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sexta-feira, 3 de junho de 2022

POEMAS de Rodrigo Magalhães

 

ASSIM FALHOU ZARATUSTRA

O canguru sabe a sua bolsa,
e o pequeno sabe o que lhe falta.

As abelhas nunca enganaram o pólen,
sabem que é pro voo, sabem que não é de comer.

É quase de trepar.

E os homens, anos a fio,
raspando e polindo a pedra,
o bronze, o ferro,
e era algo de abrir: chave de fenda.

Chave de fenda,
agora,
já é algo de matar.

Manhã,
no trânsito, um rapaz
com o punho acima à procura
de um rapaz abaixo.

Baixou o punho, e o Homo erectus
não mais sabia o que fez da pedra.

Nem as cartas, antes ao poema ou às lágrimas
de canto, de um canto
do rosto que não busca o que aspira,
                                                        anthrax.

Pois Maria, a dos Curies,
já não tinha às mãos o radioativo
quando olharam e constataram:
– General, deve ser de matar.

Logo, desenvolveram no horizonte
a técnica extraordinária
de pender e despencar.

Longe, sob o que era céu
e calou-se escuro,
o Homo sapiens não mais sabia o fogo,

incendiava.
.......
OS FUNGOS

Como já não bastassem, outrora,
enfurnados em meu pão, meu
queijo, minha bebida; o alheio,
o cogumelo do batente, o grão
de Fleming na penicilina ( ainda
o mofo, o ancestral morto na carne
tombando no retrato),
eles insistem lá fora e batem na urna para entrar.

segunda-feira, 30 de maio de 2022

ONTEM SOBRE ONTEM – André Carneiro

 

Buzino para a pomba gorda
na rua empoeirada.
Cães não se conformam
com as rodas estranhas.
Reclinada no banco
você se queixa de algo,
talvez a salada murcha
ou minha ânsia de pontualidade,
ou dos franceses vindos para o lanche.
Engulo a estrada,
quase ultrapasso o caminhão fantasma,
mas não enfrento a mão errada
na curva rodovia dos atos.
Abro o portão eletrônico,
o carro arrefece a ânsia cega
e descansa as válvulas de aço.
Seus átomos, prótons e nêutrons
sustentam sua matéria sem veias e nervos.
Escadas, fechos e travesseiros
também são feitos com a fórmula
da minha carne primata, de peixe e vertebrado.
0 cenário eu construo,
não importa se gestos são
pensamentos na matéria cinzenta.
Circulo e falo, cada palavra é signo,
sugere algo abstrato ou sólido aparente,
provoca atos da carne ansiosa.
Somos os documentos nas gavetas,
arquivos, fitas magnéticas.
Diante do inquisidor
inventamos as respostas.
Se o espelho devolve outro rosto,
a chave não abre a porta,
o desespero enlouquece com a perda do ontem.
Aqui, agora, duram milionésimos de segundo.
0 calendário imobiliza o passado.
Até o futuro do sonho acordado
mora na memória.
Sinto a batida da veia com o dedo,
o sangue já fugiu do braço,
o beijo caiu no abismo,
o orgasmo é clarão do incêndio,
corre o espermatozoide,
abraça o óvulo, inventa olhos e pernas,
salta para a mãe apertado nos braços,
cresce a cada instante, talvez escreva versos,
rugas, cabelos brancos,
ontem sobre ontem a humanidade inteira.

segunda-feira, 23 de maio de 2022

SONHO – Anderson de Araújo Horta

 

Há muito tempo que eu venho
tentando forçar o sonho.
Como carne, bebo vinho,
mas apenas sinto sono.

Hoje, entretanto, acordado,
lembrei-me dos tempos idos.
Pus a preguiça de lado
e sentei de qualquer modo.

Desde então pude notar
que tudo é fácil fazer.
Basta só querer mentir
um pouquinho, por favor.

De modo que vou contar
esse sonho de mentira.
Fico no mesmo lugar
e nem preciso de lira.

Era uma vez um poeta
- menestrel da idade média.
Tanto cantava na rua,
como na feira ou na mata.

Eu era moço, era velho,
segundo o tempo corresse.
Minha vida era um baralho,
conforme a cigana disse.

Só uma coisa podia
me curar - ela dizia:
Vestir ao menos um dia
as vestes da poesia.

Vesti, então, a roupagem
que o tal poeta me deu.
E logo a formosa imagem
de uma deusa apareceu.

Então parece que Píndaro
falou pela minha voz.
(Embora morresse Píndaro
há dois mil anos, talvez.)

- Escuta, formosa imagem
(não sei se deusa ou mulher,
pois sendo assim como és
qualquer mulher será deusa):

Eu quero que tu me ensines
o segredo da composição.

- Não há segredo nenhum
para quem sabe sonhar.
Mas até no sonho existem
os motivos de escolher.
E detrás de qualquer sonho
tem imagem de mulher.

- Não me avexo em confessar,
não me fiz compreender.
O que é que você prefere:
métrica tradicional
ou o tal ritmo livre?
Assonância, verso branco
ou rima parnasiana?

- Eu não prefiro nem nada.
Pois quem prefere é você.
Entretanto, meu poeta,
uma coisa eu vou dizer:
Você pode cozinhar
consoantes com vogais.
Pode até nasalizar
muito pouco ou muito mais.
Porque isso, naturalmente,
é lá com o seu paladar.

Na boa composição
do soneto ou redondilha,
seja uma simples canção
ou seja coisa que o valha,
seja fresco como o linho
ou quente como fornalha,
eu lhe digo: - Não faz mal.
Precisa muito cuidado
é com a música verbal.

- Só com a música verbal?

- Qual o quê, senhor Mistral!
A coisa está no talento.
Porque se não há talento...
também música não há!...