quarta-feira, 2 de junho de 2021

A PRIMOGÊNITA – Valdeci Ferraz

 

(Para minha filha Karla Morgana)
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Meu ser se derrama dentro de ti
Numa explosão que sufoca o grito
Nossos corpos suados, vencidos,
Sobre os lençóis deixam escritos
Versos que se fecundam.

E de repente, não mais que de repente,
Do fundo de ti uma menina nos olha
E seus olhos são garras de aço
Suas mãos tecem sonhos

A canção que a envolve
Pede para falar das flores
Porque ela não quer nascer
Entre o aço dos canhões
Nem no meio das dores

Do fundo de ti a primogênita me olha
Pela primeira vez o homem dentro de mim
Contempla a existência
E se descobre nu.

SARAIVADA – Iara Maria Carvalho

 

apresso o passo,
que lá vem o silêncio.

corra:
ele consome
suas melhores preces.

voar é grande
– então voe.

exploda
espalhe
ecoe.

não recolha os cacos de
memória e osso
nem amacie o dorso ferido
dos campos minados.

desfira um golpe
misericordioso
no corpo sem carne
do silêncio.

e com o sangue escorrido
escreva um livro.

terça-feira, 1 de junho de 2021

SOMBRAS ENTRE RUÍNAS – Candeira Filho

 

Sombras e mais sombras
de sombrios olhares
num mundo de ruínas
andam lentamente.

Estão sempre mudas
tristes e cansadas.
E nem sonham mais
com um mundo que seja
menos miserável.

A voz que, aqui,
ali ou acolá,
de quando em vez
se levanta e quebra
a monotonia
grave do silêncio,
logo se esmaece
no deserto imenso.

E só ardentes preces,
ditas em segredo,
dia e noite sobem,
sobem para um céu
mais longe que perto.

SEM PORTO – Antônio Carlos Gomes

Pelo ar, procuro o lugar
Que o mundo me reservou
Aquele que nasceu no vento
É apenas mera fumaça
Que a corrente levou.
Sou como uma bexiga azul
Num espaço sem lugar
Sigo o rumo, em sofrimento
De nunca poder parar.
Num cenário de artimanhas:
Risos soltos... muitas manhas...
Procuro sempre agarrar.
Esta fumaça enegrecida
Voa nas encostas da vida
Sinuosa sem parar.
Busco um porto no ar
Este navio veleja torto
Sem saber onde é o mar.
E o vento leva... leva...
O vento só sabe levar