quinta-feira, 3 de setembro de 2020

TEUS CABELOS – Gilberto Amado

 

Quero louvar o zelo desenvolto
com que arranjas o próprio desmazelo,
é sempre para mim cabelo solto
por melhor penteado o teu cabelo.
Em doce névoa de volúpia envolto
gozo contente o descuidado zelo
com que logras fazer de um mar revolto
de ondas lisas o clássico modelo.
Mergulham minhas mãos na noite funda
da perturbante tempestade em ordem
que o teu rosto claríssimo circunda.
E encontram minhas mãos onde mergulham
um ninho de relâmpagos que mordem,
novelos de serpentes que fagulham.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

PARA O RETRATO DE MAMÃE - Lea Goldberg

 

Tradução de Nancy Rozenchan
.....................
Tua foto é tão tranquila. Estás diferente:
um pouco orgulhosa e perplexa por seres minha mãe.
Acompanhas com uma lágrima e com um sorriso indulgente
e jamais perguntas: “Quem?”.

Não te surpreendias nem te zangavas quando eu
chegava a ti diariamente e dizia: “Dá!”
Trouxeste-me tudo com tuas próprias mãos
só porque eu sou eu.

E mais do que eu, tu hoje me lembras
da mágoa de minha infância;
tua alma já então tinha decifrado:
quando vier a ti a filha crescida,
trará a angústia da tristeza que amadureceu.

Sim. Virei oprimida e não perguntarei por ti.
Não chorarei em teu colo, não sussurrarei “Mamãe.”
Saberás
Este que me abandonou, foi-me mais caro que tu
e não me perguntarás “Quem?”

terça-feira, 1 de setembro de 2020

HERANÇA – Ivan Miziara

 Não sou o que tem letras no nome.
Minha insígnia no mundo
tem pouco
- só sílabas, algaravias.
É como me defino nesse chão
sem amofinar com coisas pequenas
- emblemas, rimas, armadilhas.
Só me importa o corpo pronto
poema acabado e completo
meu espaço e teto.
É quem me redime
da inexistência de mim.

EPIGRAMAS - Agenor Silveira

 

- Não mais discuto contigo!
- Das-te por vencido, então?
- Isso nunca! Não prossigo..
E ... acabou-se a discussão!

- Não pudeste refutar
Nenhum dos meus argumentos!
- Porque falas por duzentos!
E não me deixas falar...

-Medroso! - Que medo incutes
Com os teus argumentos rotos?
Eu só temos os perdigotos
Que soltas quando discutes...

Com minha eloquência viva,
Com a minha ciência, não podes!
- Venceste-me com a saliva
Que me atiraste aos bigodes...