domingo, 7 de abril de 2019

A VOZ – Thomaz Hardy

Tradução de Fernando Py

Mulher que muito errou, tanto e tanto me chama
Agora assegurando já não ser como antes
(Quando deixou de ser a que me fora tudo),
Mas igual à do início, em nossos dias lindos.

Será você quem ouço? Então, deixe-me vê-la
Imóvel, como quando fui para a cidade
Onde você me aguardaria; e eu até
Mesmo lhe conhecia a saia azul-celeste!

Ou é somente a brisa, em sua indiferença,
Que atravessa a úmida campina a me encontrar,
E você sempre envolta em frieza malsã,
Desatenta, abatida, e sem ouvir mais nada?

E assim estou; cambaleante,
Folhas caindo a meu redor,
O vento mal soprando pelos espinheiros
Do norte; e a mulher chamando.

OPERETA – Ivan Miziara

Em tudo que busquei
restou o olhar atilado
e frio do silêncio.
Se por acaso buscasse
o vinho do teu corpo
- carnívoro e voraz -
talvez assim saciasse
a sede do teu olhar.

DO PROGRESSO NAS PROFISSÕES – Adriano Scandolara

Não se vê daqui, mas sei
que a prostituta na rua
tem um olho de vidro,

É mais aparente o gancho
na mão esquerda
ou, mais à luz, sob o poste
a prótese

da perna.

A insaciedade da fome de carne
que tem que se satisfazer
com borracha.

É tempo de fetiches, pessoas
que se fazem fetiches.
Servir-se
da prostituta na rua
não era tanto sexo com gente
quanto era sexo
com coisa
tevê, geladeira,
sonho transerótico do transumanista.

sexta-feira, 5 de abril de 2019

CANTARES DE SULAMITA – Dalton Trevisan

Cantar 1

Se você não me agarrar todinha
aqui agora mesmo
só me resta morrer

se não abrir minha blusa
violento e carinhoso
me sugar o biquinho dos seios
por certo hei de morrer

estou certa perdidamente certa
se não me der uns bofetões estalados
não morder meus lábios
não me xingar de puta
já hei de morrer

bata morda xingue por favor
morrerei querido morrerei
se você não deslizar a mão direita
sob a minha calcinha
murmurando gentilmente palavras porcas

sem dúvida hei de morrer
também certa a minha morte
se você não acariciar o meu púbis de Vênus
com o terceiro quirodáctilo
já caio morta de costas
defuntinha
toda morta de morte matada

morrerei gemendo chorando se você titilar
a pérola na concha bivalve
morrerei na fogueira aos gritos
se não o fizer

amado meu escuta
se você não me ninar com cafuné
me fungar no cangote
mordiscar as bochechas da nalga
me lamber o mindinho do pé esquerdo
juro que hei de morrer
certo é o meu fim

te peço te suplico
meu macho meu rei meu cafetão
eu faço tudo o que você mandar
até o que a putinha de rua tem vergonha

eu fico toda nua
de joelho descabelada na tua cama
eu fico bem rampeira
ao gazeio da tua flauta de mel
eu fico toda louca
aos golpes certeiros do teu ferrão de fogo
ereto duro mortal
oh meu santinho meu puto meu bem-querido
se você não me estuprar
agora agorinha mesmo
sem falta hei de morrer

se não me currar
em todas as posições indecentes
desde o cabelo até a unha do pé
taradão como só você
é certo que faleci me finei
todinha morta

se não me crucificar
entre beijos orgasmos tabefes
só me cabe morrer
minha morte é fatal
de sete mortes morrida
morrinha de amor é Sulamita
...................
Cantar 2

Oh não amado meu
moça honesta já não sou
e como poderia
se você me corrompeu até os ossos
ao deslizar a mão sob a minha calcinha
acariciou a secreta penugem arrepiada?

como seria honesta
se você me deitou nos teus braços
abriu cada botão da blusa
sussurrando putinha no ouvido esquerdo?

se pousou delicadamente sem pressa
a ponta dos dedos nos meus mamilos
até que ficassem duros altaneiros
apontando em riste só pra você?

maneira não há de ser moça direita
depois de ter as bochechas da nalga
mordidas por teu canino afiado
que gravou em brasa para sempre
com este sinal sou tua

não nenhum resto de pureza
assim que descerrou os meus lábios
dardejando a tua língua poderosa
na minha enroscada em nó cego
minha enroscada em nó cego

como ser mocinha séria
depois de beijar todinho o teu corpo
com medo com gosto com vontade
de joelho descabelada mão posta
à sombra do cedro colosso do Líbano
mil escudos e troféus pendurados

é possível ser moça de família
se me sinto a rosa de Sarom
orvalhada da manhã
com um só toque do teu terceiro quirodáctilo?

Ai precioso amado querido
meu corpo tem memória e febre
meu puto me abrace me beije
sirva-se tire sangue me rasgue inteira
satisfaça a tua e a minha fome
finca o teu pendão estrelado
onde ele deve estar

oh não meu príncipe senhor da guerra
mocinha séria já não sou
me boline devagarinho
no uniforme de gala da normalista
atenção às luvas brancas de renda
me derrube na tua cama
de lado supina de bruços
me desnude diante do espelho
me arrume de pé dentro do armário
me ponha de quatro

me faça de carneirinha viciosa do bruto pastor
me violente sem dó com firmeza
só isso mais nada

sim bem-querido meu
sou putinha feita pra ter servir
me abuse desfrute se refocile

quero sim apanhar de chicotinho
obedecer as ordens safadas
submissa a todos os teus caprichos
taras perversões fantasias
quais são? como são? onde são?

me diga como posso ir à igreja
de véu no rosto Bíblia na mão
se você afastou com dois dedos firmes e doces
o mar vermelho entre as minhas pernas
expondo à vista ao ataque frontal
meu corpinho ansioso e assustado
me estuprou me currou me crucificou?

quando separou os joelhos
abrindo as minhas coxas
um querubim fogoso
de delícias me cobriu
com sua terceira asa de sarça ardente

como ser moça ingênua
se antes sou uma grande vadia
o teu exército com fanfarras desfilando
na minha cidadela arrombada?

ai quero te dar até o que não tenho
amado meu santuário meu
quero ser a tua cadelinha mais gostosa
como nunca terá igual
serei vagabunda eu juro
todas as posições diferentes
todos os gemidos gritos palavrões
todas as preces atendidas

desfaleço de desejo por você só você
montar o teu corpo cândido e rubicundo
é galopar no céu
entre corcéis empinados relinchantes

vem ó princesa minha
depressa vem ó doce putinha
aos gritos fortes do rei que batem à porta
o meu coração se move
salta de um a outro lado do peito
já se derretem as minhas entranhas
o rosto do amor floresce neste copo dágua

eu sou tua você é meu
por você inteirinha me perco
quem fez de mim o que sou?
sim amado meu
sou virgem princesa concubina
égua troteadora no carro do Faraó
vento norte água-viva
sou rameira tua rampeira Sulamita

lírio-do-vale pomba branca
morrendinha de tanto bem-querer
até que sejamos um só corpo
um só amor
um só

SONETO Nº 3 – Bruno Menezes

Sempre que as nossas mãos entrelaçadas
se unem, e o teu olhar no meu repousa,
um ar de espanto, bocas assustadas,
nenhum de nós qualquer palavra ousa...

Anjo noturno de funérea lousa
inibe a tua voz apaixonada;
e ao te querer dizer alguma cousa,
não encontro uma frase desejada.

É que ambos ocultamos na lembrança
um grande amor, que foi desesperança,
sem florescer nos meus, nos teus carinhos...

E então, se um dia, já nos separamos,
nós nos sentimos, se um olhar trocamos,
"Quanto mais juntos, tanto mais sozinhos.

ÉDIPO – Guto Leite

enquanto buscam os monges
nos óculos das lunetas
suas verdades imensas

e os cientistas chafurdam
nos vidros curvos de ensaio
cada ausência do átomo

eu cerro meus olhos
mais certo que os fatos
vão fora dos corpos