quinta-feira, 15 de novembro de 2018

TELA VERMELHA - Rafael Rocha

Com letras brancas conjugo versos vermelhos
cheios de formas tanto paz ou desvarios.
Apodero-me dos conceitos de outros conselhos
e no pincel mágico escrevo o rumor dos rios.

Ao sabor da vida pertencem velhas crenças
que destroem num átimo o verbo racional:
- São contos deístas cheios de subserviências
querendo destruir o meu voo de imortal.

O espaço fica mais rubro que no sol poente
e nele habita o anseio do velho penitente
de ver seu deus errante habitar em seu ser
para morrer e apagar o pecado reticente
e orar na luz vermelha pelo perdão ausente
aos que adoram sonhos sem nunca os ver.

HOJE – Marcelino Vespeira

O dia não foi meu
e tantos outros que o não são
erro no calendário
ou voluntária distracção

E os dias que foram meus
gestos de outros são
que se dão a quem os quer
nos dias que o não são

E da pressa de os perder
do cansaço de os contar
ganho vícios da noite
que me sabem perdurar

BIOGRAFIA EMOCIONAL DO POVO – Antonio de Cértima

I
Boca de alma que se enfeita
Em rezas, cantos de amor...
- Não há lira mais perfeita
Que a do povo, trovador.

Prantos tristes, emoções,
Choros de fogo e paixão,
Tudo ele anima em canções,
Nas cordas do coração.

Almas de noivas errantes,
No céu da alma a vibrar,
Ele celebra, em descantes,
Quando se põe a evocar...

É olhá-lo: no modo triste
Há expressões traduzindo
Quanto bem que não existe,
Quanto mal que ainda é lindo!

O olhar tem certa beleza
Que entristece e dói... Assim
Deve ter sida a tristeza
Das faces de Bernardim!

Menina e Moça inda pura,
Perdida por seu encanto,
É a noiva que ele procura,
O Encoberto do seu pranto!

Só o povo português
Tem a intuição acertada
Que acorda no montanhês
Visões de vida passada.

Ecos de longe. Montanhas.
Contendas bravas, velhinhas.
E chamam por mães estranhas:
- Senhoras, Donas, Rainhas!

Donde virá tal nobreza?
De que grau de geração?
- É que a gente portuguesa
Tem sangue de condição.

Vem o. sol - cresta-lhe as veias:
E, em delírio, perde o tacto.
Busca a dança - ardem-lhe: as veias:
É o pulso de Viriato!

II
O povo humilde a cantar
Abre em doçura de asceta.
Sai à rua, está luar,
Solta uma queixa, - é poeta.

Nos seus poemas, corados
Nos vergéis, em tardes belas,
Espreitam lábios rosados,
Olhos garços de donzelas.

É a gente esquecer-se a ler
Tal poema sempre novo
E encontrar uma mulher
Em cada trova do povo.

Ingénuas virgens que passam,
Serenas, de passo mudo,
Levam bocas que se enlaçam
Noutras bocas de veludo.

Umas, de rostos de rosas
Frias, brancas, já mortais;
Outras em cores melindrosas
De céus espirituais.

E todas tão delicadas,
Tão cheias de puro encanto
Como a cinzel bem talhadas
De um génio que fosse um santo!

São Marias da inocência,
Da graça nata e servida;
Corpos de nívea fulgência
Sem a mancha própria da vida.

Outras, Ofélias doridas
De quanto amor desgraçado!
Tendo ainda as rosas caídas
Sobre o manto de noivado.

E todas passam e lá vão
Na luz do sol ou luar...
- Venturoso o coração
Do povo que sabe amar!

COMO SE FOSSES O MAR – Albano Martins

(Do livro Escrito a vermelho, 1999)

Antigamente
era assim: bastava
o voo duma ave
para te arrepiar a pele. Agora
os navios cortam
a linha de água e nem
um leve sobressalto
te percorre os rins.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

CANÇÃO PARA UMA NOITE DE LUAR - Edmondo Jabès

Tradução de Mário Laranjeira

Tu deslocas as ruas.
A cidade é um labirinto.
Sempre acabo em tua rua.

Tu mudas de nome.
Os dias são meus degraus.
Tua janela é tão alta.

Perco-te de vista.
À tua porta, um ladrão
ataca a fechadura.

Circundas meus sonhos.
Escapas à terra,
Ao inverno, às lágrimas.

A CARTA - Marina Tsvetaeva

Tradução de Augusto de Campos

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera - a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro - uma palavra
Apenas. Isto é tudo.
Assim não se espera o bem.
Assim se espera - o fim:
Salva de soldados,
No peito - três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.
Felicidade? E a idade?
A flor - floriu.
Quadrado do pátio:
Bocas de fuzil.
(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.
Quadrado da carta.

CALMA E SILÊNCIO - Georg Trakl

Tradução de Cláudia Cavalcante

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

sábado, 10 de novembro de 2018

CRÍTICA DA POESIA – Vasko Popa


Tradução de Aleksandar Jovanovic

Depois da leitura de poemas
No serão literário da fábrica
Começa o diálogo

Um ouvinte ruivo
De face marcada por manchas solares
Ergue dois dedos

Camaradas poetas

Se eu lhes versificasse
Toda a minha vida
O papel ficaria rubro

E pegaria fogo


UMA PEDRA - Yves Bonnefoy

Tradução de Mário Laranjeira

Tenho sempre fome desse
Lugar que nos foi espelho,
Das frutas curvadas dentro
De sua água, luz que salva,

E gravarei sobre a pedra
Lembrança de que brilhou
Um círculo, fogo ermo.
Acima é rápido o céu

Como ao voto a pedra é fechada.
Que buscávamos? Talvez
Nada, a paixão só é sonho.
Nada pedem suas mãos.

E de quem amou uma imagem,
Por mais que o olhar deseje,
Fica a voz sempre partida,
É a palavra toda cinzas.

QUASE – Laura Riding



Tradução de Rodrigo Garcia Lopes

Obscuridade quase expressa
Que nunca foi ainda mas sempre
Era para ser a próxima e a próxima
Quando o lapso do ontem no amanhã
Devia ser arrumado pelo menos até já,
Pelo menos até já, até ontem ─
Caos quase reconquistado
No qual a verdade, como se uma vez mais,
Ainda não tivesse caído ou se erguido ─
O que há de novo? Qual é?
Você que nunca foi ainda
Ou eu que nunca sou até?

BARRO NU (Os Arautos Negros) – César Vallejo

Tradução de Jorge Henrique Bastos

Erguem-se visagens fúnebres do lábio
como batráquios terríveis na atmosfera.
Pelo Saara azul da Substância
caminha um verso cinza, um dromedário

Fosforesce um esgar de pesadelos cruéis.
E o cego que morreu repleto de vozes
de neve. Madrugar o poeta , o nômade,
é um dia áspero para ser homem.

As Horas seguem febris e abortam
nos ângulos rubros séculos de ventura.
Quem corta o fio, quem desfaz
impiedosamente os nervos,
cordéis já gastos, na tumba?

Amor! E tu também. Pedras gastas
se delineiam na tua máscara que se rasga
Contudo, a tumba é
um sexo de mulher que conquista o homem!

SOB O SOL – Paul Valéry

Tradução de Augusto de Campos

Sob o sol em meu leito após a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES – Jorge de Lima

Lá vem o acendedor de lampiões de rua!
Este mesmo que vem, infatigavelmente,
Parodiar o Sol e associar-se à lua
Quando a sombra da noite enegrece o poente.

Um, dois, três lampiões, acende e continua
Outros mais a acender imperturbavelmente,
À medida que a noite, aos poucos, se acentua
E a palidez da lua apenas se pressente.

Triste ironia atroz que o senso humano irrita:
Ele, que doira a noite e ilumina a cidade,
Talvez não tenha luz na choupana em que habita.

Tanta gente também nos outros insinua
Crenças, religiões, amor, felicidade
Como este acendedor de lampiões de rua!

O ENCONTRO - Jorge da Cunha Lima

O primeiro encontro
foram tijolos abertos
com palavras pedras.

É belo um livro
como um tijolo
limpo — é triste
um livro lido,
um muro pronto.

Um livro lido
é um amigo no cais,
que nos dá o percurso
e nos deixa só,
do encontro.