quarta-feira, 3 de março de 2021

DESESPERANÇA – Valdomiro Silveira

 

Quando passaste, pela estrada em fora,
Pendestes das ramagens, cintilavam
As alegrias róridas da aurora,
Nos angelins, que os ventos agitavam.

Pelo cairel da mata, que se enflora,
Os passarinhos lépidos gorjeavam,
Acompanhando a oscilação sonora
Dos angelins, que os ventos agitavam.

Quando te foste embora, a orquestra alada
Também se foi... — poetas que voaram,
A cantar, a revoar, pela esplanada:

No céu as nuvens da saudade erraram;
E gemiam, tristonho, junto à estrada,
Os angelins, que os ventos desfolharam.

terça-feira, 2 de março de 2021

POR ISSO - Dilan Camargo

 

Eu não queria, outra vez
me perder de tuas mãos
ver tuas lágrimas no assoalho
me esquecer que estás perto
não ler a cor dos teus olhos.

Eu não queria, outra vez
me abraçar na tua ausência
não celebrar tua alegria
te dar metade da noite
não te enfeitar de anéis.

Eu não queria, outra vez
embrutecer minhas palavras
desconhecer tua dor
deixar sem luz tua beleza
não te tirar pra dançar.

Eu não queria, outra vez
acordar seu coração
perder a chave de casa
te dar adeus em silêncio
dar por vencido o perdão.

Por isso agora eu te amo.

segunda-feira, 1 de março de 2021

O PREÇO – Charles Bukowski

 

Tradução de Jorge Wanderley
................
Bebendo um champanhe de 15 dólares
- Cordon Rouge - na companhia de putas
uma se chama Geórgia e
não é chegada em meia-calça:
estou sempre tendo que ajudá-la
com suas longas meias negras.

a outra é Pam – mais bonita
porém meio desalmada, e
fumamos e conversamos e
brinco com suas pernas e
enfio meu pé descalço na
bolsa aberta de Geórgia
está cheia de
frascos com pílulas
tomo algumas delas

“escutem”, eu digo, “uma de
Vocês tem alma, a outra
aparência. posso combinar
vocês duas? Pegar a alma
e enfiar na aparência?”

“se você me quer”, diz Pam, “vai
lhe custar cem pratas.”
bebemos um pouco mais e Geórgia
despenca no chão e não consegue
se levantar.

digo a Pam que gosto muito
de suas orelhas. seu
cabelo é longo e natural e
ruivo.

“estava de brincadeira quando falei em
cem” , ela diz.

“oh”, eu digo, quanto vai me
custar?”

ela acende um cigarro com
meu isqueiro e me olha
através da chama:

seus olhos me dizem.

“olhe” , eu digo, “acho que não
poderei pagar aquele preço novamente.”

ela cruza as pernas
dá uma tragada em seu cigarro
sorri enquanto expele a fumaça
e diz, “claro que pode”.