“¡Ay qué terribles cinco de la tarde! / ¡Eran las cinco en todos los relojes!”
(La Cogida y la Muerte. García Lorca)
Quando menino
Às três horas da tarde, me parecia que
O mundo inteiro estava feliz
Nessa hora, achava-me geralmente no
Quintal da casa da infância, a
Brincar na lavanderia, que me
Parecia um enorme oceano onde
Barcos singravam sem rumo ou destino
Sempre às três horas da tarde
Eu sentia ali a própria felicidade, e o
Engraçado é que sequer portava relógio
Porque nesse tempo o adorno de pulso
Era privilégio dos já crescidos
Sabia eu, porém, a exata hora, eis que
O sol me anunciava a mediação
Entre o início e o fim do entardecer - era
U’a sensação única aquele calor nas
Costas a não incomodar; um afago de
Saudação do astro-rei
Três horas da tarde, dizia então sorrindo
E porque eu me encontrava invariavelmente
Feliz, achava por bem que assim todo
O mundo se pensava naquele instante
É que, para mim, o relógio marcava a
Felicidade, a chegar sempre às três horas
Da tarde. Era lógico, tão lógico que
Nem duvidava da óbvia certeza
Só muito tempo depois, quando
Três horas da tarde passou a ser mero
Referencial de pesarosos compromissos
No enfadonho mundo dos adultos,
Descobri que a felicidade não é
Transportada por relógios
Senão o medidor de felicidade seria um
Relógico, onde os ponteiros só marcariam,
Invariavelmente, três horas da tarde.
O Grande Ateop nasceu do choque de uma constelação fantástica de treze estrelas lá nos limites insondáveis do universo. O Grande Ateop não teve pai nem mãe e nenhum deus ou deusa para gerar sua vida. Sua idade é de bilhões de anos e seus escritos estão em todos os murais das civilizações humanas universais.
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terça-feira, 12 de julho de 2022
RELÓGICO – Mantovanni Colares
terça-feira, 31 de maio de 2022
DOIS POEMAS de Olga Amorim
VISÃO DE VERÃO
A gata galga o muro
reclama o cão escuro.
A romã pintalga.
o calor perdura.
A romã estala.
O calor perdura.
Voeja o beija-flor.
O calor perdura.
Abelha ronda o aroma
da goiaba madura.
O calor perdura.
Bem-te-vi te-vi te-vi
na antena de televisão.
.......
PERMUTAS POÉTICAS
Troca-se um cheiro de fumaça
por um odor de terra molhada.
Uma nuvem de pernilongos por
uma nuvem branca, de vapores
condensados lembrando sorvete de limão.
Um gramado grande, ressequido
por um canteiro de Amarílis.
Um caixote de folhas secas por
um ramo de alecrim.
Meia dúzia de envelopes de sementes
de flores por um buquê de violetas.
Um céu sem nuvens por outro, carregado
de nuvens densas.
Uma estiagem por um temporal.
Uma chuva de fagulhas de canavial
por uma chuva criadeira.
Um cheiro de garapão por
um odor de murta.
Alguns sonhos desfeitos
por uma esperança.
A gata galga o muro
reclama o cão escuro.
A romã pintalga.
o calor perdura.
A romã estala.
O calor perdura.
Voeja o beija-flor.
O calor perdura.
Abelha ronda o aroma
da goiaba madura.
O calor perdura.
Bem-te-vi te-vi te-vi
na antena de televisão.
.......
PERMUTAS POÉTICAS
Troca-se um cheiro de fumaça
por um odor de terra molhada.
Uma nuvem de pernilongos por
uma nuvem branca, de vapores
condensados lembrando sorvete de limão.
Um gramado grande, ressequido
por um canteiro de Amarílis.
Um caixote de folhas secas por
um ramo de alecrim.
Meia dúzia de envelopes de sementes
de flores por um buquê de violetas.
Um céu sem nuvens por outro, carregado
de nuvens densas.
Uma estiagem por um temporal.
Uma chuva de fagulhas de canavial
por uma chuva criadeira.
Um cheiro de garapão por
um odor de murta.
Alguns sonhos desfeitos
por uma esperança.
terça-feira, 26 de abril de 2022
SONETOS de Garcilaso de La Vega
ESCRITO ESTÁ NESTA ALMA O VOSSO ROSTO
Tradução de Anderson Braga Horta
.......
Escrito está nesta alma o vosso rosto,
e quanto eu escrever de vós desejo:
escreveste-lo só; tão só o leio
que nisso ainda de vós guardo um desgosto.
Eu nisso estou e estarei sempre posto,
que não cabendo em mim quanto em vós vejo,
o bem que não entendo, nele creio,
tomando assim a fé por pressuposto.
Eu não nasci senão para querer-vos;
minha alma vos talhou em tal medida
que por hábito da alma ter-vos peço;
quanto tenho confesso ora dever-vos;
por vós nasci, por vós mantenho a vida,
por vós hei de morrer, por vós pereço.
...........................
DAQUELA VISTA PURA E EXCELENTE
Tradução de Fernando Mendes Vianna
........
Daquela vista pura e excelente
saem espíritos vivos e incendidos,
e sendo por meus olhos recebidos,
me passam até onde o mal se sente.
No caminho se encontram facilmente
com os meus, que de tal calor movidos
saem fora de mim como perdidos,
daquele bem chamados que é presente.
Ausente, na memória eu a imagino;
pensando meus espíritos que a viam,
já se movem e acendem sem medida.
Mas não achando fácil o caminho
que os seus, por ele entrando, derretiam,
rebentam por sair, mas sem saída.
.........................
SENHORA MINHA, SE EU, DE VÓS AUSENTE
Tradução de Fernando Mendes Vianna
........
Senhora minha, se eu, de vós ausente,
duro, e não morro de um viver tão fero,
parece-me que ofendo ao que vos quero
e ao bem do qual gozava em ser presente.
Trás este logo sinto outro acidente,
que é ver que se da vida desespero
eu perco quanto bem de vós espero,
e ando assim no que sinto diferente.
E nesta diferença meus sentidos
estão, em vossa ausência, e em porfia;
não sei já que fazer-me em mal tamanho.
Nunca os vejo entre si senão renhidos;
de tal sorte combatem noite e dia,
que apenas se consertam em meu dano.
.....................
Ó DOCES PRENDAS POR MEU MAL ACHADAS
Tradução de Anderson Braga Horta e Fernando Mendes Vianna
.......
Ó doces prendas por meu mal achadas,
doces e alegres quando Deus queria,
juntas estais-me na memória, e, um dia,
com ela em minha morte conjuradas!
Quem me dissera, quando nas passadas
horas que em tanto bem por vós me via,
que me houvéreis de ser em tão sombria
e tão severa dor representadas?
Pois numa hora junto me levastes
todo o bem cujo termo me infligistes,
levai-me junto o mal que me deixastes.
Ou pensarei que só me conferistes
tais bens e tantos porque desejastes
ver-me morrer entre memórias tristes.
............................
BELAS NINFAS, QUE, NA ÁGUA SUBMERGIDAS
Tradução de Anderson Braga Horta
........
Belas ninfas, que, na água submergidas,
contentes habitais vossas moradas
de reluzentes pedras fabricadas
e em colunatas de cristal sustidas,
quer estejais lavrando embevecidas
ou tecendo essas telas delicadas,
quer algumas com outras apartadas
os amores contando-vos e as vidas:
deixai um pouco esse labor, alçando
vossas louras cabeças por fitar-me;
pouco vos detereis, do modo que ando:
não podereis de lástima escutar-me,
ou, convertido em água aqui chorando,
aí podereis com tempo consolar-me.
..........................
SE PARA REFREAR ESTE DESEJO
Tradução de Fernando Mendes Vianna
.........
Se para refrear este desejo
louco, impossível, vão e temeroso,
e curar-me de um mal tão perigoso,
que é dar-me a entender quanto a medo almejo,
não me aproveita ver-me qual me vejo,
ou mui aventurado ou mui medroso,
em tanta confusão, que nunca ouso
fiar de mim meu mal, que me é sobejo,
que me aproveitará ver a pintura
daquele que, com as asas derretidas
caindo, fama e nome ao mar tem dado,
e a daquele que o fogo e que a loucura
chora entre aquelas plantas conhecidas,
apenas pelas águas resfriado?
...........................
ENQUANTO QUE DA ROSA E DA AÇUCENA
Tradução de Anderson Braga Horta e Fernando Mendes Vianna
......
Enquanto que da rosa e da açucena
revela-lhes a cor o vosso gesto,
e que vosso mirar ardente, honesto,
incende o coração e, entanto, o frena;
e enquanto que o dourado da melena,
de áureo veio escolhido, em vôo presto
pelo formoso colo branco, em esto,
o vento move, esparze e desordena:
colhei da primavera lisonjeira
o doce fruto antes que o tempo airado
dos cabelos vos torne em neve o lume.
Murcha-se a flor no entardecer gelado,
a tudo a idade mudará ligeira
por não fazer mudança em seu costume.
Tradução de Anderson Braga Horta
.......
Escrito está nesta alma o vosso rosto,
e quanto eu escrever de vós desejo:
escreveste-lo só; tão só o leio
que nisso ainda de vós guardo um desgosto.
Eu nisso estou e estarei sempre posto,
que não cabendo em mim quanto em vós vejo,
o bem que não entendo, nele creio,
tomando assim a fé por pressuposto.
Eu não nasci senão para querer-vos;
minha alma vos talhou em tal medida
que por hábito da alma ter-vos peço;
quanto tenho confesso ora dever-vos;
por vós nasci, por vós mantenho a vida,
por vós hei de morrer, por vós pereço.
...........................
DAQUELA VISTA PURA E EXCELENTE
Tradução de Fernando Mendes Vianna
........
Daquela vista pura e excelente
saem espíritos vivos e incendidos,
e sendo por meus olhos recebidos,
me passam até onde o mal se sente.
No caminho se encontram facilmente
com os meus, que de tal calor movidos
saem fora de mim como perdidos,
daquele bem chamados que é presente.
Ausente, na memória eu a imagino;
pensando meus espíritos que a viam,
já se movem e acendem sem medida.
Mas não achando fácil o caminho
que os seus, por ele entrando, derretiam,
rebentam por sair, mas sem saída.
.........................
SENHORA MINHA, SE EU, DE VÓS AUSENTE
Tradução de Fernando Mendes Vianna
........
Senhora minha, se eu, de vós ausente,
duro, e não morro de um viver tão fero,
parece-me que ofendo ao que vos quero
e ao bem do qual gozava em ser presente.
Trás este logo sinto outro acidente,
que é ver que se da vida desespero
eu perco quanto bem de vós espero,
e ando assim no que sinto diferente.
E nesta diferença meus sentidos
estão, em vossa ausência, e em porfia;
não sei já que fazer-me em mal tamanho.
Nunca os vejo entre si senão renhidos;
de tal sorte combatem noite e dia,
que apenas se consertam em meu dano.
.....................
Ó DOCES PRENDAS POR MEU MAL ACHADAS
Tradução de Anderson Braga Horta e Fernando Mendes Vianna
.......
Ó doces prendas por meu mal achadas,
doces e alegres quando Deus queria,
juntas estais-me na memória, e, um dia,
com ela em minha morte conjuradas!
Quem me dissera, quando nas passadas
horas que em tanto bem por vós me via,
que me houvéreis de ser em tão sombria
e tão severa dor representadas?
Pois numa hora junto me levastes
todo o bem cujo termo me infligistes,
levai-me junto o mal que me deixastes.
Ou pensarei que só me conferistes
tais bens e tantos porque desejastes
ver-me morrer entre memórias tristes.
............................
BELAS NINFAS, QUE, NA ÁGUA SUBMERGIDAS
Tradução de Anderson Braga Horta
........
Belas ninfas, que, na água submergidas,
contentes habitais vossas moradas
de reluzentes pedras fabricadas
e em colunatas de cristal sustidas,
quer estejais lavrando embevecidas
ou tecendo essas telas delicadas,
quer algumas com outras apartadas
os amores contando-vos e as vidas:
deixai um pouco esse labor, alçando
vossas louras cabeças por fitar-me;
pouco vos detereis, do modo que ando:
não podereis de lástima escutar-me,
ou, convertido em água aqui chorando,
aí podereis com tempo consolar-me.
..........................
SE PARA REFREAR ESTE DESEJO
Tradução de Fernando Mendes Vianna
.........
Se para refrear este desejo
louco, impossível, vão e temeroso,
e curar-me de um mal tão perigoso,
que é dar-me a entender quanto a medo almejo,
não me aproveita ver-me qual me vejo,
ou mui aventurado ou mui medroso,
em tanta confusão, que nunca ouso
fiar de mim meu mal, que me é sobejo,
que me aproveitará ver a pintura
daquele que, com as asas derretidas
caindo, fama e nome ao mar tem dado,
e a daquele que o fogo e que a loucura
chora entre aquelas plantas conhecidas,
apenas pelas águas resfriado?
...........................
ENQUANTO QUE DA ROSA E DA AÇUCENA
Tradução de Anderson Braga Horta e Fernando Mendes Vianna
......
Enquanto que da rosa e da açucena
revela-lhes a cor o vosso gesto,
e que vosso mirar ardente, honesto,
incende o coração e, entanto, o frena;
e enquanto que o dourado da melena,
de áureo veio escolhido, em vôo presto
pelo formoso colo branco, em esto,
o vento move, esparze e desordena:
colhei da primavera lisonjeira
o doce fruto antes que o tempo airado
dos cabelos vos torne em neve o lume.
Murcha-se a flor no entardecer gelado,
a tudo a idade mudará ligeira
por não fazer mudança em seu costume.
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