quarta-feira, 3 de julho de 2019

PROTESTO – Carlos de Assumpção


Mesmo que voltem as costas
às minhas palavras de fogo
Não pararei de gritar
Não pararei
Não pararei de gritar

Senhores
Eu fui enviado ao mundo
Para protestar
Mentiras ouropéis nada
Nada me fará calar
Senhores
Atrás do muro da noite
Sem que ninguém o perceba
Muitos dos meus ancestrais
Já mortos há muito tempo
Reúnem-se em minha casa
E nos pomos a conversar
Sobre coisas amargas
Sobre grilhões e correntes
Que no passado eram visíveis
Sobre grilhões e correntes
Que no presente são invisíveis
Invisíveis mas existentes
Nos braços no pensamento
Nos passos nos sonhos na vida
De cada um dos que vivem
Juntos comigo enjeitados da Pátria

Senhores
O sangue dos meus avós
Que corre nas minhas veias
São gritos de rebeldia
Um dia talvez alguém perguntará
Comovido ante meu sofrimento
Quem é que está gritando
Quem é que lamenta assim
Quem é?
E eu responderei
Sou eu irmão
Irmão, tu me desconheces?
Sou eu aquele que se tornara
Vítima dos homens
Sou eu aquele que sendo homem
Foi vendido pelos homens
Em leilões em praça pública
Que foi vendido ou trocado
Como instrumento qualquer
Sou eu aquele que plantara
Os canaviais e cafezais
E os regou com suor e sangue
Aquele que sustentou           '
Sobre os ombros negros e fortes
O progresso do país
O que sofrera mil torturas
O que chora inutilmente
O que dera tudo o que tinha
E hoje em dia não tem nada
Mas se hoje grito não é
Pelo que já se passou
O que se passou é passado
Meu coração já perdoou
Hoje grito, meu irmão,
 porque depois de tudo
A justiça não chegou

Sou eu quem grita sou eu
O enganado no passado
Preterido no presente
Sou eu quem grita sou eu
Sou eu, meu irmão, aquele
Que viveu na prisão
Que trabalhou na prisão
Que sofreu na prisão
Para que fosse construído
O alicerce da nação

O alicerce da nação
Tem as pedras dos meus braços
Tem a cal das minhas lágrimas
Por isso a nação é triste
É muito grande mas triste
E entre tanta gente triste
Irmão, sou eu o mais triste
A minha história é contada
Com tintas de amargura

Um dia sob ovações e rosas de alegria
Jogaram-me de repente
Da prisão em que me achava
Para uma prisão mais ampla.
Foi um cavalo de Tróia
A liberdade que me deram
Havia serpentes futuras
Sob o manto do entusiasmo.
Um dia jogaram-me de repente
Como bagaços de cana
Como palhas de café
Como coisa imprestável
Que não servia mais pra nada.
Um dia jogaram-me de repente
Nas sarjetas da rua do desamparo
Sob ovações e rosas de alegria.
Sempre sonhara com a liberdade
Mas a liberdade que me deram
Foi mais ilusão que liberdade

 Irmão, sou eu quem grita
Eu tenho fortes razoes
Irmão, sou eu quem grita
Tenho mais necessidade
De gritar que de respirar.

Mas, irmão, fica sabendo
Piedade não é o que eu quero
Piedade não me interessa
Os fracos pedem piedade
Eu quero coisa melhor
Eu não quero mais viver
No porão da sociedade
Não quero ser marginal
Quero entrar em toda parte
Quero ser bem recebido
Basta de humilhações
Minha alma já está cansada
Eu quero o sol que é de todos
Ou alcanço tudo o que eu quero
Ou gritarei a noite inteira
Como gritam os vulcões
Como gritam os vendavais
Como grita o mar
E nem a morte terá força
Para me fazer calar

terça-feira, 2 de julho de 2019

UM CONSELHO DO ADMINISTRADOR DESTE BLOG


MARACATU - Ascenso Ferreira

Zabumba de bombos,
Estouro de bombas,
Batuques de ingonos,
Cantigas de banzo,
Rangir de ganzás...

- Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda, Luanda, onde estás?

As luas crescentes
De espelhos luzentes,
Colares e pentes,
Queixares e dentes
De maracajás...

- Luanda, Luanda, onde estás?
Luanda, Luanda, onde estás?

A balsa do rio
Cai no corrupio
Faz passo macio,
Mas toma desvio
Que nunca sonhou...

- Luanda, Luanda, onde estou?
Luanda, Luanda, onde estou?

O XADREZ - Cristina Garcia Lopes

o corpo que se dobra
no ar, ágil
e suntuoso

branco e preto:
a pele e o cabelo
sobre o cinza invisível
dos ossos

para a destreza
houve convergência
de todas as partes

se fosse assim dividido:
o olhar doído
a mão indefesa

o corpo que se dobra
frágil
aos jogos do amor

NOITE – Álvaro Alves de Faria

Melhor é ter um cão
com quem se possa conversar,
especialmente à noite.

Melhor é ter um cão
para em silêncio ser ouvido,
como se palavras não existissem
nem conversas,
nem dizeres.

Com um cão as palavras
são desnecessárias.

Nesta sala vivemos quietos
diante da janela
e isto nos basta.

SALTIMBANCOS – Carla Andrade

A vida é só um picadeiro de circo
Quando notamos...

Foram-se as lâminas certeiras
dos atiradores ciganos
restaram véus de purpurinas.

Apenas as lembranças rodopiam.
Ecoam em algum lugar aqui dentro
como cambalhotas sapecas.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

ABSTRATO – Mariana Botelho

eu nunca beijei um poema.

no entanto ele está aqui
roçando leve minha
boca

nas horas dos
mais
doídos
silêncios

FELICIDADE – Raymond Carver

Tradução de Cide Piquet

Tão cedo que ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e tudo aquilo que sempre a essa hora
nos passa pela mente.

Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles traz uma mochila nas costas.
Estão tão felizes
que nem sequer conversam, os garotos.

Acho que, se pudessem, estariam até
de braços dados.
É de manhã bem cedo
e os dois caminham lado a lado.

Lentamente, eles vêm vindo.
O céu começa a clarear,
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor,
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.

DESSEMELHANÇAS – Lenilde Freitas

Do lugar em que estou
vejo a calçada do outro lado
e um cachorro que passa
triste como quem fareja
a própria morte.
Aqui, enquanto dois relógios batem
dessemelhantes idêntica hora,
uma vespa insiste
rancorosos declives no vácuo
onde adivinho partículas
de poeira imitando cardumes
— pois só tenho olhos para uma coisa:
o cão subindo a rua
que, sendo a mesma, muda de nome
a alguns quarteirões daqui.

DEDOS - Ronaldo Costa Fernandes

Meus dedos têm desertos.
Há areia fina na minha vontade.
Meus dedos são hipótese
como gaiola vazia.
Não têm tato,
só conhecem o tagarelar dos acenos.

Meus dedos demoram a pensar.
Têm memória curta.
Têm a surpresa do estalo,
mas não regulam bem,
cada qual em seu drama:
a polegada de vida medida,
o fura-bolo do desatino,
o maior-de-todos os descompassos,
seu-vizinho do medo de viver
e a vida mindinha que se leva.

AÇÚCAR – Amélia Alves

é verde e veio
de cana caiana
sangrando
o suco operário
de muitos suores
e caldos
melados
fermentos
cachaça
melaço
e canaviais
roçados
de calos
nos pés e nas mãos
e bóia fria
marmita
- aceiros intermináveis
e joios e pedras
e foices
e folhas secas
estalando miséria.

SIMPLICIDADE - Maria Thereza Noronha

O que por mar vier não sendo barco
alga coral peixe retardatário
será de mim o que deixei alhures:
praia perdida de remoto mar.

O que por ar vier não sendo asas
— aeronave ou ave migratória —
rumor será de vento nas acácias:
rota antiga de um sonho perdulário.

O que por terra vier será bem-vindo
como bem-vindas são as coisas simples,
estratégia e rotina se alternando:
legada a insanidade aos altos píncaros.

CODA – Jorge Wanderley

Vão resistir alguns subúrbios
das lembranças, na escuridão.

Um rosto de arquivo morto
que a nada se relaciona;

certo abraço de amor
sem nenhum sexo;

um gole d'água,
a sede que o iluminava

mais que o sol daquela outra
manhã também casual;

o acorde de uma música
não eleita;

o de outra, amada;
o pátio, na sombra

que o verso viu
e nunca povoou;

palavras soltas;
talvez dor;

e o que é de barcos e portos,
partir, chegar.

domingo, 30 de junho de 2019

LIÇÃO DE CASA – Talis Andrade

Pernambuco todas as vezes que se revoltava
lhe cortavam um pedaço de terra
e arcabuzavam os libertários
os corpos enterrados
na Igreja de Santo Antônio
Os nascidos pobres enforcavam
os corpos atirados aos cães
Pernambuco aprendeu a lição
Para conservar o chão
que restava se aquietou
Lavou o sangue que ficou
e nunca mais pensou em revolução

IDENTIFICADO RECIFE – Juareiz Correya

hoje amanheci domingo
estou cedo pelo Recife deserto
as possibilidades são raras
nesta cidade que eu sou:
o sol do atlântico pode me devorar
ou a chuva do capibaribe me apodrecer.
ninguém transita ou veicula sorrisos
não chega ou se despede ninguém cotidiano
tudo sou eu que parei e descanso mortomente.
a cidade que eu sou entardecerá cinemas
crepusculabrirá bares
travestidas boates sexuais passeios
passagens noite a dentro.
amanhãserei primeiro
segunda feira
dia que te uso e mascateias

O QUE SINTO POR TI É TÃO DIFÍCIL – Idea Vilariño

O que sinto por ti é tão difícil.
Não é de rosas abrindo-se no ar,
é de rosas abrindo-se na água
o que sinto por ti. Isto que roda
ou se quebra com tantos gestos teus
ou que com tuas palavras despedaças
e que logo incorporas em um gesto
e me invade nas horas amarelas
e me deixa uma doce sede dobrada.
O que sinto por ti, tão doloroso
como pobre luz das estrelas
que chega dolorida e fatigada.
O que sinto por ti, e que no entanto
anda tanto que às vezes não chega.

SEDE - Susana Thénon

Sei que tua sede se estendeu
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.

BAINHA ABERTA - Astrid Cabral Félix de Sousa

Crava em meu corpo essa espada crua.
Quero o ardor e o êxtase da luta
em que me rendo voluntária e nua.
Meu temor é a paz pós-união:
desenlace derrota solidão.

QUANDO UM DIA ESTIVER MORTA – Marly de Oliveira

Quando um dia estiver morta
e sobre mim caírem os adjetivos mais ternos,
não vou mover um dedo
de dentro do meu silêncio:
vou desdenhar do eterno
o que sempre chegou tarde,
demais, quando já nem era preciso.