segunda-feira, 23 de abril de 2018

NO SILÊNCIO DA PEDRA – Patrícia Tenório

A pedra fala
A pedra canta
O que não se quer ouvir
O rouxinol se espanta
Quando de pedra
Me faço
E o estilhaço
Num coração partido

Vem o silêncio
Diz mais à pedra
Que as palavras
Esculpidas
Transgredidas
Esvaídas no tempo

Para saber o laço
Que se tece
E cresce
Entre mim e o outro
Que fala
Canta
E se quer ouvir

DANÇO SOBRE UM ABISMO – Diva Goulart

toda vestida de rosas
mas que ninguém me veja.
de um lado está a vida
e do outro está a morte.

Com o tempo, uma a uma,
as rosas vou desfolhando:
uma rosa para a morte
outra rosa para a vida.

No palco em que me descubro
(alva forma tão despida)
não quero que a profanem.
Que todos fechem os olhos,
assim que subir o pano.

ABRIL – Fernando Fiuza

Abril melava o chão da tarde de cajá
e um gato ronronava dentro do meu peito;
as estradas de lama – quase tudo brejo
onde as almas diziam às rãs coisas do mar.

Não se plantava nada, o mato crescia quieto
e era dono de tudo, dono até das telhas;
a chuva disputava os ares com o silêncio
e um barco de papel coloria a correnteza.

O cavalo mancava – cegos pêlo e crina
que a derradeira luz não mais os penteava -,
a roseta com sangue entre os dentes não gira;
era a vez da leitura e palavras cruzadas.

Abril jamais me foi cruel e sim molhado
- quem sabe são meus olhos, restos do naufrágio.

(De: O Vazio e a Rocha)

INCONSTANTE – Gabriel Nogueira Maia

O tempo está inconstante
como coração de mulher:
chove e me abrigo no carro,
racha o sol e não posso ir a pé.

Nessas horas sofre o pagão,
mais vale a quem tem fé.
Minha fé não tem regras,
regras são coisa de mulher.

A mulher sangre, é certo,
exceto quando fora da idade.
Um dia foi muito cedo,
amanhã será muito tarde.

Então dê asas ao desejo,
enquanto ele ainda lhe arde.
Espraie-se até os herdeiros,
deixe heranças sem calcular-se.

O cálculo atrapalha a vida,
que já mal se filtra,
se ele é renal.

Repito-me:
não fique mola encolhida,
só lhe pode fazer mal.
“hoje eu sei:
Só a mudança é permanente”,
não tem como pensar diferente!

(E ponto final.)

domingo, 22 de abril de 2018

AL-GHARB - Luís Carlos Patraquim

Pelo lagar da noite
Estremecem as amendoeiras

Corre no ar um tropel furtivo
Seus panos de azeite
E madeixas de sangue na corola
Das mulheres

Ela só lívida de azul e oiro
Ave do mundo

É a mãe diurna
Boca a boca multiplicada.

PRIMAVERA - Maria da Saudade Cortesão Mendes


A Musa que passava
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.

Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.

Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.

SE ME QUISERES CONHECER – Noêmia de Sousa



Se me quiseres conhecer,
estuda com olhos de bem ver
esse pedaço de pau preto
que um desconhecido irmão maconde
de mãos inspiradas
talhou e trabalhou
em terras distantes lá do Norte.
Ah, essa sou eu:
órbitas vazias no desespero de possuir a vida.
boca rasgada em feridas de angústia,
mãos enormes espalmadas,
erguendo-se em jeito de quem implora e ameaça,
corpo tatuado de feridas visíveis e invisíveis
pelos chicotes da escravatura...
Torturada e magnífica.
Altiva e mística.
África da cabeça aos pés
- Ah, essa sou eu!

Se quiseres compreender-me
vem debruçar-te sobre minha alma de África,
nos gemidos dos negros no cais
nos batuques frenéticos dos muchopes
na rebeldia dos machanganas
na estranha melancolia se evolando...
duma canção nativa, noite dentro...

E nada mais me perguntes,
se é que me queres conhecer...
Que eu não sou mais que um búzio de carne
onde a revolta de África congelou
 seu grito inchado de esperança.

DESENGANO – Paulo Brito e Abreu

Nos braços do Amor, o Fado amaro
Me pôs um dia cru, enraivecido;
Me pôs para sofrer, que o dolorido
E tenebroso Amor, me custou caro.

Em lágrimas e Dor, no desamparo,
Amor me foi algoz, e foi bandido;
Foi loucura este Amor, que o deus Cupido,
Por ser vidente e cego, é pomo raro.

Oh Dor, míseras tunas, meus enganos,
Tristes águas, alvor de mágoas mil:
Meu candor, que assim foi nas almas danos,

Seja alor, seja alegre e pastoril,
Que é triste eu ir morrendo anos e anos,
Como é vil, um Abreu não ter Abril.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

ABUSIVAMENTE – Tony Tcheka

A noite rotineira
A noite colonial
Foi vencida...
Vencida !!!
Banida!!!
Expulsa do nosso seio
Focos da Estrela Negra
Iluminaram a noite odiosa
Cantilenas... Spinoló Marcelistas
Metemo-las na mesma nau
                   (a tal que sulcava os mares)
Devolvêmo-las aos mares nunca dantes
Historietas...
Contos milagreiros...
Promessas, e... tudo o mais
Expedimo-las... e foram
Encalharam, na ponta de Sagres
Com o excesso do peso...
O peso das mortes
O peso dos corpos mutilados
O peso das torturas... Prisões! Sacrifícios!!!
O peso da fome...
Da subalimentação
O peso da História
História de dor e lágrimas
Imposta pela violência repressiva (abusivamente)
Mas é verdade
Vencidos... Banidos, expulsos, metidos na mesma nau
Encalharam... Lá... Para além do Cabo
Para não mais voltar...

RAIAR – Waldir Araújo

Desabrochei nas vésperas do cântico da liberdade
Cresci pueril emaranhado nos ecos de uma epopeia
Acreditando por ser acreditar a grande verdade
Entoei os cânticos de louvor à morte da centopeia

O tempo emprestou-me a tenacidade da dúvida
E do tempo, aliado me fiz e da dúvida a espada
Segui os rastos da vontade de entender tal vida
A realidade vislumbrou-me uma dureza pasmada

Questionei os dogmas para saber mais além
Cruzei saberes e dissabores na alma atormentada
E do além ainda distante, do saber muito aquém...
Exorcizei com versos a tormenta alimentada

No presente, nada mais é do que o não adquirido
Nada mais se disfarça para dúvidas semear
No presente, não mais vago é o caminho escolhido
Ladeando a realidade sim, com o sonho no limiar

domingo, 15 de abril de 2018

GIRASSÓIS – Luandino Vieira

Tem girassóis amarelos
o meu quadrado de sol

a vida espancada passa
mas no quadrado de sol
aberto sobre o jardim
os girassóis amarelos
velhos
mostram o fim

UMA FANTASIA DE CIÚME – Seamus Heaney

Tradução de Floriano Martins

Caminhando com você e outra mulher
Num parque arborizado, a grama murmurante
Corre os dedos através de nosso silêncio pensativo
E as árvores abertas dentro de uma sombria
Inesperada clareira onde nos sentamos.
Penso na candura da luz que nos assombrou.
Falamos sobre desejo e pessoas ciumentas,
Nossa conversa um simples roupão desatado
Ou uma branca toalha de piquenique estendida
Como um livro de etiquetas na imensidão.
"Mostra-me”, disse à nossa acompanhante,
“que tenho muito cobiçado o brilho violeta de teus seios.”
E ela consentiu. Oh nenhum desses versos, amor,
Nem minha prudência puderam curar seu olhar ferido.

O SOL TREMENDAMENTE AFRICANO – Samuel de Sousa

O sol tremendamente africano
risca caminhos de sangue sobre a sanzala

Na minha sanzala o sol tremendamente africano
enche as cabeças com o silêncio dos imbondeiros

e semelhantes ao sol o tapete enche os peitos
nas liturgias da puberdade com os sexos cheios de futuro

na minha sanzala o sol arde
enche os sexos
com apelos de amor

segunda-feira, 9 de abril de 2018

SUGESTÃO – Thiago de Mello

Antes que venham ventos e te levem
do peito o amor — este tão belo amor,
que deu grandeza e graça à tua vida —,
faze dele, agora, enquanto é tempo,
uma cidade eterna — e nela habita.

Uma cidade, sim. Edificada
nas nuvens, não — no chão por onde vais,
e alicerçada, fundo, nos teus dias,
de jeito assim que dentro dela caiba
o mundo inteiro: as árvores, as crianças,
o mar e o sol, a noite e os passarinhos,
e sobretudo caibas tu, inteiro:
o que te suja, o que te transfigura,
teus pecados mortais, tuas bravuras,
tudo afinal o que te faz viver
e mais o tudo que, vivendo, fazes.

Ventos do mundo sopram; quando sopram,
ai, vão varrendo, vão, vão carregando
e desfazendo tudo o que de humano
existe erguido e porventura grande,
mas frágil, mas finito como as dores,
porque ainda não ficando — qual bandeira
feita de sangue, sonho, barro e cântico —
no próprio coração da eternidade.
Pois de cântico e barro, sonho e sangue,
faze de teu amor uma cidade,
agora, enquanto é tempo.

Uma cidade
onde possas cantar quando o teu peito
parecer, a ti mesmo, ermo de cânticos;
onde possas brincar sempre que as praças
que percorrias, dono de inocências,
já se mostrarem murchas, de gangorras
recobertas de musgo, ou quando as relvas
da vida, outrora suaves a teus pés,
brandas e verdes já não se vergarem
à brisa das manhãs.

Uma cidade
onde possas achar, rútila e doce,
a aurora que na treva dissipaste;
onde possas andar como uma criança
indiferente a rumos: os caminhos,
gêmeos todos ali, te levarão
a uma aventura só — macia, mansa —
e hás de ser sempre um homem caminhando
ao encontro da amada, a já bem-vinda
mas, porque amada, segue a cada instante
chegando — como noiva para as bodas.

Dono do amor, és servo. Pois é dele
que o teu destino flui, doce de mando:
A menos que este amor, conquanto grande,
seja incompleto. Falte-lhe talvez
um espaço, em teu chão, para cravar
os fundos alicerces da cidade.

Ai de um amor assim, vergado ao vínculo
de tão amargo fado: o de albatroz
nascido para inaugurar caminhos
no campo azul do céu e que, entretanto,
no momento de alçar-se para a viagem,
descobre, com terror, que não tem asas.

Ai de um pássaro assim, tão malfadado
a dissipar no campo exíguo e escuro
onde residem répteis: o que trouxe
no bico e na alma — para dar ao céu.

É tempo. Faze
tua cidade eterna, e nela habita:
antes que venham ventos, e te levem
do peito o amor — este tão belo amor
que dá grandeza e graça à tua vida.

A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL - Manuel Alegre

Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.

E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.

Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.

E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atônito quem eras.

Por ti cheguei ao longe aqui tão perto
e vi um chão puro: algarves de ternura.
Qaundo vieste tudo ficou certo
e achei achando-te o País de Abril.