Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vida. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 2 de junho de 2022

POEMAS de Dionilce Silva de Faria

 

O DISCURSO DO SILÊNCIO

Ainda é tempo
de percorrer estradas não andadas,
de viver as emoções sonhadas ,
de mergulhar no parque da vida,
ler a folha que não foi lida.

Ainda é tempo
de achar o abraço não dado,
aquele beijo não trocado,
enfrentar o medo da perda,
não ficar sempre à esquerda.

Ainda é tempo
de deixar de ser nada,
cantar a vitória da alvorada,
escutar a voz da esperança,
acender a luz da temperança,
de discursar no meu silêncio
a posse de tudo que não tive.

Ainda é tempo
de mostrar tanto amor contido,
ouvir os ecos da noite,
falando ao meu eu sofrido,
palavras de flores, sem açoite,
fazendo-me sonhar, delirar
com um mundo sem cicatriz,
sentindo-me completamente feliz.
.......
LÍNGUA MATERNA

Idioma provindo da mistura,
da cultura de outros povos
que aqui ficaram
sementes plantaram
e geminaram...

Complexa, desconexa,
lira singela, rica, bela.
Trema, hífen, acentuação,
de difícil colocação.
Cacofonia, cacografia
não é fácil não.

Por Bilac exaltada,
por Camões admirada,
em muitos lugares ignorada.
Língua mãe, venha nos socorrer,
queremos o vernáculo aprender,
sem vícios, sem estrangeirismo,
dar asas ao patriotismo,
assistir à língua crescer.

quinta-feira, 26 de maio de 2022

IMAGENS DE PALAVRA - Hildeberto Barbosa Filho

 

Buscar a palavra
nas lições da vida.
E na morte prematura,
buscar a palavra,
embrião perdido
por entre os olhos
e os lábios sepultados.

Reter a palavra,
essência tarda no cume
do poema, perfeito
paraíso de degredos...

Retê-la no fremir
do verso, e no fremir
do verso, moldá-la:
rigorosa linha entre
as manhãs e as noites
do meu tédio.

Guardar a palavra:
gesto último de quem
vazou o texto e não
beijou neblinas...
nem formas acabadas.

Perdê-la no tempo
vazio e recomposto,
único janeiro dos anos
estivais.

Plantar a palavra
no verão e no inverno,
alimento que povoa
o medo nos desertos
do papel

e entre sílabas de dor
ganir o amor contido,
rio de luzes e sal
de agosto, dezembros
maculados...

Depará-la, fendida,
na geometria da paixão,
cálculos infindos
para uma imagem
derradeira.

Buscar a palavra
esquecida na gaveta
e molhada na saliva
do silêncio:
único roteiro dos meus
sonhos irreais.

Liame do meu mundo
com o teu mundo

(itinerário devastado) uma planície que se fez
outono...

SONETOS de Luiz Antônio Cajazeira Ramos

 

QUO VADIS?

Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.

O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.

Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...

Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
.......
LONDRES

O vampiro chorou de fome e sede
de amor, sozinho em toda a madrugada.
Quando o sol levitou na manhã rasa,
como um fardo o vampiro deu-se à tumba.

Todo dia é-lhe igual: a sangue frio,
cai-lhe a circulação d'estro sinistro.
Mas a noite vampira é qual floresta
em carne viva! e... logo após, deserto.

Do canino ancestral, restou-lhe um uivo
- não por rasgar à lua a artéria seda,
mas a hiena a cavar na noite negra
o vazio que se o esconde nos espelhos.

O vampiro não teme o fim dos tempos:
o veio eterno que o alimenta é o medo.
.......
ENTRE O SONO E A VIGÍLIA
(soneto sonolento, ao dormir)

Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.

Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.

Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.

No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
.......
LUZ E BREU
(soneto sonolento, ao acordar)

Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.

Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.

Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.

À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.