terça-feira, 17 de julho de 2018

SOPA DE CEBOLA E ESPARGOS – Ivanise Mantovani

Sopa de cebola e espargos. É domingo.
Na sala do almoço, mesa posta.
A toalha branca se enfeita em réstias de luz.
Cheia de enlevos, vovó viúva, suspira.
Ouvindo a voz musical de Puccini. Sonha!
Seus dedos em nós artríticos
fazem renda de croché
e basta a beleza própria
do modo doce, da doce ternura
dos miosótis que ela tem no olhar.

Vovô não resiste...
desce do porta-retrato,
nas mãos flores do campo (o beijo é brisa)
deposita o buquê no colo de vovó,
nos cabelos, carícias.
Como antigamente quando namorados.

SONETO - Eduardo Guimarães

"Tudo que faz da carne um mistério inquietante,
languescências, brancor de túmulos ao luar,
marfins de rosa murcha, inerte e singular,
tudo o seu corpo tem, de abandonada amante

Nimba-lhe a fronte o horror. Quando emudece, o olhar
mostra a antiga tortura eterna e alucinante,
porque os seus olhos são dois tercetos de Dante
que Gustavo Doré deixou por ilustrar!

Do gesto vão, jamais de arremesso ou de assomo,
fez o esforço brutal que dá glória ao perigo;
atrai assim, contudo, a alma do sonhador,

Magnífica, fatal e funerária como
hirta e nua, ao entrar de um cenotáfio antigo,
uma estátua da morte, um mármore de dor!"

(Do livro A Divina Quimera, 1916)

A LÍNGUA - Benette Bacellar

dois corpos
emaranhados em desalinho

a língua na pele
(re)inventa caminhos

descobre mistérios
escondidos sob os panos

a língua, antes maldita
abre fogo; delírios agita

consome a flor aberta
semeia gemidos no sal

a língua embriaga-se no vinho
mata a sede no céu da boca, em gotas

segunda-feira, 9 de julho de 2018

AOS PREDADORES DA UTOPIA – Lau Siqueira

dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres

PAZ – Kátia Borges

Invento a paz: panos brancos nas janelas.
Os burgueses da pensão estranham – canto.
Eu, que nunca cantei.

Atendo no balcão os mortos todos,
procurando achados e perdidos.

E vivo. Eu,
que nunca ousei.

O luto, que cobriu de negro
este quarto, hoje é passado.
Enterrado no quintal dos fundos.

Que as crianças entrem e desarrumem tudo,
rasgando em algazarra meus retratos.

O POÇO – Regina Carvalho



Corra a tampa do poço
e beba este poema
num único gole grosso
que fira sua goela

Descasque esta rima
e morda este poema
Amole em mim a lima
e corte este poema

Corra a tampa com força
Beba o verbo deste sol

Ele é bom
Isca gorda em fino anzol

VERSOS DA MORTE - Gabriel L´Abbate Melo

Abandona teu lar, o teu sossego,
abandona teus vícios, sem apego.
Abandona o teu Sol, a tua fonte,
e pousa teu olhar sobre o horizonte.

Abandona a família, sem raízes,
crava na alma o abandono feito um prego.
Abandona teus sonhos mais felizes
e tudo o que nasceu junto a teu ego.

Abandona as paixões, os teus prazeres,
abandona o teu ciclo de deveres
e pousa teu olhar sobre altos ares.

Quando o próprio abandono abandonares,
então, num gesto calmo, lento e mudo, 
dissolva-te na ação de unir-se a tudo.

O ADMINISTRADOR DO BLOG LEMBRA AOS LEITORES


ESPAÇOS – Mara Senna

Dentro de mim, todos os conflitos.
Fora de mim, todos os consolos.
Dentro de mim, todas as culpas.
Fora de mim, nenhum dos dolos.
Dentro de mim, todos os gritos,
Fora de mim, todos os silêncios.
Dentro de mim, o siso.
Fora de mim, o riso.
Dentro de mim, todas as quedas.
Fora de mim, todas as vitórias.
Dentro de mim, todos os naufrágios.
Fora de mim, todos os bons presságios.
Dentro de mim, todos os porões.
Fora de mim, as embarcações.
Até quando vou resistir
em viver do meu lado de fora?

O SER E O FINITO – Afonso Felix de Souza


Sem cessar e sem descanso
ratos roem
o centro
do ser
  
Há no tempo letais
misturas de venenos
em cada instante a mais
em cada instante a menos

Que o corpo seu fim trisca
em cada instante a mais
eu sei como quem cisca
os seus restos mortais

CORAÇÃO CALADO – Sandra Almeida

quando calo,
pressinto um vendaval
de emoções.

quando falo,
invado teu espaço
e disfarço.

quando grito,
lamento um amor
distraído.

adormeço e esqueço.

domingo, 8 de julho de 2018

SOBRE PEDRAS E SEMENTES - Sandra Fonseca

Coisas silenciadas
Respiram como um peito
De um pássaro
Na véspera do voo
Como o pólen disperso
Na imensidão
Como o milagre
Escrito no fruto
E no pão
A semente arde
Em seu estado de pedra
Como uma hora que não tarda
Inclino-me
Às pedras dormentes
Pousadas
Graciosas ao longo
De um mio
No leito da estrada
E adivinho
A graça da semente
Que na pedra
Sonha
Ser grão
E arde

O MORTO – Paulo Mendes Campos



Por que celeste transtorno
tarda-me o cosmo do sangue
o óleo grosso do morto?

Por que ver pelo meu olho?
Por que usar o meu corpo?
Se eu sou vivo e ele morto?

Por que pacto inconsentido
(ou miserável acordo)
Aninhou-se em mim o morto?

Que prazer mais decomposto
faz do meu peito intermédio
do peito ausente do morto?

Por que a tara do morto
é inserir sua pele
entre o meu e o outro corpo.

Se for do gosto do morto
o que como com desgosto
come o morto em minha boca.

Que secreto desacordo!
ser apenas o entreposto
de um corpo vivo e outro morto! 

Ele é que é cheio, eu sou oco.

PÁSSARO PRESO – Márcia de Queiroz

Pobre pássaro preso na gaiola,
só eu te compreendo a desventura,
pois como tu minha alma se estiola
noutra prisão também estreita e escura.

Dão-te conforto que te não consola,
pensam que exprime, o canto teu, ventura.
Mas, bem o sei, quanto tristor evola
do teu viver, alada criatura.

É que o meu ser como o teu ser, imerso,
vive, na imensa angústia de querer
conquistar as lonjuras do universo.

Se nos tolhe o destino a liberdade,
onde buscar o encanto de viver,
onde achar, pássaro, felicidade?

terça-feira, 3 de julho de 2018

SETE – Eduarda Duvivier

Sete donzelas dançaram
sete espadas se cruzaram
no mar revolto crispado
sete homens naufragaram
no fogo ardente envolvente
sete serpentes nasceram
sete sóis se desmancharam
nas nuvens ruivas do ar.
Sete profetas falaram
segredos de amedrontar
sete arco-íris fizeram
sete voltas pelo ar
sete lábios me beijaram
sete vezes com ardor
sete mãos me agarraram
me desfolharam no amor
sete centauros vieram
sete vezes me buscar.

Eu fui sonhando, sonhando
nos sete braços do mar.