Mostrando postagens com marcador afago. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador afago. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de julho de 2022

RELÓGICO – Mantovanni Colares

 

“¡Ay qué terribles cinco de la tarde! / ¡Eran las cinco en todos los relojes!”
(La Cogida y la Muerte. García Lorca)

Quando menino
Às três horas da tarde, me parecia que
O mundo inteiro estava feliz

Nessa hora, achava-me geralmente no
Quintal da casa da infância, a
Brincar na lavanderia, que me
Parecia um enorme oceano onde
Barcos singravam sem rumo ou destino

Sempre às três horas da tarde
Eu sentia ali a própria felicidade, e o
Engraçado é que sequer portava relógio

Porque nesse tempo o adorno de pulso
Era privilégio dos já crescidos

Sabia eu, porém, a exata hora, eis que
O sol me anunciava a mediação
Entre o início e o fim do entardecer - era
U’a sensação única aquele calor nas
Costas a não incomodar; um afago de
Saudação do astro-rei

Três horas da tarde, dizia então sorrindo

E porque eu me encontrava invariavelmente
Feliz, achava por bem que assim todo
O mundo se pensava naquele instante

É que, para mim, o relógio marcava a
Felicidade, a chegar sempre às três horas
Da tarde. Era lógico, tão lógico que
Nem duvidava da óbvia certeza

Só muito tempo depois, quando
Três horas da tarde passou a ser mero
Referencial de pesarosos compromissos
No enfadonho mundo dos adultos,
Descobri que a felicidade não é
Transportada por relógios

Senão o medidor de felicidade seria um
Relógico, onde os ponteiros só marcariam,
Invariavelmente, três horas da tarde.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

DOIS POEMAS de José Germano Cardoso

 FUGA PARA DENTRO

Fugidios em canto escuro
avivar o amor
já todo esquadrinhado

é a prisão que então buscaram
a desufocar a alma
iliberta, solta nos dias

Pequenos ovos estrelados!
nos rostos dos sapatos!

Amor morrido
Amor matado

não

Pequenos ovos estrelados!
Nos rostos dos sapatos!
......
ANDORINHA AGUIOÉTICA

Vamos, companheiro!
A cavaleiro do impossível!
O gesto não ofenda
a mão do afago,
a dança não entorpeça!

É já uma solução
para o nada ter sentido.
É já um rendimento, uma humildade
esta coragem.

Vamos, companheiro!
A este mar em concha
a te levar ao desespero
é visitar o amor com medo.
É apagar-se e não dar chance
que queime, morra e ressuscite.
E embora sofra assim a alma e grite
também murmura uma valsa vienense.

Ao longe em teto azul de céu
que para dançar, companheiro,
não precisa ter pés
para voar... Vamos, companheiro!
Amar não tem forma.