quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

URUCUNGO DE PAI JOÃO – Lino Guedes

 

Pai João, urubuzado,
Lá no fundo da tapera,
Vive soturno, o coitado,
Pai João, por quem espera?

Pai João, por quem suspira?
Por quem sofre, Pai João?
Por quem dedilha essa lira,
Lira de dor e aflição?

Urucungo companheiro
Do velho negro Pai João,
Que te diz teu companheiro,
Amigo da solidão?

"Urucungo companheiro,
Amigo de Pai João,
Quando diz que "sim" é sim,
Quando diz que "não" é não.

E o pobre do velho escravo,
Como se julga feliz,
Como ele se sente um bravo,
Quando o urucungo lhe diz:

"Preto do Congo, trazido
Lá do africano sertão,
Quando diz que "sim" é sim
Quando diz que "não" é não.

Mas quando Pai João pergunta
Quando virá seu amor,
Quando ele verá defunta
A visão da sua dor;

O velho urucungo estala,
Estica a corda e delira,
Quer mesmo falar, não fala,
Em vez de dizer, suspira;

"Urucungo nada sabe.
Pois mulher e coração,
Se dizem que "não" é sim,
Se dizem que "sim" é não. . .

ACORDO - Jacinto Fabio Corrêa

 

Escuta meu desespero mudo
e surge do nada com rosas invisíveis.
Nada me dá:
repousa o carinho no vaso quebrado.

Escuto mudo seu desespero
e colho no silêncio pétalas vencidas.
Nada lhe dou:
passo a vida a regar os anos de nossa distância.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

MARINHA – Gastão de Holanda

 

O abismo não tem cor
A profundeza íntima de uma onda
Arregimenta sombras,
Oferece alternativas
De intestinos ou os tácitos
Disfarces dos afogados.

Mas o segredo emerge e guarda
Uma estrutura de correntes
e delírios
Que, conforme nossos cálculos
Nos compromete com o tigre da conflagração.