quinta-feira, 26 de maio de 2022

SONETOS de Luiz Antônio Cajazeira Ramos

 

QUO VADIS?

Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.

O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.

Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...

Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
.......
LONDRES

O vampiro chorou de fome e sede
de amor, sozinho em toda a madrugada.
Quando o sol levitou na manhã rasa,
como um fardo o vampiro deu-se à tumba.

Todo dia é-lhe igual: a sangue frio,
cai-lhe a circulação d'estro sinistro.
Mas a noite vampira é qual floresta
em carne viva! e... logo após, deserto.

Do canino ancestral, restou-lhe um uivo
- não por rasgar à lua a artéria seda,
mas a hiena a cavar na noite negra
o vazio que se o esconde nos espelhos.

O vampiro não teme o fim dos tempos:
o veio eterno que o alimenta é o medo.
.......
ENTRE O SONO E A VIGÍLIA
(soneto sonolento, ao dormir)

Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.

Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.

Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.

No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
.......
LUZ E BREU
(soneto sonolento, ao acordar)

Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.

Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.

Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.

À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.

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