quinta-feira, 28 de outubro de 2021

POEMAS - Gisiéle Gargioni

 

AMOR REVELADO

Entre sobras e luz
Lágrimas e correntes
Anjos Alados
Num sono profundo
O Amor é revelado.
Não sendo possível desviar
Cravado em meu ser
O Amor é disseminado.
Ainda sem entender
O porquê de tudo acontecer
Perco-o sem o ter
E meu coração é apunhalado.
Derramo lágrimas
Sem poder conter
Caio novamente
Sem proteção...perco o rumo
Busco uma luz apenas
E tão somente
Encontro o escuro...
O silêncio e a solidão.
Prefiro as palavras que cortam e sangram
Do que o silêncio que açoita a alma
E que com crueldade mata aos poucos
Lentamente o coração que ama.
........
ENVOLTA

Atordoada
Entre o ir e o permanecer
Refugiada...
Acuada no seu próprio mundo
Lágrimas cortantes
Lapidaram um novo Ser.
Oculta da vida
Caminhando sozinha
Sem ainda reconhecer
Coração em pedaços...
Tentando entender o porquê.
Faces ocultas
O amor adormecido
Enfim nos apresenta
Máscaras caídas!
Lágrimas descortinam
A alma sofrida
Você "Vida" ...Eu "Luz".
......
DESNUDA

Simples e desnuda de tudo
Sem adornos
Ou qualquer adereço reluzente
Pés descalços...
Olhar singelo
E um único bem a oferecer
Sem pretensão alguma
Nada que leve a loucura, a sedução
Sem ostentação
Sem possessão
Afinal o que é verdadeiro
Não necessita de algemas
Talvez o que é simples não atraia
Fique apenas na teoria
E mais uma vez segura o amor contra o peito
E segue...
Indiferente da venda que o cega
O amor resiste
Mas leva-o consigo
Pois é o bem mais precioso
Que um ser humano oferece a outro
E se não preenche a alma
É porque não sabe o valor dele
Sendo assim, se a fascinação fala mais alto
Se a fantasia é mais valiosa
Não vale a pena questionar
Segue o caminho
Corre livre contra o vento
Simples e desnuda de tudo
Pois nada de adornos encanta
Encanta sim a serenidade
E o bem maior
Que o amor verdadeiro traz para alma.

METAFÍSICA - Venâncio Calisto

 

No limiar da consciência
um deus espreita. É impalpável
e frio e não é onipotente
ou onipresente: Espreita
e facilmente se vence
ou ilude. Não promete
a vida eterna mas lembra
a silenciosa certeza
da morte eterna.
É lúcido e não metafísico,
não existia antes de nós,
mas em nós germina,
em nós vive e conosco
perecerá.
É um deus com que retomamos
diariamente o diálogo interrompido
de Ulisses. Um deus que
surge a horas mortas na
memória do que somos
e não é um deus, mas
o julgamento dos atos que, somados,
somos. É um outro
ser que somos e sendo outro
nos olha com outros olhos
que nossos são. Nos olha
e fita, nos olha e fita
e faz significar olhando.
No limiar da consciência
é um deus que espreita.
E eu, irreligioso,
me confesso ao deus que
em mim me assoma.

quarta-feira, 27 de outubro de 2021

O CISNE – Sully Prudhome

 

Tradução de Alberto de Oliveira
.....
Calmo, do espelho azul d’água profunda e calma
à face errando, os pés, lânguido, o cisne espalma
E desliza. Da neve os raros flocos brancos
Lembra o fino frouxel que lhe amacia os flancos;
Línea vela parece a asa que encurva e brande,
Esbelto, e ora retrai, ora sacode e expande;
Entre as ninfeias indo, o alvo pescoço apruma,
Colhe-o após, some-o n’água, estende-o sobre a espuma,
Curva-o mole e gracioso, e ânfora antiga imita.
Dos pinheiros ao longo, onde o silêncio habita
E a paz e a sombra, vai; rastejando na esteira,
Que atrás fica, semelha intensa cabeleira
A basta ervagem fresca a palpitar. A gruta,
Que a alma atrai do poeta e a voz da tarde escuta,
Praz-lhe e a fonte que além flui, regurgita e bolha.
Vendo-as, lento se arrasta. às vezes numa folha
Leve cai do salgueiro e, em sua queda, leve,
Roça-lhe, muda sombra, as plumas cor de neve.
Caminha agora ao largo; o implexo da ramagem
Deixa e a parte procura onde o esplendor selvagem
Diz melhor com o brilhar d’água anilada e pura.
Do lado é a parte mais azul que ele procura;
E lá vai… a cismar sobre as ondas serenas,
Entrega à luz do sol a brancura das penas.
Depois, quando, em redor, se confundem, caindo
A noite, do amplo lago as margens, e no infinito

Horizonte há somente um ponto avermelhado;
Quando tudo quedou, quando no ilimitado
Do céu paira da lua o globo enorme e albente;
Quando acende o lampiro a luz fosforescente,
E nem o menor sopro o débil junco embala:
O cisne, sob o olhar dessa noite de opala,
Em seu lago sombrio, enfim, descansa; e, acaso
Visto de alguém, assim, lembra de prata um vaso…
Põe sob a asa a cabeça, os olhos sonolentos
Fecha, e dorme, feliz, entre dois firmamentos.