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sábado, 7 de maio de 2022

POEMAS de Fernando Peres

 

LUAR NO GUADALQUIVIR

Há uma energia na lua
escondida em seu minguante,
nesga de um halo no céu;
triste e distante.
A lua feita em pedaço,
secreta no resto escuro,
uma lembrança de Lorca,
um conluio de poetas;
frágil e maduro.
Lua que sabe de amores,
pois quando cheia abrasou
o rio, o campo, os olhares,
enluarados amantes
com seus afagos rascantes.
.......
IPSIS LITTERIS

Poesia é maleita,
febre terçã que não se enjeita.
Poesia é desejo,
risco no ar, risco e lampejo.
Poesia é medo,
dor da palavra e seu enredo.
Poesia é pasmo,
jogo de ancas que se faz orgasmo.
Poesia é canção,
luz de uma voz e cantochão.
Poesia é tudo,
brilho da vida, discurso mudo.
Poesia é amor,
roçar de pele que tem sabor.
Poesia é nada,
chama dos mortos na madrugada.
Poesia é retrato,
olhar no espelho em 3x4.
Poesia é isto,
sinta seu toque e pense nisto.
.......
TEMPUS FUGIT

O tempo começa
quando nascem certas flores.
O tempo denso de uma noite,
o seu perfume, a sua ardência,
de uma flor que não pode ver o
dia.
O tempo acaba
quando morrem certas flores.
O tempo evanescente de uma
garoa:
o seu afago, a sua frialdade,
de uma flor que não pode ver a
luz.
O tempo é noite, é bruma:
permanência do escuro entre as
estrelas,
uma passagem de arrepio entre
calores.
O tempo começa e o tempo
acaba,
tudo que dizemos sobre flores,
rápidos, efêmeros, doentes;
nossa mirada, uma miragem,
resvala em jardim, de madrugada.
.......
NATUREZA VIVA

Esta porta não abro, meu amor,
quero ver através da rachadura,
este toque de luz em teu cabelo.

Esta janela não abro, meu amor,
quero sentir na fímbria da treliça,
este perfume de vulva umedecido.

Só abro a porta e janela, meu
amor,
se a cor do teu olhar for invadida,
com o desejo que tenho do teu
corpo.

domingo, 20 de fevereiro de 2022

NOITE ESCURA NA RUA BALMES – Joan Margarit

Tradução de Nelson Santander
......
Cumpridas as ameaças e temores
– hoje já todas as ruas levam à velhice –,
passo defronte à clínica em que tu nasceste,
vinte e seis anos atrás, em uma noite
de corredores feridos pela luz.
Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa,
à praia feliz do teu sorriso,
à dificuldade da palavra,
às escolas que não te quiseram,
aos ossos cansados, à calma
cruel e aparente dos corredores
que observam batas brancas silenciosas
com o frio burburinho dos anjos.
Polegares torcidos, o nariz
como bico de pássaro e as desordenadas
linhas da mão: nossas fisionomias
e, ao mesmo tempo, a da síndrome,
como se se tratasse de outra mãe
desconhecida, oculta no jardim.
Longe da beleza e da inteligência:
agora só importa a ternura,
o resto é uma questão de um mundo inóspito
do qual nos é difícil escondermo-nos
em raras rotas de felicidade.

Volto ao jardim escuro, à máquina
de café que me fez companhia
ao longo daquelas madrugadas.
Volto à culpa e ao remorso,
velhos escombros que ainda atravesso.
Como agora respeito aquelas mãos,
sua lucidez recusando o que desejava.
Hoje, voltas contra mim,
me agarram pelo pescoço na velhice,
forçando-me a enfrentar a manhã
em que tua ternura te salvou.
A antiga confusão da felicidade
e um mundo ao redor, nem amigo, nem inimigo:
vejo pessoas passando pelas ruas,
pelas obras, escritórios,
sempre indagando sobre as lágrimas perdidas.

Tu eras a flor, nós, um ramo
e, ao desfolhar-te, o vento
nos embalava desnudos de dor.
Ainda te protejo e ao passar tão perto
do escuro jardim daquele verão,
olho e vejo novamente
a débil luz daquela máquina
de café. Há vinte e seis anos.
E sei que sou feliz, que tive a vida
que deveria merecer. Nunca serei
nada diferente dela, azar e fogo.
Azar, pela vida.
Fogo, pela morte. E não ter nenhum túmulo.