sábado, 1 de janeiro de 2022

RECEITA DE ANO NOVO – Carlos Drummond de Andrade

 

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação
como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo,
remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo,
que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanhe
ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo,
eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

LIMITE - Cacilda de Lourdes Gallo Guimarães

 

Há um grande cansaço rondando...
Conduzindo o mundo...
Lá no fundo
no âmago profundo
Uma ojeriza cresce,
Estreitando o grande espaço
Umbilical, hormonal, essencial...

Há um cansaço rondando
Reduzindo as mentes...
Lá no fundo
As paredes se comprimem
Uma fonte fenece
diminuindo o espaço criador
Intelectual, estrutural, essencial...

Há um cansaço...
Reduzindo tudo...
As mentes enegrecidas
Os corpos encolhidos, cimentados.
As visões tolhidas
Pelo desaparecimento dos ideais
Os afetos esquecidos, esbulhados...

ITINERÁRIO – Rafael Rocha

 

Do livro “Abismo das Máscaras” (2017)
......
O tempo não tem horário
é um itinerário
onde apenas há passado
coisas gastas
e antigas
como o espaço
onde estamos
a esperar:
o último terminal.

O poeta aguarda
ainda
com esperanças
e vive entre homens
e mulheres
dentro de uma abóbada
vazia
respeitando
o trâmite silencioso
das coisas
transmudadas
em nada.

Ele é dono
de tantas esperas
está aqui
como criança nua
(tristemente nua)
quase no fim do itinerário
e quase a ser passado.

A vida
ofereceu coisas
para chorar
e outras pequenas
para alegrá-lo
mas todo poeta
tem dessas coisas
antes do esvanecimento.

Sobram terra e vegetais.
Sobram recordações.