quinta-feira, 14 de junho de 2018

O POETA – Alceu Valença

O poeta não cresce, permanece imaturo,
Palhaço que mendiga riso e aplauso,
Sofrido, doído bem mais que inseguro,
Tristonho, carente, malandro e otário.

O poeta é sombrio, sozinho, noturno,
Um guará, um morcego, uma coruja.
Vive em dias castigados pela chuva,
A fazer versos tristes e encharcados.

O poeta vê seu verso atropelado
Pela rima, pelo som, pelo fonema.
Por e-mails, mensagens, telefonemas,
Por alguém que já pertence ao passado.

O poeta usa dor em seus poemas,
Sobretudo nas frias madrugadas.
Entre copos, garrafas e tragadas,
Ele chora para a amada sentir pena.
 
Quem sabe esse ser angustiado
Seja fruto de pesadas lembranças
Vida, traumas, desejos, inseguranças
Escondidas em gavetas do passado?

LIBERDADE – J. G. de Araújo Jorge

A liberdade é o meu clarim de guerra
e eu sou, no meu viver amplo e sem véus,
como os caminhos soltos pela terra,
como os pássaros livres pelos céus.

Ela é o sol dos caminhos! Ela é o ar
que enche os pulmões, é o movimento,
traz num corpo irrequieto como o mar
uma alma errante e boêmia como o vento.

Minha crença, meu Deus, minha bandeira,
razão mesma de ser do meu destino,
há de ser a palavra derradeira
que há de aflorar-me aos lábios como um hino.

Liberdade: Alavanca de montanhas!
Aureolada de louros ou de espinhos
há de cingir-me a fronte nas campanhas,
há de ferir-me os pés pelos caminhos.

Sinto-a viva em meu sangue palpitando
seja utopia ou seja ideal, - que importa?
Quero viver por esse ideal lutando,
quero morrer se essa utopia é morta!

CHROMO - Ibrantina Cardona


1868/1956
(Na ortografia original do Século XIX)

Vem abrindo a alvorada a rósea umbrela...
A formosa aldeã de amor suspira,
e ao meigo namorado um canto inspira,
no floreo peitoril de uma janela...

Distante, pelo mar côr de safira,
traçando à tona d´agua uma aquarela,
gaivotas vêm seguindo um barco a  vela...
Na serra, do marujo o canto expira...

E aqui, e ali, na várzea romanesca,
salta o alegre rebanho; um cysne preto
ondula da corrente a veia fresca.

Traça ao longe, um pintor esse esbocêto,
e a subir pela encosta pittoresco,
eu, descuidada, escrevo este soneto.

PALAVRAS FEIAS – Helena Ortiz

do escombro ao cotovelo
descendo
cintura sexo joelho
crescente carícia  em  cada
orifício
num afã de mãos
a latejar no escuro
senha sinal insistência
suposição talvez
de alguma improvável
resistência

explicação nenhuma
quem sabe vício
memória de outro poço
não importa
do pé ao pescoço
poema gemido
a partir da segunda estrofe
duma lonjura  (parecia)
chegavam  palavras  feias
(ele dizia tantas)

Sem nome ou dia definido
não sentir o chão
apenas vislumbrar seus dentes
brancos  bruscos  cintilantes
e o grave  (sábio)  movimento
dos duzentos dedos

PENÉLOPE ÀS AVESSAS – Fátima Ferreira


Bordo as ondas do cais
O sol, qual serpente enrolada no horizonte,
Fere o mastro de Brennand

Corro nas calçadas do bordado
Quando ventos enlouquecidos
Misto de maresia e cetim
Chegam nos corvos fantasiados

Bordo o cheiro da chuva
Nas folhas de alecrim
E cachoeiras tranças na menina
Vestida de por de sol

Subo as ribanceiras
Com os meninos verdes de cola e fome
E nessa trama me perco nos becos

Chego ao ponto alto
Maneira de viver prisioneira
Dos arranha-céus, irmãos dos pássaros

Esperança de um dia
A lei dos vencidos subir a ladeira
Sem agulha, seda, nem ponto-de-cruz

E as madames das academias
Com os medos presos nos músculos
Amamentarem os dias
Com seios inúteis de cirurgias

Bordo todos os dias o amor
Com o cordão das veias
E espero-te no abraço dos rios.

PEDRA – Carlos Rocha

Despi-me do orgulho,
De toda ambição
E até da esperança.
Dei-te meus olhos
E fiquei cego.
Dei-te meus lábios
E fiquei mudo.
Dei-te corpo e alma
E virei pedra.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

EU – Florbela Espanca

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida! ...

Sou aquela que passa e ninguém vê ...
Sou a que chamam triste sem o ser ...
Sou a que chora sem saber porquê ...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

CADÊ – José Paulo Paes


Nossa! que escuro!
Cadê a luz?
Dedo apagou.
Cadê o dedo?
Entrou no nariz.
Cadê o nariz?
Dando um espirro.
Cadê o o espirro?
Ficou no lenço.
Cadê o lenço?
Dentro do bolso.
Cadê o bolso?
Foi com a calça.
Cadê a calça?
No guarda-roupa.
Cadê o guarda-roupa?
Fechado a chave.
Cadê a chave?
Homem levou.
Cadê o homem?
Está dormindo
de luz apagada.
Nossa! que escuro!

PRESSÁGIO – Fernando Pessoa

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar pra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

sábado, 9 de junho de 2018

CAMINHOS - Flávia Savary

Os caminhos seguem
diferentes caminhos.
Tem os sem eira nem beira,
e os que se perdem na poeira.
Tem os aéreos, etéreos,
e os caminhos de ferro.
Há os que são subterrâneos
e os que são mediterrâneos:
brincam de água, são quase crianças.
Tem os retos, sem curvas -
esses não gostam de mudanças.
Uns são solitários, ermos;
outros se enchem de romeiros.
E aqueles outros,
os que não estão no mapa?
Caminho de fogo, caminho da onça,
caminho de vento, caminho da roça.
Pra quem quiser, tem caminho.
Basta tino e seguir o próprio destino.

SONO CÓSMICO - Célia Musilli

há dias em que não sabemos
a que tribo pertencemos
a que rio
a que pântano
a que reino em flor
em barro
quinta-essência
carne e lágrima
matéria enigmática
poeira galáctica
que expele o futuro dos homens
mas não há nada
que os deuses confabulem
que valha perder o barulho
da chuva
e aí, tanto faz,
inseto, planta,
a humanidade possível
a expressão do inexprimível
que oscila entre a solidão
e a beleza destinada à
construção das pétalas
ou das palavras
eu, mulher mandrágora,
bebo o orvalho dessa noite
e estico mebros
seivas e raízes.
enfeitiçada pela vida
alcanço o húmus
das árvores dos quintais
e, sem incomodar ninguém,
volto à terra
adormecendo em meu sono
de auroras boreais.

A CONVIDADA - Genny Marcondes

Para o festim que se inaugura agora
mal preparada vou e enfraquecida
o convite chegou fora de hora
e, sabem, sempre fui tão distraída
Os atavios de outrora são inúteis
assim também perfumes e ouropéis
Fiquem guardados túnicas inconsúteis
as tintas, as paletas, os pincéis
Esboço ainda úmido na prancheta
os versos nos cadernos, indefinidos
e pastas de projetos na gaveta
Que sigam só o corpo bem lavado
o rosto limpo, os cabelos lisos
as mãos tranquilas, o olhar cerrado.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

LUA ENCABULADA - Antonio Carlos Gomes

Lua acanhada
Olhava o mar
A água agitada
Foi lhe afagar

Sonha encabulada
A lua a vagar
A água evaporação
Quer acariciar

Luz e água
Infinito e mar
É madrugada

A boemia é água
Também luar
Jogo de amar

VISÃO SIMPLES E PURA- Ana Maria Costa Félix

E foi assim
que a marca do tempo foi vista:

Pequena
para tantos enganos

Média
para alguns encantos

Grande
para poucos sonhos

Pouca
para tantos seres

Muita
para poucos amanheceres

Perto
para muitos quereres

Longe
para tantos credos e dizeres