sexta-feira, 2 de abril de 2021

DOIS POEMAS DE CÉSAR CANTONI

 

Traduções de Ronaldo Cagiano
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AQUI NÃO HÁ DEUS

Aqui não há deus, nem grego nem romano,
que presida nenhuma cerimônia.
Não há ouro nem prêmio para os vencedores.

Aqui não há mais que um piquete de trabalhadores,
com martelos pneumáticos, quebrando a estrada,
fazendo um poço que não será nunca
o umbigo do mundo, a fonte das revelações.

Um poço mais fundo que o sentimento dos deuses,
mais negro que o próprio coração humano.
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ONDE ESTAVA DEUS?

Onde estava Deus quando se alastrou o incêndio
e a humilde casa foi devorada pelas chamas?
Como pôde estar distraído,
a uma hora da madrugada,
em pleno inverno,
enquanto as crianças
dormiam em seu quarto,
abrigados numa estufa inflamada?
Que fazia que não olhou
a sirene do caminhão do corpo de bombeiros,
os gritos sufocados da mãe
voltando do trabalho,
o desatino dos vizinhos em busca de ajuda?
Agora alguém buscará
entre os restos fumegantes
a causa do sinistro;
alguém se encarregará de formular condenações.
Mas que pode importar isso
aos pequenos mártires?
Eles querem saber
por que ficaram sem opções,
por que os cuidados do céu nunca chegam?

SEM TÍTULO - Bruno Candéas

 

a vida é mais bonita
no meio da pista

meus grandes planos
estão queimando

meus bons amigos
foragidos

a vida é mais completa
com a janela aberta

meus voos insanos
estão pousando

meus bons ruídos
constrangidos

quinta-feira, 1 de abril de 2021

CAMINHO – José Saramago

 

Há mentiras demais e compromissos
(Poemas são palavras recompostas)
E por tantas perguntas sem respostas
Mascara-se a verdade com postiços.

Não vida, nem sombra, nem razão,
É jaula de doidice furiosa,
Eriçada de gritos, angulosa,
Com estilhaços de vidro pelo chão.

E carrego de mais esta jornada
E protestos não servem, nem suores,
Já mordidos os membros de tremores,
Já vencida a bandeira e arrastada.

Depois se me apagaram os amores
Que a viagem fizeram desejada.