaram no palco
Pois ainda se move nas sombras
O Leviatã implacável.