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sexta-feira, 3 de junho de 2022

SONHO VAGO – Tasso da Silveira

 

Ó branca e luminosa!
Na alcova quieta e silenciosa
que a penumbra parece transformar
Num ambiente imaginário
De cidade lacustre ou num aquário,
Teu corpo claro, fino, transparente,
A se mover preguiçosamente
Como a ondular...

Lembra, nessa nudez que as sombras ilumina,
Sonâmbulo país de águas e brumas,
Visão de uma paisagem submarina,
Em que andas a flutuar...
Como no meio de algas e de espumas
- Uma ninfa, sereia ou estrela-do-mar.

Vendo-te assim, meio acordado,
Eu me deixo embalar
Num esquisito, incomparável gozo,
De deleites estranhos inundado.
Crendo que vou contigo a mergulhar,
Num sonho voluptuoso,
Por entre espaços fluidos de veludo,
-Um país de perfumes e de encanto -
Em que de um vago luar o tênue manto
Amacia tudo...

II
Quantas imagens brancas me sugeres!
- Magnólia, flor dos Alpes, nebulosa...
- Branca lua perdida entre as mulheres!
- Garça, vela no mar, alvor de rosa!

Ao vê-lo assim, tão claro e leve, eu penso
Que o teu corpo, a florir na luz cendrada,
Sonha, dentro da noite, o sonho imenso
Que as rosas brancas sonham na alvorada.

quarta-feira, 18 de maio de 2022

AS CHUVAS DA PRIMAVERA - Augusto Frederico Schmidt

 

Em breve virão as chuvas da Primavera,
As chuvas da primavera
Vão descer sobre os campos,
Sobre as árvores pobres,
Sobre os rios degelando.

As chuvas da Primavera
Cairão sobre os jardins perdidos,
Sobre os rosais desnudos,
Sobre os canteiros sem flor.

As chuvas da Primavera anunciarão
Os grandes dias próximos,
E a cantiga das águas escorrendo
Dos beirais
Nos dirá do tempo próximo,
Das primeiras flores,
Dos primeiros ninhos,
Das primeiras palpitações
Dos brotos,
Das esperanças,
Da vida que se insinua em tudo,
Nos ramos, nas penugens,
Nos céus limpos.

Em breve virão as chuvas da Primavera.
Os rios já estão degelando
O frio já não é tão mau.
Adormece, pois, meu amor,
E esquece este inverno,
Deixa que o sono te leve,
Como as águas levam flores
E folhas soltas.

segunda-feira, 16 de maio de 2022

OS SEQUESTRADORES – Luciene Miranda

 

- Inspirado em Portinari -
- Poema classificado em dezembro de 2000 no II Festival de Poesia do SEERJ/RJ –
.......
Os sequestradores receberão o resgate da nau
Naufragada. Da madeira extinta e da raça
Espoliada e dos vandalismos. Do canto das aves
Do genocídio cruel. Das tormentas e dos tratados.

Dos espaços invadidos. Da dor de um povo
Das chibatas na carne e dos versos tristes.
Das rosas murchas sob a aridez da terra
Das cores das moças e moços.

Das plantações irrigadas com sangue. Dos sem terra e
Sem sonhos. Das enchentes anunciadas e
Da cólera. Quem pagará? Os sequestradores irão saber
Dos pobres e miseráveis que estão sempre

Na espera, espera nas filas de hospitais.
Nas filas dos bancos, filas dos desencantos
Das lágrimas de sofrimento e transfusões contaminadas
Nas filas de desemprego e nas filas de pedir emprego...

Mas receberão o resgate da lama. Das metralhadoras.
Dos membros amputados, dos sonhos partidos, das balas
Perdidas. Da gente morta e extorquida. Da gente viva.
Dos tiros chacinando vivos.

Chacinando crianças velhas e velhos jovens.
Mães e filhas... Receberão o resgate das garças
Afundadas no óleo. Dos alimentos podres e da fome 
                                                                       [anunciada
Dos planos maquiavélicos. Dos odores pútridos.

Das janelas e portas fechadas. Das grades de ferro.
Da morte chegando. Dos gritos e angústias só
Conhecidas dos sequestrados... Receberão o resgate do
Pó soprado sob a flor da inocência ...