quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

DOIS POEMAS – Ulisses Goes

 

ALMA DESGARRADA

A Poesia saiu de mim por esses dias
desaparatou enfeitiçada em alegrias
achando graça de suas rebeldias
carregou minha insônias e inspiração
várias flores e algum manjericão
agora vive descalça a me espionar
primorosa na arte de me decifrar
vocabulariosa e melindrosa
sussurra de longe seus esconderijos
apaga rastros de suas rotas secretas.
A Poesia anda ausente de mim
caminha silenciosa à distância
sentindo minhas outras fragrâncias
observando meus passos na chuva.
Não demora muito e ela retorna
trazendo frescas folhas de pitanga
numa xícara com água morna
e sua cândida ansiedade sem fim
para contar sem demora
tudo aquilo que viu em mim.
....
ALMA SAUDOSA

Na noite em que a Lua ocultou Marte
a Poesia bateu mansa em minha porta
numa mão trazia palavras mal ditas
na outra, malditas palavras francas
seus olhos ensaiavam sorrisos
sua boca pronunciava silêncios.
Mais velha, madura e mais dura
os cabelos tingidos de vermelho poente
o infinito tatuado no ombro esquerdo.
Mostrou seus pés sujos de terra
marcados pela trincheiras de guerras
travadas por mais de 480 dias
contra uma saudade que sentia por mim
ardendo gélida em seu coração de jasmim.
Rasgou seu peito em cerejeiras brancas
Sufocou-me num doce abraço, pediu colo
e eu lhe ofereci todo o carinho
que estava guardado em meu
pequeno universo particular.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

O HOMEM QUE DEU A LUZ A UM MENINO - Manoel Caboclo e Silva

 

O poeta é um repórter
De pensamento ligado
Ouvindo o que o povo diz
Fazendo todo apanhado
E sai contando na rua
Tudo quanto foi passado

Se viu na televisão
Contando toda verdade
Que um cientista disse
Que há possibilidade
De um homem ter um filho
Havendo oportunidade.

Agora chegou o tempo
Das coisas tudo mudar
O homem ficar em casa
E a mulher vai trabalhar
Não querendo ter mais filhos
Mandando a trompa ligar

Com esse aperto de vida
Aumenta o peso da cruz
A fome avança no lar
O dinheiro se reduz
Apareceu este meio
Para o homem dar à luz

Começou por Zé Totonho
Maria da Conceição.
A mulher disse para ele:
Vou fazer a ligação
Eu não quero mais ter filhos.
Totonho disse: isto não

Ele disse Mariquinha
Isto você não arranja
Porque deixa a mulher fria
Igual a um pinto de granja
A mulher disse eu vou
Nem que o diabo "franja"

Tem quase setenta anos
Fez agora a ligação
Para não perder os planos
E eu vou fazer também
Para não haver desenganos

Seguiu dali foi ao médico
E fez logo a ligação
Para nunca mais ter filhos.
Totonho disse então:
Saiba que vou embora
E arrumou o matulão

Daquele dia em diante
Totonho se ausentou
E não dormiu mais em casa
Num cabaré se arranchou
Quando menos esperava
Totonho engravidou

Nisto ele conheceu
Que a mulher tinha razão,
Vendo o bucho crescer
Totonho passava a mão
O menino dava pulos
Parecia um tubarão

Segurado numa corda
Totonho em agonia
Se contorcendo de dores
O menino estremecia
E a negrada dizendo:
Zé Totonho vai dá cria!

Chamaram dona Maria
Para pegar a criança
A parteira experiente
Disse logo sem tardança
Pra este menino nascer
Preciso cortar a pança

Mandaram chamar um médico
Que era a única esperança
Quando o médico chegou
De Totonho cortou a pança
No dia 4 de agosto
Nasceu a dita criança

Deu-se um grande rebuliço
Quando o menino nasceu
Às doze horas da noite
Um terremoto se deu
Pro lado do estrangeiro
Que muita gente morreu

Os galos se espantaram
Numa zoada tremenda
Os cachorro alarmaram
Numa enorme contenda
Todo povo admirado
De ver aquela legenda

Nisto o menino falou
Para o povo que assistia
Dizendo meu pai agora
Me leva à água da pia
Porque este mundo velho
Está chegando o último dia

Desde o ano de oitenta
Quando começou o jogo
As coisas mudaram muito
O mundo vai pegar fogo
Já marcado por Deus
Não adianta mais rogo

Logo o menino calou-se
O pai ficou conformado
Dizendo isto acontece
A quem está desempregado
Mas minha mulher trabalha
Vai criá-lo com cuidado

Mariquinha disse: Totonho
A preguiça é um horror
Quando se perde o emprego
Procura outro que for
Pois nunca falta serviço
Pro homem trabalhador

O Totonho lhe respondeu:
O trabalho é muito ruim
Abandonei a enxada
Pode ela levar fim
Quando eu puxava por ela
Ela puxava por mim

É melhor se ter um filho
E durante seu resguardo
Beber caldo de urubu
Comer cururu torrado
Ou ser um guia de cego
De que ir para o roçado

A mulher disse Totonho
Esse ato é muito baixo
Eu não sou bananeira
Pra criar filho de macho
Vou chamar Zé caçador
Para derribar-lhe o caixo

ESTÁTUAS VIVAS – Rafael Rocha

Do livro “Meio a Meio” – Ano 1979
........
Os homens estão perdendo as auroras
na noite negra que desaba sobre o mundo.
Junto a que ideal anda a palavra da ordem
para essa dor que rola aos nossos pés?

Palácios são erguidos aos caudilhos da terra
e o construtor de estátuas
perde-se no crepúsculo.

As faces dos homens andam iguais a pedras.
Por que eles estão distantes?
Por que eles estão tão frios?

De hora à outra as auroras adormecem
e uma noite escura desaba sobre os homens.

Apenas uma ansiedade envolve a história
num surto de gritos e gemidos e belicismos.
 
E mesmo com os olhos buscando o orvalho
os homens ficam a vagar no frio do inverno.

E palácios são erguidos...
Palácios são erguidos aos caudilhos da Terra!
E os lapidadores da pedra dormem sob a lama!

Por que eles não acordam?
Por que são tão frios como as estátuas?