quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

SONO DA BALZAQUIANA - Rafael Rocha

Qual sonho dança na bela escultura adormecida,
mulher em parecença de anjo a viver na mudez
do belo corpo onde anseios voejam (aves atrevidas)
como se paixões chegassem pela primeira vez?

Seus segredos dormem em completa languidez
e o poeta busca avistá-los com um triste olhar,
tentando escutar sussurros, mas a sua surdez
não ajuda a imaginação no versejar.

Fica assim! Durma nessa tranquilidade humana!
Tenha os sonhos mais atrevidos com que possa
mergulhar nas correntes de luxúria da sua vida.

Mesmo que o corpo durma, a alma balzaquiana
viaja a rituais de amor, onde a vivaz paixão se apossa,
adorando no sonho o prazer de ser apetecida.

O INDIFERENTE – John Donne

in “Poemas Eróticos”
Tradução de Helena Barbas
 
Posso amar tanto louras como morenas,
A que cede à abundância e a que trai por pobreza,
A que busca a solidão e a que se mascara e brinca,
Aquela que o campo cultivou e a da cidade,
A que acredita, e a que hesita,
A que ainda lacrimeja com olhos esponjosos,
E a rolha seca que nunca chora.
Eu posso amar essa e esta, e tu, e tu,
Posso amar qualquer uma, desde que não seja leal.

Nenhum outro vício vos satisfará?
Não vos será útil fazer como as vossas mães?
Ou, gastos todos os velhos vícios, inventaram novos?
Ou atormenta-vos o medo de que os homens sejam fiéis?
Oh, não o somos, não o sejais vós também,
Deixai-me conhecer, eu e vós, mais de vinte.
Roubem-me, mas não me prendam, deixai-me ir.
Devo eu, que vim a estas dores através de vós
Tornar-me vosso fiel súdito, porque sois leais?
 
Vênus ouviu-me suspirar esta canção,
E pela maior doçura do amor, a variedade, jurou
Que a não ouvira até então, e não mais seria assim.
E foi-se, investigou, e depressa regressando
Disse: “Enfim, existem umas duas ou três
Pobres heréticas do amor
Que pretendem instaurar a perigosa constância.
Mas eu disse-lhes: Dado que pretendeis ser leais,
Sereis leais para com aqueles que vos sejam falsos”.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

SONETO DE AMOR – José Régio

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

ENVOI (1919) – Ezra Pound



Tradução de Augusto de Campos
Vai, livro natimudo,
e diz a ela
que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
mais canção, menos temas,
então se acabariam minhas penas,
meus defeitos sanados em poemas
para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
tais tesouros no ar,
sem querer nada mais além de dar
vida ao momento,
que eu lhes ordenaria: vivam,
quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
rubribordadas de ouro, só
uma substância e cor
desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
com a canção nos lábios
mas não canta a canção e ignora
quem a fez, que talvez uma outra boca
tão bela quanto a dela
em novas eras há de ter aos pés
os que a adoram agora,
quando os nossos dois pós
com o de Waller se deponham, mudos,
no olvido que refina a todos nós,
até que a mutação apague tudo
salvo a Beleza, a sós.

UMA FACA SÓ LÂMINA - João Cabral de Melo Neto

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse um
vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A ADORMECIDA – Paul Valery


Tradução de Augusto de Campos

Que segredo incandesces no peito, minha amiga,
Alma por doce máscara aspirando a flor?
De que alimentos vãos teu cândido calor
Gera essa irradiação: mulher adormecida?

Sopro, sonhos, silêncio, invencível quebranto,
Tu triunfas, ó paz mais potente que um pranto,
Quando de um pleno sono a onda grave e estendida
Conspira sobre o seio de tal inimiga

Dorme, dourada soma: sombras e abandono.
De tais dons cumulou-se esse temível sono,
Corça languidamente longa além do laço,

Que embora a alma ausente, em luta nos desertos,
Tua forma ao ventre puro, que veste um fluido braço,
Vela, Tua forma vela, e meus olhos: abertos.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

XADREZ – Jorge Luiz Borges

Em seu grave rincão, dois jogadores
regem peças, sem pausa. O tabuleiro
os prende até a aurora no certeiro
âmbito em que se odeiam duas cores.

Dentro irradiam mágicos rigores.
As formas: torre homérica, ligeiro
cavalo, audaz rainha, rei guerreiro,
bispo oblíquo e peões ameaçadores.

Quando os rivais já se tiverem ido,
quando o tempo os houver já consumido,
por certo não terá cessado o rito.

O Oriente é a origem dessa guerra
cujo anfiteatro é hoje toda a terra.
Como o outro, este jogo é infinito.

IDEALISMO – Augusto dos Anjos

Falas de amor, e eu ouço tudo e calo!
O amor da Humanidade é uma mentira.
É. E é por isso que na minha lira
de amores fúteis poucas vezes falo.

O amor! Quando virei por fim a amá-lo?!
Quando, se o amor que a Humanidade inspira
é o amor do sibarita e da hetaíra,
de Messalina e de Sardanapalo?!

Pois é mister que, para o amor sagrado,
o mundo fique imaterializado
- Alavanca desviada do seu fulcro -

E haja só amizade verdadeira
duma caveira para outra caveira,
do meu sepulcro para o teu sepulcro?!

sábado, 13 de janeiro de 2018

MUTATIS MUTANDIS - Bartyra Soares

Tomo a forma do mar.

Se é preciso que em minhas águas

navegue o vento e em mim

o sol refaça caminhos

de impulsos e chamas verdes

não me furto ao compromisso que hoje

me impõe esta manhã.

 

Minhas águas de sal e segredo

ferem-se na aspereza dos corais

e por não ser lâmina e por não

ser espinho não tenho

como revidar.  Deixo que minha dor

em mim desabe.  Recolho meu grito

de incertezas e convicções.

 

E quando a última gaivota

da tarde no poente pousar

a sombra do seu cansaço

só então serei quem fui.

Assim sobre penhascos

e dunas não mais depositarei

lembranças e sargaços.

AO TEMPO – Dante Milano



Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,

Ou existir é urna continua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?

OS “POLÍTICOS” - Juareiz Correya

(de “Canção Portátil”)

os “políticos” todos os dias
ensaiam as mesmas loas
e o homens cantam,
remontam os mesmos figurinos
e os homens copiam,
repetem os mesmos chavões
e os homens aplaudem,
discursam as mesmas louvações
e os homens se encantam,
mantêm as mesmas lutas
e os homens lhes seguem,
recitam as mesmas cartilhas
e os homens publicam,
usam os mesmos métodos
e os homens arrebanham-se,
postulam os mesmos credos
e os homens guerreiam,
revivem a mesma vida
e os homens matam-se.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

BRASÍLHA-ME… - Gustavo Dourado

Brasília: voou além do signo da cruz:
Dantes:…Era altiplano de suave luz…
Devastidão tortuosa, ex-mar-cerrado:
Virevi LúciOscarte, JK no céu-sol alado…

Urbi Sempiterna, fantasia, cidade-estado:
Sonho de Dom Bosco, poema de Bernardo…
Planaltina cosmovisão dos Inconfidentes:
Antevista por Bonifácio, Cruls e Tiradentes…

Nave, musa, deu$a, fada, fênix na luacheia…
Multigaláxia, dura irrealidade, concrevia:
Árdua solidão no silên cio ensimesmado…

Na Espla.nada: projeta-se nosso dia-a-dia:
Programa-se o futuro dum ser milimetrado:
Sempre-viva, calliandra, girassol, nave-sereia…

TRISTEZA – Ivan Junqueira

Esta noite eu durmo de tristeza.
(O sono que eu tinha morreu ontem
queimado pelo fogo de meu bem.)
O que há em mim é só tristeza,
uma tristeza úmida, que se infiltra
pelas paredes de meu corpo
e depois fica pingando devagar
como lágrima de olho escondido.

(Ali, no canto apagado da sala,
meu sorriso é apenas um brinquedo
que a mãozinha da criança quebrou.)

E o resto é mesmo tristeza.

SOBRE UM POEMA - Herberto Helder

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.