quinta-feira, 24 de maio de 2018

RASGO - Monica Marques

Trago o tempo entre os dentes
É preciso morder a existência pelas bordas
para que não escape

É necessário rasgar a carne
para o que está dentro
possa vir à tona

Rasgar entre a luz e a fumaça
Mexer as imagens com os dedos
Acordar entre a loucura e poesia
Sonhar até ficar vazia

Não há mais delicadeza
Apenas pólvora queimando sem rima
Poesia frita em óleo sujo
Translucidez

Ser é tempo iluminado
Que se desdobra em sua espessura
E vira a esquina

UM MARINHEIRO E O RECIFE – Pedro Américo de Farias

Indiferente
à verdade e à fantasia

ao traçado do primeiro
e do último arquiteto

à lógica que não seja
a do olho e do tato

ao amor louco dos bêbados ansiosos
e à auto-flagelação dos ressacados

ao deslumbramento do turista aprendiz de hoje
e à lamentosa tortura dos passadistas

à complacência dos podres poderes
e à penitência dos pobres beatos

um marinheiro
pinta para si mesmo
a rua que lhe convém

diminui distâncias e aproxima o porto
desmancha a topografia
recompõe a cidade
sem perder de vista
o mar e a linha do horizonte

POCILGA – Rafael Rocha

Do livro “Ômega & Alfa”

Na curva dos caminhos dos porcos
o tempo estacionou taciturno
apagou a luz da rua
trouxe o vento frio
e pintou o horizonte de nada.

Homens gritaram crueldades
o dia fez-se vagabundo
e os poderosos filhos das putas:
sargentos, coronéis, generais,
deputados, senadores, ministros
abriram os cadafalsos
e despejaram neles as línguas dos vivos.

A sirene do calabouço tocou ao longe
e o chicote do feitor vibrou na escuridão.
Na curva dos caminhos dos porcos
os proprietários das pocilgas da pátria
levaram repasto de merda para o povo.

AVE APRENDIZ - Susanna Busato

Escondidas nas pernas
minhas perdas:
suas penas
de ave aprendiz.
Voam baixo
sob os últimos raios
do nosso eterno
olhar cicatriz.
Voam rentes agora e sempre
as penas à pele a sentir
e como presas se rendem
e entre as pernas se perdem
e cantam um não existir.

ÍNTIMO – Valentim Magalhães

Esta alegria loura, corajosa,
Que é como um grande escudo, de ouro feito,
E faz que à Vida a escada pedregosa
Eu suba sem pavor, calmo e direito,
Me vem da tua boca perfumosa,
Arqueada, como um céu, sobre o meu peito:
Constelando-o de beijos cor de rosa,
Ungindo-o de um sorriso satisfeito…
A imaculada pomba da Ventura
Espreita-nos, o verde olhar abrindo,
Aninhada em teu cesto de costura;
Trina um canário na gaiola, inquieto;
A cambraia sutil feres, sorrindo,
E eu, sorrindo, desenho este soneto.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONETO DA PALAVRA NUA - Carla Nobre

Quero para minha poesia
Todas as palavras nojentas
As obscuras, as ambíguas
Uma linguagem piolhenta

Não me envergonho das minhas escolhas
Minha palavra é minha pepita
Catarro, mentira, dor, sangue
Suvaco, urubus, bruxaria, bauxita

Todas as palavras são bem vindas
E com elas as penas, a moela, as tripas
E todos os seus sentimentos e suas histórias

Das mais tristes às mais lindas
Fico com o verbo parir
E toda a sua memória

ESP-HERANÇA – Ádyla Maciel

O que nos acende e o que nos apaga
São os nossos desejos e ideologias
Ninguém está preparado pra nascer

Ninguém conhece o real segredo
Do mistério indecifrável de nossa existência.
Existe uma lei natural e inatingível

Mas se nesse momento você tiver audição
Pare e ouça o assovio do vento
É o cosmo paquerando sua vibração

Pega aquela concha antiga
Pega aquela concha e põe perto do ouvido
E Escuta o barulho do mar

O barulho do mar não é um barulho
É um código, um dialeto.
Como as cordas vocais dos elefantes

Comunique-se com o sol, com o vento
Dance com as árvores
Seja o que você quiser !

E quando sua carne apodrecer e desaparecer
Feito um gambá atropelado na estrada
Entregue sua caixinha de segredos para a humanidade

Lições, um punhado de amor, um legado de poesia e paz
Quando morreres não se esqueça de ser eterno
Eternize suas ideias influencie gerações

Como Drummond e Dumont voe em sua própria criação
Comunique-se com as ondas,
porque até a morte tem algo a nos dizer.

REBELDIA - Adélia Maria Woeliner

Para não repetir
o modelo
que me apresentaram,
escrevi roteiro contrário.
Fixação insana,
não ser igual.
Desperdício e cansaço.

Acordei.
Soltei balaios
de rebeldias e sofrimentos.
                                      
Moldes vazios,
insinuo passos que são só meus
e jeito próprio de andar,
para escrever
outro enredo,
nova história...

MAINHA – Kátia Drummond



Quando eu era criança, ainda me lembro,
menina da rua, fugaz andorinha,
eu via os homens entrando e saindo.
Malditos ladrões. E perversos bandidos.
Querendo prazeres, todos mal vividos,
buscavam o corpo da minha mainha.
Na mesma alcova. Bem onde eu dormia,
sem cama e coberta. Deitada no chão.
No colo onde eu jamais me deitaria.
Na casa que eu pensava que era minha.

Alguns davam doces. E outros, brinquedos.
Pequenas bonecas vestidas de trapos.
E eu, curiosa, pensava comigo:
Por que tantos homens entrando e saindo?
O que é que eles fazem? Parecem farrapos!
Às vezes ficava quietinha, espiando.
Nas pontas dos pés. Infeliz bailarina.
Sem mesmo saber que ali, do outro lado,
mainha traçava pra mim minha sina.

Aquela mulher, já exausta da lida,
chorava baixinho pra ninguém ouvir.
E eu já crescida, menina perdida,
fui vendo em meu corpo o preço da vida.
Odiei os homens. Desejei partir.
Pensei em tirar a mainha da luta.
Mas ela me olhava e com raiva dizia,
gritando aos brados, no maior desdém:
"Se manda daqui. Vai, menina vadia.
Que filha de puta, é puta também."

segunda-feira, 14 de maio de 2018

POETA – Xavier de Carvalho

Sobre o largo portal do castelo onde mora
Meu grande coração de escritor insubmisso,
Inundada na luz de um resplendor de aurora,
Há uma lira de Rei feita de ouro maciço.

Ao meu trono enfrentar, trono de ouro inteiriço,
Curvam-se as vibrações da Palavra Sonora...
-E, embora seja o aplauso obrigado e postiço,
As mãos de muitos reis batem-me palma, embora!

Um soneto ao fazer, cheio de versos lautos,
Partem do meu palácio uma porção de arautos,
Lembrando o meu poder pela voz de cem trompas!

E os vendilhões, então, do amplo templo do Metro
Fogem em debandada ao fulgor de meu cetro
Feridos pelo Estilo e embriagados de Pompas!

IMORTAL – Vivita Cartier

Tenho o corpo abatido, o olhar tristonho;
recôndita opressão me esmaga o peito;
falta-me o ar, nunca respiro a jeito;
se me obrigam a andar, logo me oponho.

No espaço indefinido os olhos ponho,
atirada, sem forças, sobre o leito.
E penso… penso nesse gozo eleito
duma vida futura, com que sonho…

Embora humilde, resignada embora,
        sucumbo ao negro horror que me apavora,
        se pressinto um tormento prolongado.

E anseio pela queda da matéria,
para minh’alma, em escalada etérea,
        chegar, enfim, ao mundo desejado…

VIRTUAL – Terêsa Tenório

No epicentro das ondas invisíveis
edifiquei mandalas para os celtas
habitantes dos últimos milênios
guelras de peixes e barbatanas retas

Onde o mar arrastara nossas redes
para morder-nos tênues fios de espera
o fluir das espumas retalhou
os tecidos da carne contra as pedras

nos módulos lunares dissolvi
toda a sombra da superfície líquida
seus cardumes de tubarões-martelo

entre indormidos teoremas míticos
arremessei ao lume destes versos
nossa imagem virtual de estranhos ritos